Capítulo 1 Mudanças

3 1 0
                                        


Eram meados de janeiro. O sol escorria preguiçoso pelas ruas da cidade, deixando tudo mais lento, mais abafado, como se até o tempo tivesse tirado férias. O ventilador girava no teto do meu quarto com um rangido hipnótico, espalhando um ar morno que mal dava conta do calor. Eu estava ali, jogada na cama, pernas cruzadas no ar, o edredom felpudo (sim, aquele companheiro fiel desde o fundamental) meio escorregado pelas bordas. As férias estavam quase no fim - e eu, como sempre, já marcava os dias no calendário como se estivesse contando para uma grande estreia.

Mas esse ano era diferente. Em março, eu completaria 15 anos. Quinze. Uma idade que parecia vir carregada de promessas, dilemas e dilemas ainda maiores. E junto com ela, o tão aguardado - ou temido - ensino médio. Um novo ciclo. Novas turmas. Novos professores. E, quem sabe, uma nova versão de mim mesma.

Na escola, eu nunca fui protagonista. Nada de andar pelos corredores com aquele ar confiante de quem tem uma história pra contar. Eu era sombra. Invisível. Moletom largo, fones de ouvido no último volume, olhar fixo no chão como quem buscava respostas nos ladrilhos. Evitar contato visual? Especialidade da casa.

Olhos esverdeados, escondidos por um olhar sempre meio triste, como se carregassem mais do que deviam. Lábios carnudos que quase nunca sorriam de verdade - só de canto, quando ninguém estava olhando. 1,65 de altura. Nem baixa o suficiente para ser considerada delicada, nem alta o bastante para inspirar aquele tipo de respeito automático que atribuem às garotas "poderosas". Eu era o meio termo. O intervalo entre extremos. Aquela categoria esquecida nos discursos sobre presença: discreta demais para ser lembrada, mas intensa o suficiente para ser sentida - se alguém parasse para notar.

Mas naquele verão algo mudou.

Talvez fossem as madrugadas embaladas por maratonas de séries adolescentes. Aqueles enredos onde a garota tímida e "esquisita" virava protagonista - a estrela que ninguém viu chegando, mas que, de repente, todos queriam ouvir. Eu assistia com os olhos brilhando, como se cada cena plantasse uma semente de coragem em mim. Aquilo me consumia de um jeito diferente.

Naquela tarde, meu quarto parecia um universo paralelo. As luzes de LED piscavam lentamente na parede, em tons de rosa e azul, criando uma atmosfera que oscilava entre sonho e possibilidade. O mural improvisado ao lado da cama contava histórias soltas: frases arrancadas de revistas, colagens meio tortas, desenhos meus rabiscados em tardes de tédio. Era um caos bonito. Meu caos.

Com o celular apoiado no travesseiro, eu assistia ao décimo vídeo do dia: "5 passos para se tornar mais confiante". A voz da youtuber soava doce, quase hipnótica. O sorriso dela era tão seguro, tão natural. A pele perfeita, o delineado impecável... tudo nela gritava "eu me amo". E eu ali, com o cabelo preso num coque frouxo, os cachos ressecados escapando pelos lados, a testa suada e a alma inquieta.

Dei pause no vídeo e fiquei ali, em silêncio, por alguns segundos. Virei lentamente o rosto para o espelho da penteadeira, como se estivesse me vendo pela primeira vez em muito tempo. Meu reflexo me encarava de volta com uma mistura estranha de cansaço e esperança - como quem já chorou muito, mas ainda acredita que algo bonito pode acontecer. Passei os dedos pelos cabelos, separando os fios com cuidado, quase como se procurasse por alguma resposta escondida ali. Ele não era feio. Só parecia... esquecido. E, de certo modo, talvez eu também estivesse assim: esquecida de mim.

Me levantei num impulso, movida por uma urgência que eu nem sabia que existia dentro de mim. Atravessei o corredor com o coração disparado, os pés descalços batendo no chão frio e fazendo um barulho que soava alto demais para o silêncio da casa. A sala estava abafada, o ventilador oscilava de um lado para o outro, lançando rajadas mornas de ar enquanto o jornal da noite trazia as mesmas notícias tristes de sempre. Minha mãe estava sentada no sofá, os olhos vidrados na televisão, mas desviou o olhar quando sentiu minha presença.

Meu doce janeiroDes histoires addictives. Découvrez maintenant