Capítulo 1 - O homem da luz baixa

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Capítulo 1 – O homem da luz baixa

(narrado por Clara Nogueira)

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Dizem que a primeira impressão é a que fica, mas eu não sei se concordo.
A primeira vez que vi Miguel Vasconcellos, ele estava de costas para mim, iluminado apenas pela luz amarelada de uma luminária antiga, em uma das mesas do fundo da biblioteca. Silencioso, imóvel, mergulhado em papéis amarelados como se ali estivesse decifrando os ossos do tempo.

Não era comum alguém aparecer tão cedo — e nunca sem aviso. Mas ele estava lá. Camisa cinza dobrada nos cotovelos, cabelos escuros um pouco bagunçados, e uma expressão que misturava cansaço e concentração. Um tipo de beleza que não pedia atenção, mas a roubava mesmo assim.

Eu estava com uma pilha de livros nos braços e um coração inquieto por dentro. Não pelos livros — mas por causa da carta. Aquela que eu havia encontrado dias antes, entre as páginas de um romance esquecido, assinada por alguém chamada Aurora, endereçada a um tal Luiz. Havia algo naquela carta que mexera comigo. Algo que me fazia sentir que ela não era apenas uma lembrança, mas um começo.

E talvez, por instinto — ou por desassossego —, eu soubesse que o homem da luz baixa era o próximo capítulo.

— Com licença — minha voz soou mais tímida do que imaginei. — A biblioteca ainda não está oficialmente aberta, mas... posso ajudar com alguma coisa?

Ele olhou para mim com olhos escuros e sérios, como quem havia sido puxado de outra época.

— Você é Clara Nogueira? — perguntou.

Demorei um segundo para responder. O jeito como ele disse meu nome foi firme, como se já o conhecesse. Ou como se tivesse decorado de alguma lista.

— Sou. E você é...?

— Miguel Vasconcellos. Historiador. Falei com a diretora semana passada. Me deixaram usar o acervo enquanto trabalho em um levantamento de arquivos da ditadura.

O nome fez meu estômago revirar. Vasconcellos.
Luiz Vasconcellos. O nome na carta.

— Você disse... Vasconcellos? —

— Por acaso você conhece Luiz Vasconcelos?_ perguntei já sabendo a resposta.

Ele assentiu. Com calma. Com um peso que eu não sabia nomear.

Qual a chance disso acontecer? Impossível. No entanto Miguel Vasconcelos respondeu.

— Luiz Vasconcellos era meu avô.

E então, como se algo maior que nós tivesse decidido aquele encontro, eu tirei o envelope da bolsa e estendi para ele.

— Acho que isso é seu.

Miguel não moveu os olhos dos meus enquanto pegava o envelope. A fita azul estava gasta, o papel dobrado quatro vezes. Quando ele o abriu e viu a caligrafia, o silêncio entre nós se tornou mais denso que qualquer parede de concreto.

Ele leu a primeira linha e prendeu a respiração. Depois a segunda. Na terceira, os olhos dele marejaram, mas ele não desviou.

— É dela. — disse ele, num sussurro. — Aurora.

Eu queria dizer algo, qualquer coisa. Mas fiquei ali, observando um homem ler uma carta escrita décadas antes do nosso encontro, e perceber que, naquele exato momento, o passado estava se reescrevendo diante de nós.


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⏰ Last updated: Jun 01, 2025 ⏰

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