O céu estava coberto por nuvens pesadas quando o trem parou na pequena estação de Chiang Dao, uma cidade pacata e cercada por montanhas ao norte da Tailândia. Quando as portas se abriram, Natasit Uareksit desceu com uma mala grande e uma mochila pendurada no ombro. O ar tinha um cheiro fresco e limpo — diferente de Bangkok, mas também mais silencioso. Silencioso demais para alguém carregando tanta dor.
Foram apenas três meses desde que seu irmão gêmeo, Nuea, morrera em um acidente de moto. Três meses que pareciam um ciclo sem fim de mágoa, culpa e rejeição. A convivência com sua mãe, que já era difícil, tornou-se insuportável. Ela nunca escondeu a preferência por Nuea. E com sua morte, pareceu que Nat era apenas um lembrete do que ela perdeu — não um filho, mas uma sombra.
Então, quando o pai com quem ele mal falava ofereceu uma nova chance — um novo lar — Nat aceitou. Talvez por desespero. Talvez por esperança.
— Vamos ver o que sobrou de mim aqui... — ele murmurou ao pisar na plataforma.
Na saída, um carro esperava. Dentro dele, estavam Tanya, a madrasta de Nat — uma mulher calorosa de fala doce — e sua filha mais velha de outro casamento, Nina, uma jovem universitária de vinte e dois anos, bonita, ousada e com olhos que diziam “eu vejo mais do que você pensa”.
— Você tá mais bonito do que nas fotos, Nat — Nina comentou, saindo do banco de trás. — Mas esse cabelo precisa de ajuda. E esse humor? Pior que o meu pai.
— Oi pra você também... — ele respondeu, tentando sorrir.
Ela riu.
— Bem-vindo à nossa confusão. Você vai se acostumar.
Três Semanas Depois – Universidade de Chiang Dao
Nat entrava no prédio principal da universidade com a cabeça baixa, camisa branca perfeitamente passada, jeans escuros e fones de ouvido que não tocavam nada — só estavam lá pra afastar o mundo. A cidade era menor, o campus era menor, mas a sensação de ser um estranho era a mesma.
Foi Nina quem o arrastou para o meio social da faculdade. Ela estudava administração e o guiava com um olhar protetor, apesar de ser meio bruta às vezes. Seu namorado, Mark, fazia parte do pacote. Alto, forte, e meio intimidador, Mark o analisou em silêncio por uns bons minutos antes de soltar:
— Ele é mais fofo do que pensei.
— Eu sei — Nina respondeu, com orgulho. — É meu irmão, né?
— Não exatamente...
— Silêncio, Mark.
E foi assim que, dias depois, ela apareceu no quarto de Nat, já arrumada com um vestido colado, batom vermelho e olhar decidido.
— Hoje você vai sair comigo. E com o Mark. Tem uma balada nova. Você precisa parar de se esconder.
— Eu não...
— Sem desculpas, bebê. Põe a camisa preta que eu sequestrei no seu armário. A justa.
Sexta-feira à Noite – Balada “Rapture”
As luzes piscavam como se competissem com as estrelas. O som da música invadia o corpo. O ar cheirava a perfume doce, álcool e juventude. Nat encostava no balcão com uma bebida nas mãos, observando o movimento. Estava com a tal camisa justa, calça preta, cabelo bem arrumado. Ainda assim, sentia-se fora de lugar.
— Tá parecendo um príncipe triste — Nina provocou, tomando um gole do drink.
— Talvez eu seja.
— Então vamos encontrar o seu castelo. Olha em volta. Algum alvo?
Nat riu, balançando a cabeça. Mas foi nesse momento que o destino resolveu agir.
Do outro lado da pista, um homem acabara de entrar. Max Kornthas. Usava camisa preta, dobrada nos cotovelos, jeans escuros e óculos de armação fina. Os cabelos estavam penteados com leveza e o rosto — com aquela barba por fazer e um olhar indecifrável — fazia com que todos parassem por um segundo.
Nat ficou hipnotizado.
— Quem é aquele? — sussurrou.
— Nunca vi antes — respondeu Mark. — Deve ser de fora.
E de fato era.
Max estava de volta. Após anos vivendo em Bangkok e no exterior, depois da morte de sua mãe, ele nunca achou que pisaria novamente em Chiang Dao. Mas a proposta da universidade era boa, e algo dentro dele precisava se reconectar com suas raízes. Voltar como professor era sua chance de recomeçar... com discrição. A aula inaugural seria na segunda-feira. Ninguém sabia ainda quem ele era. E ele preferia assim.
Só queria uma noite para respirar. Para esquecer.
Mas quando viu aquele garoto delicado no balcão, com a expressão solitária e encantadora, Max sentiu algo inexplicável.
Foi até ele.
— Primeira vez aqui? — perguntou, inclinado perto do ouvido do garoto.
— É... — Nat respondeu, envergonhado. — Minha irmã me arrastou.
— Ela fez bem.
Nat mordeu o lábio, desviando os olhos. Max se aproximou, sutil.
— Você dança?
— Mal.
— Eu gosto de desafios.
E o levou para a pista.
Os corpos se tocaram, se moldaram um ao outro. O toque de Max era quente e firme. Os olhos escuros dele não desgrudavam dos de Nat. Quando os lábios se encontraram, foi como um incêndio silencioso. Intenso. Inegável.
Mais tarde, no quarto de hotel, o mundo se reduziu ao cheiro de pele, aos gemidos abafados e aos suspiros entre os lençóis. Max era intenso, mas respeitoso. Forte, mas gentil. Olhava para Nat como se fosse algo precioso.
— Você parece um anjo — sussurrou, acariciando seus cabelos depois do clímax.
— E você... — Nat disse, ofegante — parece problema.
Max sorriu, beijando sua testa.
— Talvez seja.
Segunda-feira – Universidade de Chiang Dao
Nat caminhava pelo corredor da universidade, ainda com a lembrança da noite queimando sob a pele. Um segredo delicioso. Um pecado em forma de memória.
Ele entrou na sala, ajeitou os materiais, e esperou.
Minutos depois, a porta se abriu.
E o mundo parou.
Max entrou. Usava blazer, camisa branca e os mesmos óculos. Carregava uma pasta e uma postura impecável.
— Bom dia, turma. Meu nome é Professor Kornthas, e estarei com vocês neste semestre em Direito Constitucional.
O olhar de Max cruzou com o de Nat por um segundo — um segundo que durou uma eternidade.
Nat sentiu o coração parar.
Max manteve o olhar profissional, mas por dentro, estava em choque.
— Ele é meu aluno...
— Ele é meu professor...
O destino, definitivamente, tinha um senso de humor cruel.
OMG professor e alunos que babado, como será agora ???
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Entre Leis e Desejos
RomanceApós a morte do irmão gêmeo, Nat recomeça a vida em uma cidade menor, tentando curar feridas antigas e reconstruir os laços com o pai. Em uma noite de liberdade, ele se entrega a um desconhecido misterioso - sem saber que, dias depois, aquele homem...
