O som da chuva era constante, como uma respiração que não pertencia a ninguém.
Harry caminhava sem pressa pelas pedras escorregadias do Beco Diagonal, os passos ecoando em becos que pareciam tão vazios quanto ele se sentia. O capuz do casaco encharcado mal conseguia protegê-lo, mas ele não se importava. Talvez até preferisse assim. A água escorrendo por seu rosto se misturava com o frio no peito — e era bom fingir que aquilo vinha de fora.
Não havia um motivo claro para ele estar ali. Ginny tinha parado de perguntar por que ele saía sem avisar. Hermione aprendera a não insistir quando ele dizia que precisava "pensar". E Ron… bom, Ron havia aprendido a se calar. Todos tinham seguido em frente, de uma forma ou de outra.
Harry, não.
Desde o fim da guerra, as manhãs pareciam ecoar um cansaço que não passava. Os dias vinham e iam como ondas cinzentas — nada o tocava. Era como se a guerra tivesse deixado um ruído permanente em seu corpo, uma estática de ausência.
Não era solidão, exatamente. Era algo mais profundo. Uma espécie de vazio onde antes havia propósito. Missão. Movimento. Agora, tudo era silêncio.
Harry caminhava pelas ruas como quem esqueceu como se pertence ao mundo. Os passos eram firmes por hábito, não por vontade. O peso do seu próprio corpo parecia maior, como se a gravidade soubesse do que ele carregava por dentro. Os olhos, outrora vivos com a chama da luta, estavam agora opacos — verdes como vidro antigo, empoeirado, incapazes de refletir qualquer luz.
Os dias passavam, um após o outro, iguais, arrastados. O tempo não doía mais — apenas pesava. Ele acordava cedo porque dormir demais significava sonhar, e sonhar era perigoso. Significava lembrar. De guerras. De gritos. De olhos que se apagaram diante dos seus. De tudo o que ele foi obrigado a ser.
Vivia rodeado de pessoas, mas sentia-se permanentemente só. As conversas pareciam ruído, e os sorrisos dos outros batiam contra ele como chuva contra vidro: ele via, sentia, mas não conseguia se molhar. Estava ali… mas não estava.
Por dentro, era como um campo depois da batalha: silencioso, devastado, cinzento. Nenhuma emoção nascia ali há algum tempo. Era como se seu coração estivesse envolto em lã grossa — tudo abafado, tudo distante.
Havia momentos em que se olhava no espelho e não se reconhecia. Não pelo rosto envelhecido antes da hora, nem pelas cicatrizes, mas por dentro — por já não saber quem era quando não estava lutando por algo, quando não estava salvando alguém.
Ele não chorava. Não sorria. Não se irritava. Apenas existia.
E isso, talvez, fosse o que mais doía: não sentir nada.
Passou em frente à loja de doces nova onde outrora fora a Gemialidades Weasley. A fachada moderna parecia um ultraje ao que existia antes. Harry olhou para a vidraça, mas viu apenas seu reflexo — olhos apagados, cabelo molhado, uma figura que não reconhecia.
Ele continuou andando.
Não havia multidão. As lojas já estavam fechadas, e apenas a luz fraca dos postes mágicos iluminava o beco, como se a própria magia estivesse cansada.
Às vezes, ele pensava que não sobrevivera. Que talvez tivesse morrido lá, no Salão Principal, ou na Floresta Proibida, ou naquele momento em que encarou Voldemort de frente. Às vezes, parecia que só o corpo voltara. O resto… bem, o resto ainda vagava por algum lugar.
Ele não lia mais os jornais. Não frequentava o Ministério. Recusara todas as ofertas para ser Auror. Que sentido fazia caçar vestígios de escuridão quando a pior parte da escuridão ainda vivia dentro dele?
Naquela noite, como em tantas outras, ele procurava algo sem nome. Um lugar, uma sensação, um ruído qualquer que quebrasse a monotonia fria do seu peito. Não era fuga. Era insistência. Como alguém que volta ao mesmo lugar esperando que, um dia, algo mude.
Foi então que parou. Algo o fez olhar para o lado.
A antiga Floreios e Borrões.
Mas agora, com outro nome, uma fachada reformada. As letras douradas diziam “Letras & Encantos”. Uma livraria nova. Aberta até tarde, pelo que parecia. A luz quente no interior contrastava com o frio do lado de fora. Era acolhedora. Injustamente acolhedora.
E ali, na porta envidraçada, havia alguém.
Alto. Magro. Casaco escuro. Os cabelos claros. O rosto voltado para ele.
Harry soube quem era antes mesmo de ver os olhos.
Draco Malfoy.
Draco Malfoy era um homem de silêncios bem treinados.
O tempo o refinara como se esculpido em pedra fria e elegante — não quebrado, mas gasto nos contornos. Os traços aristocráticos ainda estavam lá, intactos, como esboços de uma infância que parecia pertencer a outro nome, outra história. Mas os olhos... os olhos haviam mudado. Cinzentos, sim, mas não mais arrogantes — agora, eram como céu nublado antes da chuva: pesados, insondáveis, e carregando promessas que nunca se cumpriram.
O cabelo, outrora cuidadosamente penteado, agora caía com naturalidade, mais comprido, sem se importar em esconder os fios desalinhados. A postura ainda era ereta, herança da educação rigorosa, mas nos ombros havia uma constante rigidez, como se carregasse uma culpa que nunca repousava.
Draco falava pouco. Preferia observar — o mundo, as pessoas, os próprios gestos — como quem ainda não aprendeu se pode ou não confiar. Trabalhava com os livros como se estivesse restaurando pedaços de si mesmo: pacientemente, com dedos delicados, tentando encontrar ordem no caos.
Às vezes, passava longos minutos fitando o nada. E era nesses momentos que se notava: Draco não era frio. Era alguém que aprendera a ser gelo para sobreviver ao fogo. Um homem que suportara mais do que dizia. Que amava mais do que permitia. Que temia mais do que mostrava.
E ainda assim, havia beleza no modo como ele existia em silêncio. Como uma página antiga e preciosa — com marcas, sim, com cicatrizes — mas que ainda guardava palavras importantes. Que, se alguém tivesse coragem de ler, talvez encontrasse ali uma história de redenção.
Ficaram ali, por um segundo eterno. A chuva diminuía, como se até o tempo soubesse que algo havia mudado. Um momento tão delicado que, se alguém falasse alto, talvez quebrasse.
Draco não se moveu. Nem Harry.
Só o olhar deles se encontrou — e, pela primeira vez em muito tempo, Harry sentiu algo. Algo pequeno, frágil. Um tremor dentro do vazio. Um sinal de que ele ainda estava aqui.
E talvez Draco também estivesse.
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Slow it down
FanficNo silêncio das cicatrizes e nas sombras do passado, dois corações se encontram - lentos, hesitantes, mas firmes. Harry e Draco, marcados pela guerra e pela distância, descobrem que o amor verdadeiro não se apressa, floresce devagar, entre sorrisos...
