Sua tia já havia lhe alertado que suas andanças pelas terras de outrem não eram apropriadas, muito menos para uma dama com o nome a qual carrega.
Rio não poderia levar menos essa perspectiva em consideração. Os presentes concedidos à quem agora anda a terra cresciam dentro da sua própria disciplina, a ordem natural de todas as coisas.
Eram muito mais que bens a serem apossados, do que meras "terras". Não eram de outrem, eram tão parte dela quanto de qualquer outro.
É por isso que, à primeira vista, não se fascinou nem um pouco por aquele que estradava em meio à floresta, distante em sua cavalgada solitária. Não ousou se aproximar mais, pois jurou não fazer mal a qualquer criatura inocente e aquele cavalo nenhum mal fez por escolha própria. Guardou na memória, porém, o que era possível da figura que cavalgava. Mechas marrons que voavam livres, as vestes certamente extravagantes demais para aquela situação. O rosto alvo era a única pele exposta, em seus lábios um sorriso satisfeito. O que mais chama atenção, porém, são os olhos. Orbes brilhantes que, mesmo à distância pareciam um borrão cor de mar.
Havia uma energia forte que a rodeava. Não era maldosa, não por natureza, pelo menos, mas também não era em toda pura. Havia uma sombra que persistia, faminta, não, insaciável. Havia, também, uma força que parecia chamar Rio para perto. Quase como se aquela pessoa pudesse a compreender, verdadeiramente a compreender. Intrigou-se, de fato, porém não se deixaria fascinar.
Nenhum homem jamais mereceria seu fascínio.
Dias se passaram até que sentisse sua potência de novo. Vagava por onde a lei comum saberia lhe dizer ao domínio de quem pertence. Perto o suficiente para andar a cavalo enquanto o sol ainda brilha sobre a terra, longe o suficiente para não estar perto de casa. A mata pouco densa se tornando distante conforme se aproximava da do penhasco.
Rio desmonta do alazão e amarra suas botas marrons à sela, logo permitindo que o animal trotasse livremente. Não iria longe, a mulher se certificara disto. Rio fecha os olhos, sentindo o verde abraçar seus pés. A brisa beija seu rosto e carrega consigo o aroma das flores; doces, críticas, delicadas, intensas— selvagens. Liberdade, enfim.
O farfalhar da grama acompanha seus passos até a beira. Ela olha para além da borda, para baixo, para o plácido azul do destino final. Entretanto, algo dentro de si a põe em alerta, trazendo um lembrete.
Não era a hora, não agora. Falta algo.
E então dá um passo atrás e se deita, tentando deixar que a preocupação se tornesse uma memória qualquer. A relva lhe concede isso de bom grado, deixando que deposite silenciosamente nela todos os seus anseios através do que corre em suas veias. Em troca, ela parecia cada segundo mais viva em sua volta.
Apenas o uivo do vento e a melodia distante dos pássaros se fazem ouvidos, até que um trotar começa a se aproximar. Não tarda até que volte a ter companhia:
— Aí está você.
Uma mancha preta se aproxima entre as folhas verdes, até que mulher e cavalo páram bruscamente. A viúva desce, segurando firmemente as rédeas do animal arisco contra si, obrigando-o a acompanhá-la enquanto anda em direção a mulher. Os saltos de suas botas se impunham desengonçados sobre a grama alta, o que só tornava sua irritação ainda mais aparente:
— No que estava pensando?
Rio solta um suspiro e se senta. Sua expressão não deixa transparecer nada se não o completo desinteresse:
— Estava indisposta.
— Então abandona a sala sem qualquer justificativa plausível?
Ela aumenta a voz. Seus olhos negros e exasperados demandavam uma resposta; por que Rio havia, mais uma vez, comprometido suas chances com um pretendente perfeitamente aceitável? Ela demanda explicações, mas encontra o total silêncio da mais nova:
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Safe Passage
FanfictionQuando o peso de seu dever se torna mais forte que qualquer futilidade mundana, Rio se encontra numa jornada para ter seu maior desejo concedido: Encontrar a árvore mãe e, com isso, o seu doce fim. O que acontece, porém, quando seu destino final es...
