O céu sobre Hogwarts estava cinza como pedra, e a neve caía em silêncio, cobrindo os jardins, as corujas e as memórias.
Era dezembro, e a escola parecia suspensa entre um tempo e outro — como se nada realmente acontecesse ali além de esperas e sussurros gelados.
Harry andava sozinho, as mãos enterradas nos bolsos do casaco e os óculos embaçados pela respiração quente. Era uma tarde de domingo e, por alguma razão, ele não conseguia ficar no Salão Comunal.
O riso de Rony e o jeito ansioso de Hermione enchiam o ar de vida, mas ele se sentia… deslocado. Como se seu próprio corpo não coubesse mais na pele.
Ele atravessou o pátio coberto de neve, os passos afundando no branco intocado. Foi então que ouviu.
— Vai continuar a seguir-me , Potter?
Harry congelou.
A voz viera de trás de uma pilastra de pedra, entrelaçada por heras secas. Ele a reconheceria em qualquer lugar.
— Não te estou a seguir.— respondeu, automático, virando-se.
Draco Malfoy estava ali, de costas para ele, com o cabelo molhado pela neve e as mãos fechadas dentro das mangas da capa. Havia algo estranho naquela cena: o silêncio dele, a falta do sorriso zombeteiro, o jeito como olhava para o nada.
— Então está o quê? — Draco virou-se devagar. — A fugir também?
Harry não respondeu. Havia algo naquela pergunta que parecia... real demais.
— Tu nunca está sozinho. Onde estão teus dois cachorrinhos? — continuou Draco, mas a frase saiu sem veneno. Soou quase... vazia.
— Hermione está na biblioteca. Rony, acho que foi jogar xadrez com Neville.
Draco assentiu, olhando para o chão.
— Imaginei.
O silêncio caiu entre os dois. Um silêncio pesado, denso. Não era o silêncio das aulas ou das punições — era outro tipo. Um que vinha de dentro.
Harry sentiu algo estranho no peito. Curiosidade, talvez. Ou o desejo repentino de entender o que havia por trás daquele olhar distante.
— O que tu estás a fazer aqui, Malfoy?
Draco hesitou. Depois, com a voz baixa:
— Eu venho aqui às vezes... para esquecer que estou onde estou.
Harry não sabia o que dizer. Era como ver uma rachadura na parede de pedra — pequena, mas real.
— Por que me contarias isso?
Draco olhou para ele, os olhos cinzentos sem escudo.
— Talvez porque hoje tu não olhes como sempre olhas.
Harry deu um passo à frente.
— E como eu olho?
Draco sorriu — não com sarcasmo, mas com tristeza.
— Como se eu fosse um erro.
Harry ficou em silêncio. O vento soprou forte, e a neve ficou mais densa. Um floco pousou na ponta do nariz de Harry, mas ele não se mexeu.
— Eu nunca… — começou ele, mas não terminou. Parte dele achava que talvez tivesse olhado assim, sim. Desde o início.
Draco virou o rosto, como se não aguentasse mais ser visto.
— Deixa pra lá. — murmurou. — Amanhã voltamos a odiar-nos e pronto.
Harry sentiu um impulso estranho. De falar. De ficar. De quebrar algo que nem sabia que estava preso dentro de si.
— Por que tu odeias tanto tudo?
A pergunta saiu antes que pudesse evitar. Não com raiva, mas com uma curiosidade vulnerável.
Draco demorou a responder.
— Porque é mais fácil do que admitir que eu tenho medo.
Essas palavras ficaram no ar entre eles, penduradas no frio.
— Medo do quê?
— De tudo. — Draco desviou os olhos. — Do que esperam de mim. De não ser o suficiente. De ser o que sou e mesmo assim... continuar vazio.
Harry engoliu seco. Nunca tinha visto Draco assim. Tão despido. Tão real. Era como se, por um momento, estivessem ambos fora de Hogwarts. Fora do tempo.
— Tu já pensaste em desaparecer? — Draco perguntou de repente, quase num sussurro. — Tipo… perder-te no meio da Floresta, tranformar-te coruja, sei lá. Qualquer coisa que não seja... isto?
Harry assentiu. Nem precisou mentir.
— Mais vezes do que eu gostaria.
Draco olhou para ele, surpreso. Depois deu um passo para mais perto.
— Então talvez tu não sejas tão diferente.
— Talvez ...
O momento ficou suspenso. A respiração deles formava nuvens entre as bocas. A neve agora se prendia aos ombros de ambos, aos cílios, às palavras não ditas.
Harry quase quis tocar. No braço, talvez. Só pra ver se Draco era mesmo feito de gelo como parecia. Ou se aquilo tudo era só defesa.
Mas então um barulho cortou o ar: passos, longe, vindos do castelo.
E como se um feitiço se quebrasse, Draco recuou.
— Vai embora, Potter.
— Malfoy…
— Não faz isso. Vai.
Harry hesitou, mas obedeceu. Virou-se e começou a andar, os passos deixando marcas gêmeas na neve.
Draco ficou ali, parado, até que Harry desapareceu de vista.
E Harry não olhou para trás. Mas pensou, enquanto o vento cortava seu rosto:
"Foi ali que começou. O lugar onde os demônios se escondem não era um canto do castelo. Era ele."
Mesmo anos depois, quando o mundo estivesse ruindo... aquela tarde silenciosa voltaria como uma cicatriz invisível.
ESTÁS LEYENDO
Demons
Fanfiction"Don't get too close, it's dark inside..." Entre feitiços e silêncios, Harry Potter e Draco Malfoy descobrem algo mais profundo que o ódio - uma conexão que cresce em segredo, em meio à guerra, à dor e às expectativas. Mas amar o inimigo é perigoso...
