Beija eu

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Assim que Raimundo deitou ao seu lado na cama Lígia suspirou tentando voltar a dormir, em poucos segundos ela sentiu a cama se mexer e não segurou o sorriso. É lógico que ele não se comportar. Ela pensou soltando o riso assim que ele grudou as costas as dela. Raimundo também sorria.

— O que? — A voz de Raimundo soou enquanto ela ria.

— Eu tô me lembrando daquela viagem que nós fizemos para Itália — Ele tentava encara-lá por cima do ombro enquanto prestava atenção no tom de voz que ela usava, era leve, divertido. — Você lembra que o hotel ficava ao lado de uma igreja medieval e o colchão do hotel era ruim, você reclamou da sua coluna e a igreja tinha um sino que badalava a cada trinta minutos.

— Eu praguejei a noite inteira! — A risada de Lígia soou pelo quarto assim que o ex marido completou sua lembrança, ambos virando os corpos na cama encarando o teto. — Gritei coisas horrorosas pela janela e no dia seguinte nós fomos expulsos de lá. — Ambos riram. Pararam por um segundo soltando um suspiro antes de se virarem ambos de encarando. Tão próximo que podiam sentir a respiração um do outro. — Mas pelo menos nós aproveitamos a noite de um outro jeito... — a voz de Raimundo soou baixa, mais rouca. Lígia o encarava piscando devagar com o sorriso ainda em seu rosto.

— Foi... — ela o encarava com os olhos brilhando. A áurea soava diferente naquele quarto. Era inegável que eles se atraiam como ímãs. Aos poucos foram se aproximando até que finalmente grudaram os lábios. Um selinho longo e demorado. Raimundo puxou a coberta cobrindo os dois enquanto Lígia passava o braço ao redor do pescoço dele se aproximando mais enquanto eles aprofundavam o beijo. Os lábios se encontravam com a familiaridade de quem já se conhecia profundamente. O beijo não foi urgente, foi lento, carregado de lembranças e silêncios antigos, começou lento, hesitante, como se testasse o terreno antes de se entregar por completo. O publicitário levou uma mão na nuca de Lígia escorregando até a base das costas, traçando um caminho que já conhecia de cor. O corpo dela respondeu antes mesmo de qualquer pensamento. O calor subiu como uma onda antiga, mas jamais esquecida. Bastaram poucos segundos para que o mundo ao redor perdesse o contorno, e só restassem eles dois, naquela bolha suspensa entre o que foram e o que ainda insistia em existir.

Raimundo aprofundou o beijo com mais firmeza subindo em cima de Lígia, a manta que os cobria escorregava pelas costas dele. Ela se aproximou mais, se encaixando nele com a precisão de quem já foi metade de um mesmo todo. As pernas se entrelaçaram por instinto. Os corpos, ainda cobertos pelo tecido leve das roupas de dormir, se moviam em sintonia sutil. Ligia sentiu um arrepio quando os lábios de Raimundo desceram para o seu pescoço soltando um suspiro no ouvido do ex-marido. O contato da pele dele contra a dela despertava sensações que Lígia tentava esconder de si mesma desde o dia em que saiu daquela casa. Mas ali, na penumbra, com a respiração de Raimundo batendo contra seu pescoço, tudo veio à tona como um sopro quente e urgente. As mãos dele estavam em toda parte, firmes e ao mesmo tempo suaves, percorrendo as curvas de seu corpo como se o tempo não tivesse passado. Quando seus dedos tocaram a barra da combinação preta que usava, Lígia não protestou. Pelo contrário, arqueou o corpo levemente, permitindo, querendo. A camisola deslizou pelo corpo de Lígia com a lentidão de um ritual. Raimundo a despiu com os olhos antes mesmo das mãos. Quando enfim o tecido se desprendeu da pele dela, foi jogado em um canto do quarto. Ela não tentou cobrir o corpo como fizera mais cedo. Com Raimundo, nunca fora vergonha. Sempre fora entrega. Lígia, com os olhos ainda entreabertos, tentando conter o misto de ansiedade e desejo que crescia a cada segundo. A presença de Raimundo era firme, sólida. Novamente ele a beijou, beijos que desceram por seu pescoço outra vez, pelos ombros, até os seios, onde ele se demorou, adorando cada curva com a devoção de quem reencontra um santuário perdido. Lígia gemeu baixo, um som abafado com uma intimidade que palavras jamais alcançariam. As mãos de Raimundo exploravam suas costelas, sua cintura, suas coxas, como se memorizassem tudo de novo — e, ao mesmo tempo, como se nunca tivessem esquecido. Era assim toda as vezes em que estavam juntos dividindo aquela intimidade tão conhecida por décadas. Ela arqueou o corpo, buscando-o. Sentia o corpo inteiro em chamas. Raimundo arrastou o rosto por sua pele até chegar a ponta do seu ouvido.

Ones - MugiaGeschichten, die süchtig machen. Entdecke jetzt