Era o último ano do ensino médio. O fim se aproximava rápido, mas pra Stefanny, algumas coisas simplesmente não passavam.
Ela ainda lembrava do segundo ano como se fosse ontem. Do calor da sala de aula na tarde em que Agatha a puxou pelo braço e a levou até o terraço do prédio velho do colégio. Ali, elas se beijaram pela primeira vez, com medo, com pressa, com vontade.
Ficaram por meses — escondidas nos intervalos, trocando bilhetes entre as páginas de livros de matemática, fingindo que eram só amigas enquanto se olhavam por tempo demais.
Mas como tudo que arde, acabou queimando. Agatha se afastou. Sem explicação. Começou a andar com outro grupo, apagou as fotos, e começou a fingir que Stefanny era só mais uma garota no colégio. Só uma aluna qualquer.
“Ela só tá seguindo a vida, Stef”, dizia Lara, a única pessoa que sabia de tudo. “Cê precisa fazer o mesmo.”
Mas como seguir quando tudo ainda doía? Quando o cheiro do corredor do laboratório ainda trazia o gosto do beijo de dois anos atrás?
Stefanny passava por Agatha quase todo dia, e Agatha nunca parava. Olhava por cima. Fingia distração. Agia como se nada tivesse acontecido.
Mas Stefanny via. No fundo do olhar dela, havia algo. Talvez culpa. Talvez medo. Ou, quem sabe, saudade.
Ela nunca soube ao certo por que acabou. Só acordou um dia e Agatha não estava mais lá.
Numa segunda de manhã, enquanto arrumava a mochila para ir pra escola, encontrou um pedaço de papel dobrado no fundo de um estojo antigo. A letra de Agatha. Pequena, apressada, como ela.
"Você me faz sentir coisas que eu não sei lidar. Mas eu queria saber."
Stefanny releu mil vezes. E chorou como se fosse ontem.
Elas não se falavam mais. Não trocavam olhares, mensagens, nem indiretas. Era como se tudo tivesse sido um sonho.
Mas pra Stefanny… era um sonho do qual ela nunca tinha acordado.
Ao entrar no colégio, deu de cara com ela.
Agatha.
Atravessando o corredor com o uniforme amarrotado, o moletom do terceiro ano jogado por cima, e aquele andar relaxado de quem parecia dono do mundo — ou de quem finge não se importar com ele.
Stefanny parou por um segundo. O tempo pareceu desacelerar. E por um instante, desejou que Agatha a olhasse. Só um olhar. Só pra provar que ela lembrava. Que aquilo tinha existido.
Mas não. Agatha passou reto. Fone enfiado nos ouvidos, a cara de paisagem no modo ativado. Como sempre. Como se Stefanny fosse só parte da mobília do colégio.
Respirando fundo, ela seguiu até o refeitório.
Sentou com suas amigas no fundo, onde sempre ficavam. O grupo falava alto, gargalhava, reclamava das provas, imitava professores. O barulho distraía, mas o vazio continuava lá, grudado nela.
E então, Agatha entrou.
Se jogou no banco da galera dela, mais pra frente, e começou a rir de algo que um dos caras disse. Ria alto, com aquela risada meio debochada que Stefanny conhecia bem. E logo em seguida, começou a zoar alguém da turma. Uma piada qualquer, sem graça, mas que todo mundo achou o auge da comédia.
Stefanny fingiu que não estava ouvindo.
Mas tava.
Tava ouvindo, tava vendo, tava sentindo — tudo de novo.
“Essa aí acha que é a dona do colégio,” comentou Mari, ao lado, revirando os olhos. “Só porque tem um bando de puxa saco em volta.”
Stefanny só sorriu, sem responder.
Por dentro, um furacão.
Porque ela conhecia Agatha por dentro. Sabia do medo por trás da pose. Sabia das inseguranças escondidas no fundo dos olhos. Sabia do que ninguém via — e agora sentia que talvez ninguém mais veria.
E o mais cruel era isso: a Agatha que ela conheceu ainda existia, mas parecia estar enterrada sob um monte de piadas, falsos sorrisos e olhares vazios.
Stefanny se levantou da mesa, alegando que ia ao banheiro. Precisava respirar. Lavar o rosto. Fingir que estava bem.
Mas enquanto passava pela porta do refeitório, ouviu, lá no fundo, uma voz familiar:
-Cuidado pra não se perder no caminho, hein!
Era Agatha. Sorrindo, com os amigos.
Todo mundo riu. Stefanny travou por um segundo.
Não era só uma piada. Era indireta. Era provocação.
Era Agatha lembrando.
Mesmo fingindo que esqueceu.
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E se o destino te trouxer?
RomanceAgatha gosta de viver,e Stefanny ainda se lembra do antigo amor. Elas já ficaram,mas para Agatha foi só mais uma. Pra stefanny... foi tudo. Agora Agatha finge que nem lembra -mas e se um dia lembrar?
