Capítulo 2: Sem compromisso

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O sinal do intervalo ainda ecoava pelos corredores quando Henrique jogou o corpo contra o banco da quadra coberta, largando a mochila no chão. Os outros se espalharam ao redor, animados com uma partida rápida de truco antes da próxima aula.

— Bora, Navarro — chamou Matheus, girando as cartas na mão. — Ou vai ficar só encarando o celular?

Henrique sorriu de lado, ainda deslizando o dedo pelo aplicativo. A tela mostrava o lobby do jogo, mas ele já tinha perdido a vontade de jogar. Seus olhos estavam meio perdidos, apesar da pose despreocupada.

— Tô tranquilo. Só vendo uns clipes antigos aqui — murmurou, e logo trancou a tela, voltando à expressão de sempre.
— Nossa, até parece que tá nostálgico agora — provocou Davi, rindo.—

Henrique revirou os olhos, mas não respondeu. Foi nesse instante que Rebeca apareceu. Saltos baixos, uniforme levemente ajustado, cabelos soltos e uma autoconfiança que ocupava mais espaço que qualquer mochila. Ela se aproximou com passos ritmados e jogou os braços em volta do pescoço de Henrique antes que ele tivesse tempo de reagir.

— Oi — disse ela com um sorriso afetado. — Não vai nem me dar um beijo?

Henrique levantou uma sobrancelha, divertido e despreocupado.

— Achei que você estivesse ocupada demais falando mal dos outros pra lembrar que eu existo.

— Sempre dramático — rebateu ela, rindo. E então, sem pedir permissão nem esperar clima, sentou em seu colo e o beijou ali, na frente de todos.

O beijo foi rápido, mais performático do que íntimo, como se fosse apenas para os olhos ao redor. O grupo reagiu com sons provocativos, risadas abafadas e olhares cúmplices.
Henrique correspondeu mas não com aquele sentimento de verdade. Quando Rebeca se afastou, ele apenas olhou para o lado, como se já estivesse cansado daquilo.

— Tá carente, é? — perguntou, com um meio sorriso. Mas havia algo distante no olhar.

Rebeca riu, mas seus olhos o estudavam de perto.

— Você que anda estranho demais...

Henrique não respondeu. Pegou o celular do bolso e o girou entre os dedos, distraído.
Rebeca mordeu o lábio, encarando-o. Depois se virou para os amigos, assumindo sua posição no grupo como se nada tivesse acontecido. Mas havia um leve incômodo em sua expressão. Uma dúvida que começava a se plantar.

E bem ali, sentada no fundo do pátio com os fones ligados a um rádio antigo e um livro no colo, Helena continuava invisível — pelo menos por enquanto. Sob a sombra de uma árvore antiga, Helena mantinha os olhos no livro aberto sobre o colo, mas não lia mais. Seus fones ainda estavam ligados ao rádio, que agora tocava alguma balada romântica dos anos 80. A melodia suave contrastava com a cena que se desenrolava do outro lado da quadra. Ela viu Rebeca se aproximar de Henrique, jogar os braços ao redor dele como se marcasse território, e depois beijá-lo com uma segurança quase ensaiada. Viu as risadas dos outros, os sorrisos falsos, as poses teatrais. Cena típica. Um teatro onde ela jamais teve ingresso. Helena não desviou o olhar imediatamente. Apenas observou, com os olhos semicerrados, como quem analisa um quadro que já viu antes um quadro que não muda, mesmo quando você quer que mude.
Rebeca se afastou do beijo como quem recolhe um troféu, mas o que Helena notou mesmo foi o jeito com que Henrique olhou para o lado depois. Um olhar vazio. O mesmo olhar que ela carregava quase todos os dias. Helena suspirou. Fechou o livro devagar, tirou os fones e os enrolou com cuidado. Quando se levantou, não olhou mais na direção da quadra. Seguiu para dentro do prédio como quem não quer ser notada mas deixou, no ar, uma presença difícil de ignorar.
Henrique, sem perceber por quê, ergueu o olhar um segundo depois. Mas ela já havia sumido pela porta de entrada.

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