Sirenes cortavam a madrugada com um som agudo e insistente, ecoando pela pequena cidade como um presságio inquietante. O quarto ainda estava escuro quando Helena se revirou mais uma vez nos lençóis amassados. Seus pés buscavam abrigo do frio, mas era a mente que mais gelava. Sonhos confusos quase lembranças dançavam em sua cabeça, embaralhando vozes, luzes fortes, gritos abafados e um rádio... sempre um rádio. Ela murmurava entre os dentes cerrados, como se lutasse contra alguma coisa que não queria lembrar.
Um estrondo de panela vindo da cozinha e a voz conhecida rompeu o silêncio da casa.
— Helena! Levanta! Vai perder a hora!
Ela abriu os olhos de repente, como se fosse puxada de volta de outro tempo. Piscou algumas vezes, tentando afastar a névoa do pesadelo. A cabeça ainda pesava, mas o cheiro de café e pão torrado já escapava pelo vão da porta. Levantou-se devagar, calçou as meias grossas que sempre deixava ao lado da cama e caminhou até o armário.
Escolheu um short azul-marinho, uma blusa branca de gola arredondada e prendeu o cabelo em uma trança simples. Tudo nela parecia pertencer a outra época não por modéstia, mas por escolha. Ou talvez por herança.
Descendo as escadas de madeira com passos leves, já ouvia a voz grave e reconfortante do locutor no rádio antigo da cozinha:
— Agora são seis horas e quarenta minutos, na Rádio Amanhecer, para recordar e matar a saudade. Fiquem agora com as mais pedidas da semana...
Em seguida, o som suave de uma canção antiga começou a preencher a casa, uma daquelas músicas que pareciam saber de todos os amores do mundo.
Helena entrou na cozinha e encontrou a avó já sentada à mesa, de avental florido e expressão atenta enquanto mexia o açúcar no café.
— Bom dia, vó — disse Helena, com a voz ainda sonolenta, sentando-se à mesa.
— Bom dia, minha filha — respondeu a avó, sem tirar os olhos do rádio, como se as palavras da música tivessem mais peso do que o próprio dia que começava.
Helena pegou uma fatia de pão, passou manteiga e observou o vapor subir da xícara de chá que a avó havia preparado especialmente para ela.
— Dormiu bem? — a avó perguntou, finalmente olhando para ela.
Helena hesitou. Pensou em dizer "sim", mas preferiu a verdade.
— Tive sonhos... estranhos. De novo.
A avó apenas assentiu, em silêncio, como quem entende mais do que diz.
O rádio continuava tocando. E do lado de fora, o mundo moderno seguia seu ritmo acelerado mas ali, naquela cozinha, o tempo era outro. Mais lento, mais suave, e ainda assim carregado de histórias que insistiam em não ficar no passado.
Helena terminou seu chá em silêncio, ouvindo cada verso da música como se fosse uma conversa antiga entre o rádio e seu coração. Levantou-se, pegou a mochila que mais parecia uma bolsa de livros e foi até a porta.
— Quer que eu te acompanhe até o portão? — perguntou a avó, já recolhendo as xícaras.
— Hoje não, vó. Tô bem — respondeu com um pequeno sorriso. E estava mesmo. Bem o suficiente para enfrentar mais um dia no Colégio Atlas.
Do lado de fora, o mundo parecia acelerar a cada passo. Carros passavam apressados, buzinas impacientes cortavam o ar e adolescentes, com fones de ouvido enfiados até a alma, riam de vídeos que assistiam em seus celulares.
Helena, por outro lado, seguia com sua bicicleta azul. Seus fones, ligados a um pequeno rádio de bolso, emitiam a voz de uma locutora suave que falava sobre o amor nos tempos antigos. A mochila balançava em suas costas e um livro de capa dura, já com as bordas gastas era visto na cesta de sua bicicleta antiga.
Ao chegar em frente ao colégio, Helena parou por um momento. A fachada imponente do Colégio Atlas erguia-se à sua frente como um lembrete diário de que ela era, de certa forma, de outro tempo. Era uma escola moderna, cheia de tecnologia, painéis interativos, QR codes nas paredes e laboratórios de última geração. Ela respirou fundo e entrou.
No corredor principal, como sempre, estavam Henrique e seu grupo. O badboy mais comentado da escola, cercado de risos, celulares e energia demais para aquela hora da manhã. Ele mexia no celular, provavelmente jogando alguma coisa, os fones pendurados no pescoço. Um tênis caro, mochila de marca, cabelo perfeitamente bagunçado.
Helena passou por eles como se passasse por uma tempestade de cabeça erguida, mas com o estômago apertado. Um dos garotos do grupo a olhou de cima a baixo com um meio sorriso debochado.
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Colisão
RomanceQuando dois mundos colidem, a verdade vem à tona. Helena vive no passado. Não porque quer, mas porque precisa. Depois de um acidente que tirou seus pais e apagou parte de sua memória, ela cresceu longe das telas, cercada apenas por livros, cartas an...
