o primeiro chamado.

29 5 2
                                        


há muito tempo atrás, surgiram lendas e cantigas que percorriam os quatro cantos do reino, tirando o sono de alguns e instigando a curiosidade de outros. era como se os humanos fossem feitos apenas de contos e maldições, sempre buscando algo de ruim para os cercar. dizem que, apesar da fantasia, certos boatos eram reais até demais.

em um mundo onde maldições e monstros atormentam a vida, é compreensível temer até mesmo o impossível, mas era mesmo necessário?

xiao cresceu em um sistema pouco convencional, cercado por regras severas e expectativas silenciosas. e sua única forma de brincar era empunhar uma pequena lança de madeira velha e desgastada, que mal tinha força para cortar as folhas mais frágeis. ainda assim, por algum motivo que ele mesmo nunca entendeu, cresceu ouvindo todos ao seu redor sussurrarem que ele era a salvação do reino, um raio de luz solitário em meio às trevas que ameaçavam consumir tudo.

mas a salvação de quê?

com o passar dos anos, o garoto começou a compreender melhor o papel que lhe fora imposto, e, de certo modo, isso não era tão ruim assim. para alguém que nunca teve uma família, que nunca soube o que era compartilhar risos com amigos ou dividir silêncios com quem se importa, realizar algo, qalquer coisa, dava a xiao uma estranha sensação de pertencimento. ter um propósito, ainda que imposto, era melhor do que não ter nada.

suas habilidades, afiadas com o tempo e a solidão, permitiam que ele eliminasse com precisão quase cirúrgica qualquer ameaça, por menor que fosse, que ousasse quebrar a frágil harmonia do reino. as vezes, no entanto, tudo aquilo parecia mecânico. monótono. fácil demais. como se a vida estivesse em modo de repetição, sem cor, sem desafio, sem alma.

xiao queria mais, queria sentir algo. desejava, com uma intensidade quase desesperada, saber como era se sentir verdadeiramente útil, e não como uma ferramenta silenciosa, meio homem, meio arma, que só era lembrada quando o mundo estava prestes a desmoronar. ele queria ser visto. queria ser, de fato, alguém.

[ xiao ]

os dias de patrulhamento costumavam ser sempre iguais: silenciosos, previsíveis e quase sem incidentes. uma rotina tranquila, o que, por um lado, era um alívio. mas por outro, trazia consigo uma inquietação amarga. a chegada do inverno só intensificou esse sentimento, pois o frio cortante e as noites mais longas despertaram novos temores na população do reino. ninguém mais arriscava andar pelas ruas tarde da noite apenas para observar as fases da lua. o céu seguia belo, é verdade, mas a coragem das pessoas parecia congelar junto com os lagos.

nos últimos dias, os boatos voltaram a circular, como sempre faziam, três ou quatro vezes por ano, quando o silêncio se tornava incômodo demais para a população. a lenda da vez falava sobre uma maldição sonora que rondava a floresta ao sul do reino. uma melodia suave, hipnotizante e com um falso ar de inocência. diziam que ela chamava por aqueles que a ouvissem, atraindo-os lentamente para longe das fronteiras, como se a própria floresta sussurrasse promessas que ninguém conseguia resistir.

patético.

os humanos são tão sensíveis assim? tão influenciáveis?
eles deveriam, ao menos, ter um instinto natural de sobrevivência. mas, por algum motivo, parece que todos eles anseiam pela adrenalina, pelo medo disfarçado de aventura, como se o perigo os seduzisse de forma inconsciente.

a lenda fala sobre um bardo amaldiçoado, uma criatura envolta em trevas e magia, capaz de encantar qualquer um com sua melodia hipnótica. ele seduz viajantes desavisados apenas para guiá-los rumo à própria ruína. e, apesar de tudo, muitos acreditam nisso. falam dele como se fosse real.

mas não era.

"dizem que quem ouve a música dele nunca mais encontra o caminho de volta..."

a canção da floresta - xiaovenHistorias para obsesionarse. Descúbrelo ahora