O relógio marcava 23h47 quando Clara girou a chave do carro. O som do motor foi abafado pelo silêncio cúmplice da noite. Vestia-se de forma simples, mas cada detalhe era pensado para ele — um batom discreto, a pele levemente perfumada e o cabelo solto, como ele gostava.
Na tela do celular, uma mensagem piscava:
“Porta destrancada. Te espero no mesmo lugar do céu.” — André.
Clara mordeu o lábio. Ela não devia estar indo. Tinha um marido, Gabriel, e uma filha pequena dormindo em casa, embalada pelo afeto que já não existia mais entre os dois adultos. Mas com André era diferente. Era entrega. Era loucura. Era o que restava de vida em um mundo que sufocava.
Subiu os três andares do prédio antigo com o coração descompassado. Assim que empurrou a porta, André estava lá, de camisa preta entreaberta, os olhos intensos e cansados, como se a esperasse há séculos.
— Achei que não viria… — ele murmurou, caminhando até ela.
— Eu também achei. Mas você me chama mesmo quando não diz nada.
Os corpos se encontraram como um vício. Beijos famintos, mãos desesperadas. O sofá, a parede, o chão — o espaço se curvava ao desejo. Mas não era só carne. Era alma que se reconhecia, mesmo ferida.
— O mundo tá pequeno demais pra gente… — Clara sussurrou, com o rosto enterrado no pescoço dele.
— Então vamos pra lua — respondeu André, puxando-a para si. — Lá não tem julgamentos, não tem marido ciumento, nem mentira. Lá só existe o que a gente sente.
Ela sorriu, um riso melancólico, enquanto as lágrimas ardiam nos olhos. Sabia que o que viviam era errado, mas também sabia que era a única coisa verdadeira em sua vida. André não era apenas um amante. Era o homem que lembrava como ela gostava do café, que ouvia sua dor, que a tocava como se o mundo pudesse acabar a qualquer segundo.
Na estante, uma foto antiga mostrava André com Lucas e Joana — os amigos que sabiam do caso, mas nunca disseram nada. Lucas, seu irmão de alma, tentava convencê-lo a seguir com Clara, a fugir com ela. Joana, mais cautelosa, dizia que tudo isso terminaria em dor.
Mas naquela noite, a razão era uma cidade distante. O amor se fazia com pressa, com suor, com murmúrios no escuro.
— Faz amor comigo como se fosse a última vez — ela pediu, a voz embargada.
E ele fez. Com paixão. Com fúria. Com ternura.
Ali, entre o lençol desalinhado e os suspiros entrecortados, o universo cabia inteiro em um quarto pequeno demais. A lua os assistia pela janela, cúmplice do segredo mais bonito e perigoso que já viveram.
E por mais que Clara soubesse que o dia amanheceria com culpa, naquele momento, tudo o que ela queria era ficar.
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Lua
RomanceClara é uma mulher dividida entre o papel de mãe, esposa e o desejo de sentir-se viva novamente. Em um casamento morno, afundada em rotinas e silêncios, ela se vê inesperadamente tocada por André - um homem intenso, livre, com um olhar que a despiu...
