flores que nascem do coração

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Shelly sempre foi como o sol da manhã: alegre, tagarela, impossível de ignorar — e ainda assim, esquecida por todos. Usando seu macacão com saia marrom e camiseta bege, ela passava os dias rindo sozinha pelos corredores do prédio, sonhando acordada com as coisas mais bobas. Mas ultimamente, seus sonhos tinham um nome. Ou melhor, um terno verde escuro, uma gravata verde limão, e um sorriso debochado.

Vee.

A famosa e arrogante apresentadora do "Game Show da Vee", que morava no mesmo andar que ela. Sempre séria, um pouco rude, sarcástica e… linda. Vee era tudo que Shelly não era — e talvez, por isso mesmo, Shelly não conseguia parar de pensar nela.

Elas se encontraram pela primeira vez quando Shelly tropeçou na escada do prédio e derrubou todas as suas compras. Vee estava subindo. E por um milagre, ajudou. “Você é sempre assim… desastrada?” perguntou com um sorriso torto. Shelly riu nervosa, o coração batendo mais rápido. “Só quando gente bonita aparece do nada.”

Vee levantou uma sobrancelha. “Fofo,” murmurou. “Mas inútil.”

Daquele dia em diante, Shelly começou a assistir religiosamente o game show, gravar episódios, repetir frases da Vee, decorar sua risada. Era mais que paixão. Era amor, acreditava.

Mas Vee? Ela achava Shelly divertida. Um tipo de mascote estranha, carinhosa demais, mas inofensiva. E hetero. Ela deixava isso claro com piadas afiadas: “Gosto de garotas… no mesmo nível que gosto de incêndios: caóticos e longe de mim.”

Shelly ria. Mas por dentro, sentia que algo começava a doer.

Logo, a dor se tornou real. Uma manhã, Shelly tossiu. Vermelho escorria dos lábios. E no meio do sangue… pétalas. Delicadas. Rosas. Perfumadas. O diagnóstico? Hanahaki. A doença que nasce do amor não correspondido. Flores crescem nos pulmões, sufocando lentamente, até que o sentimento seja retirado — ou a vida.

“Você precisa arrancar esse amor do peito,” disse o médico. “Ou vai morrer.”

Mas como esquecer a única pessoa que a fazia se sentir lembrada?

Shelly tentou evitar Vee. Tentou. Mas sempre havia um novo episódio no elevador, ou o som do programa ecoando pelo apartamento. Cada vez que ouvia a voz de Vee, mais pétalas surgiam. Até que não conseguia mais esconder.

Vee descobriu num momento estranho: Shelly desmaiou no corredor, tossindo flores na frente de todos. Foi levada ao hospital. Vee a visitou. Ficou parada, braços cruzados. “Você quase morreu por… mim?” sussurrou, voz embargada.

Shelly sorriu fraco. “Parece bobo, né? Mas amar você foi a única coisa que me fez sentir... vista.”

Vee não soube o que dizer. Pela primeira vez, suas piadas sumiram. Sua postura dura tremeu.

“Eu não posso te amar de volta, Shelly. Não desse jeito.”

“Eu sei. Só… me deixa te amar mais um pouquinho.”

Na semana seguinte, Shelly fez a cirurgia. Retirou as flores. E com elas, retirou o amor.

Ela não se lembrava mais dos sentimentos. Lembrava de Vee, claro. Mas sem o peso no peito.

Quando saiu do hospital, encontrou um buquê na porta.

Flores amarelas — amizade. Um bilhete preso:

"Você pode ter me amado demais, mas fui eu quem te admirou em silêncio o tempo todo. Continue sendo sol. — Vee."

Shelly sorriu. Pela primeira vez em muito tempo, sem dor.

E o mundo, de novo, parecia um lugar possível.

shellvision + hanahakiWhere stories live. Discover now