Capítulo 1

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A cidade em que eu morava era, assim como a grande maioria das cidades pequenas, dividida por questões sociais. No sul, alcançando o leste – onde eu me localizava – haviam pequenas propriedades de terra, seguindo um padrão de construção básico para as casas e sítios dispostos. Era onde ficava também a parte natural e bonita da região: nascentes, rios e cachoeiras tornavam-se o lazer para os moradores.

Já ao norte e na região noroeste, a cidade era repleta de grandes mansões e fazendas. Alguns comércios também estavam localizados por ali – era assim que nós, sulistas, sabíamos que não teríamos condições de gastar por lá.

No centro, tudo que tínhamos eram alguns mercados, restaurantes, uma padaria, cinema, lojas de tecidos, veterinária e só. Não era um lugar para se sonhar grande. Ou você tinha ou não tinha. Era muito difícil para alguém se desprender e voar longe.

Por isso, gostava de imaginar que poderia ser um dos roviras, uma espécie de ave azul e vermelha da nossa região. Os pássaros – pequenos, bonitos mas extremamente ágeis e espertos, costumavam ficar conosco no inverno e partir durante as outras estações.

Enquanto encarava um rovira e ele me encarava de volta, pensei que sim, talvez era isso que eles tinham a nos ensinar: "ei, gosto daqui, é confortável, mas o mundo é grande demais. Estou vendo flores e sentindo o calor de outro lugar."

Senti um aperto na perna esquerda. A rovira voou para longe.

– Temos um jantar importante e você está atrasada.

Anna. Minha irmã mais nova.

– É o mesmo jantar de ontem. – eu retruquei, mais mal humorada do que pretendia.

– É sempre importante quando se está com a família.

A resposta fez eu me calar. Era verdade. E sobre família, bem eu tenho uma boa. Eu poderia estar em situações piores.

– Você sempre está divagando. – eu pulei da árvore e fiquei arrepiada. O frio estava mesmo de matar.

– Para alguém tão jovem – eu disse, meu tom de voz mais suave porque só estava sendo observadora – você fala demais.

A verdade é que eu também falava demais e gostava que Anna fosse assim. O mundo precisa de pessoas opinativas. E como se ela soubesse o que eu estava pensando, ela disse simplesmente: "Bem, aprendi a ser com você."

⋯ ✧ ⋯

O jantar estava sendo, de fato, bem especial. Minha mãe tinha pego leite fresco e comprado uma torta de maçã para a sobremesa. Eu não estava entendendo nada.

– Adivinha! – ela praticamente gritou para mim e para Anna, seu rosto contorcido em uma careta feliz. Não precisei adivinhar. Um segundo depois ela continuou – seu pai conseguiu um emprego ÓTIMO.

Meu pai trabalhava como consultor de agronomia  de forma autônoma — ele tinha um grande conhecimento sobres como plantar, colher, armazenar e trabalhar com lotes —, mas desde que a economia começou a se desestabilizar, perdeu muitos clientes.

– Sério? – eu disse, feliz de verdade. Por todo mundo, principalmente por Anna. Logo ela começaria a trabalhar para ajudar em casa e eu odiava essa possibilidade. Queria que ela focasse nos estudos e só.

– SÉRIO! – minha mãe explodiu. Meu pai estava ao seu lado sorrindo demais, mas quieto. Todos em casa sabíamos que quem sempre brilhava era mamãe. – Vai! Conta pra ela!

Papai começou a falar, mas logo foi interrompido por minha mãe. Ela continuou:

– Ele vai trabalhar para os Stroll!

Os Stroll são a família mais rica da cidade, possivelmente até do estado. Eles tem uma fábrica grande com foco em laticínio e os produtos são distribuídos para o país todo.

Meu pai se levantou e foi até a geladeira. Alguns segundos depois, ele voltou com três potes enormes de sorvete. "Sorvete Stroll" e uma fazendeira loira e bonitona brilhavam na embalagem.

Eu parei para digerir a informação. De fato, era algo muito bom. Eu estava bem feliz. Senti que poderia respirar depois de muito tempo.

– Parabéns, pai. – eu me levantei desajeitada pra deixar um beijo na bochecha dele.

O jantar durou por horas. Minha mãe e Anna, é claro, ficaram imaginando como as coisas seriam. Sobre como os Stroll são bonitos, gentis e ricos.

Eu não era muito de imaginar. Na verdade, enxerguei a situação de forma bem racional e prática: foi uma oportunidade, meu pai soube a aproveitar. Agora teríamos mais dinheiro, mas precisávamos administrá-lo bem.

Não quis ser estraga-prazeres, então fiquei quieta e os deixei pensando nas infinitas possibilidades que poderiam acontecer.

– Vai ter um evento importante para eles nesta semana. – meu pai disse de repente, cortando os cenários que estavam criando. – Você poderia ir, Louise. Eles estão contratando estagiários. É uma oportunidade, você é bem inteligente.

Não é verdade. Eu era inteligente, mas não muito. Estava fazendo um curso técnico de finanças em uma faculdade comunitária numa cidade vizinha, indo para lá 2x por semana. Com o curso, comecei a trabalhar na área administrativa de um dos mercados da cidade.

Tudo o que eu fazia era contas e também organizava questões burocráticas, como os salários. O emprego estava me dando mais sede de justiça do que qualquer outra coisa. Odiava ver como o retorno do lucro era tão pequeno aos funcionários.

As palavras saíram de mim antes mesmo que eu pudesse perceber.

– Tá bom, papai. Eu vou.

Sempre foi um dos meus defeitos: a disposição para agradar a todo mundo.

RUSH | Lance StrollWhere stories live. Discover now