"Olá... Padre, eu vim confessar."
O padre Atikós, em verdade Arcebispo de Constantinopla, virou-se, distraído de seus afazeres na Grande Igreja e assustou-se ao ver a Imperatriz Romana do Ocidente, Aelia Galla Placidia – embora os títulos, ambos Atikós e Galla eram novos, ele não tinha mais do que quarenta e cinco e ela acabara de fazer trinta anos –, em total regalia imperial, aparecer subitamente com apenas um Palatinus ao seu lado.
O Arcebispo, então, imediatamente deixou de continuar sua tarefa, ao lado de seu jovem coroinha, e respondeu "Prontamente, Domina.", correndo até o confessionário e abrindo a porta a sua Senhora. Ela, então, fez uma sinal ao seu Palatinus que os deixou à sós na igreja e entrou no confessionário. Apenas o coroinha continuou na igreja com ambos.
"Padre, esse é um lugar de discrição?" ela perguntou olhando ao coroinha.
"Ita, Domina mea. O Selo da Confissão..." ele aponta à Rosa em alto relevo que enfeitava o confessionário "... nos guarda neste lugar. Sub Rosa."
"Muito bem... Padre, o senhor se lembra do que ocorreu no dia 24 do mês de Divino Augustus do Ano de Fundação da Cidade 1163 [410 d.C.]?"
"Como alguém poderia esquecer?! Deus, tem doze anos já... O dia que a luz fundadora da civilização foi apagada e apenas pequenas e tímidas brasas nos restaram..."
"Eu estava lá, padre. Era apenas uma princesa na época, mas estava lá, ajudando os cidadãos de Roma durante a ausência e a incompetência de meu irmão, Honorius."
"Muito nobre, Domina."
"Após três cercos, os bárbaros visigóticos, finalmente, adentraram a Cidade Eterna. Eles, pilharam, saquearam, escravizaram e estupraram o bom povo de Roma... A Urna de Divino Augustus foi quebrada, o Senado de Rei Romulus foi incinerado e a Estátua de Deus Sol Invictus foi derrubada..."
"Que Deus ajude os romanos."
"E eu tomada pelo rei dos bárbaros, Alaric... Ele, no entanto, Deus seja louvado, morreu de febre em janeiro do ano seguinte. Seu irmão, Ataulf, se tornou rei. Por cinco anos, fui refém dele, até me tomar como rainha-consorte dos visigodos." A voz dela fraquejou nessa parte, mas continuou a falar. "Todos os dias, ele..."
"Não precisa continuar, criança." O padre a interrompeu. "Não há nenhum pecado para confessar nisso. O livre-arbítrio foi tirado de suas mãos."
"Eu não terminei." Ela respondeu severa. "Uma criança nasceu... daquilo. Ele era pálido como a neve e tinha cabelos louros e olhos azuis como o bárbaro que era. O maldito o nomeou em homenagem ao meu pai, Theodosius... Uma das piadas mais cruéis que vi em vida... Caso tivesse crescido, o mestiço podia reivindicar o trono do Império."
"Com todo respeito, Domina, não sei qual prospecto me perturba mais, um incompetente tal qual seu irmão ou um meio bárbaro como Imperador."
"A resposta é clara, padre." Ela disse convicta antes de parar um momento para respirar. "Assim, estava certa de que ele não podia... viver. E, quando estava sozinha com ele, na tenda do rei, até mesmo sem as garotas bárbaras de companhia, eu peguei em seu pequenino pescoço e apertei... COM. TODA. A. MINHA. FORÇA... Ele parou de respirar em menos de um minuto... Como é de conhecimento comum, crianças morrem de qualquer coisa até os cincos anos de idade, então, pelo menos, não fui descoberta." Galla não mais falou, mas seus olhos mostravam a tempestade que havia se formado em sua alma.
"Minha filha, lembra-se do que o rei bárbaro dos gauleses, Brennus, disse ao Senado quando saqueou a Cidade Eterna no Ano de Fundação da Cidade 363 [390 a.C.]?"
"'Infortúnio dos vencidos'. Todos conhecemos histórias de ninar, padre."
"E saque dos gauleses, então foi vingado por Caesar. Assim será com os visigodos. Eles vieram e eles irão. E a luz de Roma se manterá, seja na Cidade Eterna, seja na Rainha das Cidades. O tempo deles virá, minha filha. Não se preocupe. Fizeste o que tinha de ser feito. Agora se perdoe. E reze, apenas uma vez, àquela que concebeu o Filho Divino, a Nossa Senhora Maria, Mãe de Deus."
"Eu irei, padre. Agradeço suas palavras. Mas há mais que gostaria de falar."
"Prossiga."
"Depois disso, Ataulf morreu e os visigodos, como os bárbaros que são, não sabem cuidar da terra e estavam morrendo aos poucos de inanição. E fizeram uma troca com as autoridades imperiais: eu, a refém, por suprimentos de comida... A troca foi realizada e o Palatinus Robertus me resgatou deles... O mesmo que me acompanhou aqui. Em Roma, no ano seguinte, meu irmão me obrigou a casar com Constantius e nos elevou a Imperadores. Era um bom homem mas morreu cedo, doente. Como casal imperial e o incompetente de Honorius sem um filho, nós precisávamos fazer um herdeiro, mesmo contra minha vontade... Tivemos um filho homem, pelo menos, então sem guerras civis no Ocidente. No entanto, no momento que Constantius morreu, Honorius, imediatamente, começou a rastejar à mim com comentários cada vez mais perturbadores. Eventualmente, Palatinus Robertus arranjou um barco de Roma para cá e vim com meus filhos."
"Sabia que Domina estava em Constantinopla fazia pouco tempo, mas não sabia que era esse o motivo."
"Sim... Eu fiz algo errado, padre?" Ela perguntou com olhos marejados. "Primeiro, o rei bárbaro, depois meu esposo, depois meu irmão... Todos eles, de algum modo, me... Eu não sou uma boa romana? Não sou uma boa cristã? O que mais eu devo fazer, padre?"
O Arcebispo Atikós sorriu ternamente e respondeu "O fogo que sustenta a luz de Roma está presente em ti. Reze. Tempos melhores virão.".
Em face dessaresposta, Domina Galla levantou-se do confessionário esaiu do igreja sem responder o padre, insatisfeita com a posição conformistadele e convicta que deveria fazer algo com as próprias mãos caso desejasse queo fogo em seu coração e em Roma não se extinguissem.
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Sub Rosa
Historical FictionNo Ano de Nosso Senhor 422, a jovem Imperatriz de Roma, Galla Placidia, chega em Constantinopla com seus filhos por motivos desconhecidos. As tribulações do passado pesam sobre seus ombros e ela decide visitar a Grande Igreja da capital a fim de se...
