Capítulo 1: A Última Faísca

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O mundo já teve cor. Eldara era terra de campos dourados, rios de prata líquida e florestas que cantavam quando o vento passava entre as folhas. Era.

Agora tudo cheirava a cinza.

A trilha serpenteava entre árvores retorcidas, como se a floresta tivesse congelado no instante da agonia. Os galhos secos rangiam ao menor toque, quebradiços como vidro fino. Nenhum som de pássaros. Nenhum animal. Só o ranger das botas contra o solo duro.

Seren liderava o grupo com passos firmes e olhos treinados para procurar perigos — ou qualquer coisa que não fosse morte. A capa escura arrastava levemente a poeira enquanto ela caminhava. Seus cabelos, presos em uma trança curta, já mostravam mechas prateadas apesar da juventude. Não eram fios de idade, mas de fardo. Quem sonha com o fim do mundo cedo demais não tem tempo pra envelhecer devagar.

Atrás dela, Kael andava como quem não queria estar ali. Um manto azul surrado cobria a maior parte do rosto, mas era impossível não notar os olhos fundos e a cicatriz que cortava seu queixo — não de batalha, mas de um ritual malfeito. Carregava um grimório trancado com correntes finas e um olhar de alguém que confiava mais em demônios do que em pessoas.

A terceira figura era quase um vulto, envolta em silêncio: Maeli, a druida da podridão. Seu toque, diziam, matava flores e frutos. Ela andava descalça, mesmo sobre pedras e espinhos, com o rosto encoberto por um capuz de cor indefinida, como se a própria natureza a rejeitasse. Mas seus olhos, quando visíveis, eram de um verde tão vivo que era impossível encarar por muito tempo.

E por fim, o quarto membro do grupo — um homem pequeno, de capa vermelha puída, cabelo desgrenhado e um instrumento musical amarrado nas costas. Ele parecia fora de lugar, como se tivesse caído ali por engano. Seus passos eram leves, quase saltitantes. O rosto, sempre meio sujo de poeira, carregava um sorriso distraído.

Ele andava alguns passos atrás do grupo, assobiando uma melodia que ninguém reconhecia. Ninguém lhe dizia para parar, mas ninguém o encorajava também.

Seu nome era Finn. Ninguém falava muito dele.

A tarde avançava lenta, como tudo naquele mundo gasto. O sol não aparecia. O céu permanecia coberto por nuvens espessas, imóveis como teto de pedra. Em determinado ponto da trilha, Seren ergueu o punho. O grupo parou instantaneamente.

— Estamos perto das ruínas de Uthar,- ela disse, consultando um pedaço de pergaminho antigo. -Vamos parar por aqui hoje. Não arrisco atravessar à noite.

Kael murmurou algo e começou a procurar um local seguro para montar abrigo. Maeli se ajoelhou perto de um tronco morto e passou os dedos nas raízes — imediatamente, um líquen cinzento se formou ali, como se sua presença chamasse a decomposição.

Finn olhou em volta com a expressão de quem procurava inspiração. Tirou o ukulele das costas e dedilhou três notas suaves.

— Esse lugar tem uma acústica horrível- comentou com um sorriso. Ninguém respondeu. Ele não pareceu se importar.

A fogueira foi improvisada com madeira seca — que, em Eldara, era quase qualquer coisa. Maeli conjurou uma brisa quente que acendeu a chama. Kael ficou de guarda. Seren sentou-se um pouco afastada do grupo, olhando para o mapa.

Finn se aproximou devagar.

— Quer que eu leia isso em voz alta com sotaque engraçado? Vai que melhora o humor da missão…

Seren ergueu os olhos por um momento.

— Por que você está aqui, de verdade?

Finn deu de ombros, como se a pergunta não o afetasse.

— Achei que seria divertido. Sempre quis ver o fim do mundo de perto.

— Isso aqui não é uma peça de teatro.

— Claro que não. Teatro tem mais iluminação - ele respondeu, olhando para o céu sem estrelas.

Ela quase sorriu, mas se conteve.

Finn deu dois passos pra trás, como quem reconhece o limite.

— Beleza. Vou lá fazer o Kael rir. Tarefa impossível. Mas alguém tem que tentar, né?

Ele se afastou assobiando uma melodia lenta, meio desafinada. E pela primeira vez desde o início da jornada, Seren percebeu algo estranho no ar.

Não era esperança. Mas talvez... leveza.

As Cinzas de EldaraStories to obsess over. Discover now