A dor no estômago era insuportável, e ele tinha certeza de que talvez fosse uma das piores.
Pior pela dor, mas também pelo falatório incansável da loira que a todo caminho do estúdio até o apartamento o questionava sobre as dores.
De certo, o murro tinha sido dolorido, mas a gastrite o deixava pior.
— Lígia, por favor! — suplicou, batendo à porta da sala enquanto observava a ex mulher desfilar à sua frente.— Eu não aguento mais ouvir falar do que aconteceu.
A voz era de irritação, ainda que reforçasse em sua cabeça que deveria respirar pra que aquela dor ao menos pudesse o esquecer.
— Celeste! — Lígia chamou, andando pelos corredores.— Ronaldo!
Raimundo ajudou batendo em cada porta do quarto notando que o silêncio era sinal de que estavam sozinhos.
— Eles não estão. — gritou do corredor.
E mais uma vez a dor o atingiu, como se seu estômago comprimisse cada parte de seu corpo.
E cada vez que a dor vinha, a irritação o consumia por inteiro acompanhado pelas memórias insuportáveis do beijo forçado que Lígia havia se envolvido.
Mas logo se dissipava, pois ainda sentia as mãos delicadas da ex mulher sobre o seu rosto, o olhar preocupado, como se agradecesse pela atitude em meio ao palco de a defender.
Entrou então no último quarto do corredor, onde a luz do sol atravessava pelas janelas acompanhado de um vento forte que movimentava as cortinas.
Tudo silencioso demais, leve como se o trouxesse o frescor daquela tarde.
Retirou então os sapatos, o paletó, desatou o nó de sua gravata, amontoando sobre a poltrona.
E na mesma velocidade que mais uma onda de vento entrou pela janela, Lígia abriu a porta de uma vez só.
— Eu encontrei o chá que a... — e perdeu o ar por um segundo, olhando para o ex marido que desabotoava a camisa.— ... Quer que eu faça pra você?
Quanto tempo fazia que não via Lígia naquele quarto, em uma tarde daquela, em um dia comum?
Quanto tempo fazia que não via o quanto o sol ficava bonito sobre os cabelos dourados da ex mulher?
Raimundo a olhava com tanta ternura que Lígia se perguntava da mesma maneira.
Quanto tempo fazia que não via o ex marido dentro daquele quarto tão a vontade com sua presença?
Quanto tempo fazia que ele conseguia a tirar o fôlego com apenas um olhar?
— Por favor. — pediu, com a voz doce que a fazia sentir o calor em seu peito.— Eu vou tomar um banho, pra tirar essa tinta da minha barba.
Ela sorriu, se lembrando agora de forma cômica.
Tirou os saltos, sabendo que talvez precisasse de mais um tempo para falarem sobre o trágico assunto daquela tarde.
E Raimundo percebeu o quanto ela estava a vontade.
Gostava daquilo, se apegaria aquilo mais do que gostaria, tinha certeza.
— Eu já volto.
Lígia sentiu que precisava muito mais do que só cinco minutos de preparo de um chá.
Precisava de respirar melhor, de organizar seus pensamentos, de acalmar seu coração descompassado.
Que loucura era aquela dentro de si?
