Nasci na Torre 9. Chamam-na de Mnemus.
É aqui que repousam os dados computatorizados das memórias antigas da humanidade. Fragmentos de um mundo que já não existe, arquivados em silêncio. Para proteger o que ainda restou.
Mnemus é uma das Doze Torres erguidas pelos nossos antepassados — os últimos refúgios da raça humana após o grande colapso. Fomos atacados há 720 anos por uma raça alienígena que chamamos de Selientes. Ninguém sabe de onde vieram. Sabemos muito pouco... e o pouco que sabemos é suficiente pra desejar nunca ter descoberto.
Eles não usam armas. Não precisam. Os Selientes invadem a mente humana como um vírus. Um ataque deles tem uma taxa de sobrevivência: zero por cento.
O mais estranho? Eles nunca atacaram diretamente as Torres. Como se... não quisessem. Ou não pudessem. As Torres foram nossa última tentativa desesperada de sobrevivência. E por alguma razão, funcionou.
Armas convencionais não os afetam. Os Selientes se comunicam sem emitir som algum. Acreditamos que usem seus cérebros — talvez uma rede telepática. Talvez todos eles sejam... um só.
Por enquanto, aqui dentro, conseguimos sobreviver.
As Torres são colossos. Algumas alcançam 780 metros. Outras, quase mil. Elas se ligam por antigas pontes suspensas. Pelo menos o que sobrou delas... O transporte de cargas pesadas ao longo dos séculos acabou corroendo as estruturas. Hoje, cruzar uma ponte é quase um ato de fé.
As Torres formam um círculo perfeito.
No centro dele... a carcaça da Torre Zero — a primeira construída. Hoje, ela está abandonada, conectada a todas as outras por pontes enferrujadas e quebradas pelo tempo. Um esqueleto de concreto e aço, batizado de Núcleo.
Alguns se perguntam por que não restauramos as pontes. Mas aqui em cima, os recursos são escassos. E descer até o Véu... é basicamente assinar a própria sentença de morte.
Véu.
É assim que chamamos o chão — ou o que restou dele.
Uma terra em decomposição, coberta por uma névoa tóxica e lamentos esquecidos. A radiação ali embaixo é insuportável. Não é só o solo: os próprios Selientes parecem emanar essa energia — como se respirassem ao contrário. Absorvem o pouco de ar que ainda existe... e expelem radiação como se fosse fotossíntese ao contrário.
E se isso já não fosse o suficiente, agora existem também... os Esquecidos.
Seres deformados que surgiram há pouco tempo, nas profundezas do Véu. Ninguém sabe de onde vieram. Ninguém entende o que são.
Não falam. Não atacam de imediato. Apenas... observam. E desaparecem.
Há quem diga que são humanos que tentaram descer e nunca voltaram. Outros acreditam que são experimentos fracassados da Vitae ou pragas criadas pela Vox. Duas das outros Torres.
Mas a verdade é que sobre os Esquecidos... não sabemos nada.
Eu tinha um irmão.
Klaus. Doze anos mais velho que eu.
Quando eu tinha dez, ele, junto com meus pais, desceu até o Véu em busca de suprimentos. O foco era madeira. A madeira se tornou um tesouro — quase impossível de encontrar aqui em cima. As mudas que plantamos crescem cada vez mais devagar, como se a própria esperança estivesse murchando junto com elas.
Sinto saudades de você, Klaus.
Eles nunca voltaram.
Morreram lá embaixo... naquele maldito lugar.
Desde então, me viro sozinho.
Quer dizer, não exatamente sozinho. Virgínia, mãe da minha melhor amiga, Annice, me acolheu como se fosse um filho. As duas se tornaram minha família improvisada. Virgínia era amiga de infância da minha mãe. Sempre gostou de mim — mesmo quando eu ainda era só um moleque perdido entre os corredores frios de Mnemus.
Hoje, tenho 21 anos. Annice tem 20.
Vivemos o que dá pra chamar de vida.
Uma vida escassa, silenciosa e suspensa no medo.
Na verdade... todos aqui vivem assim. Uma existência pendurada sobre o abismo.
Ainda rezamos — mesmo que ninguém mais saiba direito pra quem.
Rezamos pra que um dia isso tudo acabe.
Pra que os Selientes desapareçam.
Ou pra que a gente encontre força suficiente pra fazer alguma coisa... antes que seja tarde demais.
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As Torres de Aurélion
Ficção CientíficaApós o colapso da Terra, o que restou da humanidade vive suspenso em doze torres, cercadas por radiação, silêncio... e criaturas que destroem mentes. Elias nasceu na Torre Mnemus, mas o desaparecimento da família no Véu ainda o assombra. Quando mens...
