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Prólogo

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꧁༒☬  𝕵𝖊𝖘𝖘 ☬༒꧂

O céu de Saint Louis parecia ter se vestido especialmente para me receber — um azul calmo, pincelado de nuvens tão leves que mais pareciam suspiros. Quando o táxi parou em frente à casa branca de janelas azul-claro, senti meu coração vacilar no peito. Era real. Eu estava mesmo de volta.
Respirei fundo, tentando conter o nó que se formava na garganta. Tantas coisas haviam ficado para trás. Coisas que eu ainda não sabia como enterrar. Ou se queria.

A porta se abriu antes que o motorista desligasse o carro, e lá estava ela. Dafne.
Com aquele mesmo sorriso de sol, os braços abertos, os olhos brilhando como se eu fosse o maior presente que a vida tinha lhe dado naquele dia.

Jess! — a voz dela era um abraço. Eu desci e me deixei envolver. Ela ainda cheirava a lavanda e carinho.

— Você está linda — ela disse, segurando meu rosto com delicadeza. — Mesmo com essa cara de quem passou a noite chorando.

— Exaustão tem esse efeito — murmurei, forçando um sorriso. — Mas obrigada.

— Amei o corte.— Ela pega no meu cabelo, que está na altura do meu pescoço, em um corte social. Os fios pretos e lisos longos ainda pinicavam o começo da minha nuca.

Por dentro, eu estava em pedaços. Mas com Dafne, sempre foi fácil fingir que estava tudo bem.  Logo ela me ajudou a pegar minhas poucas malas que estavam no porta-malas.

— Cadê a sua mudança ?— Ela perguntou, enquanto seus olhos verdes me encaravam com carinho.

— Está no caminhão, ainda estão na estrada. Atrasos.— Sorri de leve, após um suspiro de frustração.

— O bom que pode fica daqui até chegar!

A casa tinha o mesmo cheiro de infância e ternura. Madeira clara, janelas abertas, cheiro de pão no ar. A mãe dela estava na cozinha com o avental florido de sempre. Me acolheu como se os anos não tivessem passado. Como se eu nunca tivesse partido.
Depois do almoço, sentamos no jardim. Era o nosso lugar. As flores pareciam nos ouvir, e o vento sussurrava segredos antigos entre os galhos. Dafne falava sem parar sobre o casamento — o vestido, as flores, a banda, os docinhos. Eu ouvia, sorria. Mas por dentro, tudo era silêncio.
  Dafne e eu éramos amigas desde a infância, quando morei aqui com minha mãe.   Nós nos conhecemos no ensino fundamental e não nos separamos mais. Ela era linda, tinha a pele negra mais brilhante que já vi, os olhos mais profundos e longos fios ruivos até a cintura.  O que, atraiu Owen — seu noivo — de primeira.  Eles se conheceram no ensino médio e estão juntos desde então.

A ruiva olhou pra mim, com um olhar que eu já conhecia bem e disse o nome que eu vinha tentando ignorar desde o dia em que comprei a passagem.

— Ele vai estar aqui também… Logan. Na verdade, já está aqui.  Sei que deveria ter te falado antes...

Meu corpo ficou imóvel. O nome dele ainda era uma lâmina afiada.

— Não esperava que ele viesse — murmurei, tentando manter a voz firme.

— Ele é amigo do meu irmão, você sabe… não teve como evitar. Mas você não precisa falar com ele. Eu prometo.

Assenti. Porque o que mais eu podia fazer? Mas promessas assim são frágeis. Como vidro fino: lindas até quebrarem.
E como se o destino tivesse um senso de humor cruel, ouvi a risada dele vindo do corredor. Aquela risada.

Logan.

Vi seu vulto se aproximando, o mesmo andar confiante. Quando nossos olhos se encontraram, foi como abrir uma janela esquecida num quarto empoeirado.  Seu cabelo continua loiro e bem ralo, quase careca. Ombros largos, barba por fazer e olhos azuis penetrantes.

— Jess?

Demorei a responder. O tempo havia passado, mas alguma parte de mim ainda o reconhecia. Ainda doía.

— Oi, Logan.

Aquele silêncio entre nós… era cheio de tudo o que não foi dito. Das promessas que não cumprimos. Dos sentimentos que nos escaparam.
Antes que a dor se instalasse por completo, outra voz me arrancou daquele abismo. Uma voz grave, suave e um pouco provocadora.

— Se eu soubesse que a visita era tão ilustre, teria trazido vinho.

Me virei e dei de cara com Cael.

O irmão da Dafne. O mesmo garoto que desenhava em cadernos durante as festas, fugindo da confusão. Mas agora… não havia mais nada de garoto ali. Os olhos eram mais profundos, o sorriso mais contido. Ainda havia ironia, sim, mas também havia cuidado.

— Bem-vinda de volta, Jess — ele disse, pegando uma maçã da cesta sobre a mesa. — Achei que você não voltaria mais — completou, com aquele jeito de quem não espera resposta.

— Eu também achei — confessei.

Nossos olhos se prenderam por um segundo longo demais. Depois, ele mordeu a maçã e saiu, como se não tivesse dito nada. Mas eu sabia que tinha. A cidade inteira parecia querer me lembrar de quem eu fui… e do que ainda podia ser.
Eu não sabia exatamente o que me esperava, mas uma coisa era certa: Saint Louis tinha me chamado de volta. E, desta vez, eu não tinha mais para onde fugir.

O tempo das flores tardias Stories to obsess over. Discover now