Aluga-se

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Apesar de tudo o que ela lhe fizera, Gabriel ainda a via como o fogo que o atraía, um magnetismo irresistível, uma chama que não se apagava. Clara sempre tivera esse poder sobre ele, mesmo depois do fim. Mesmo depois das palavras duras, dos erros e das promessas quebradas. Ele sabia que deveria seguir em frente, mas não conseguia evitar. Quando ela estava perto, seu coração ainda disparava, e sua mente, que tentava se proteger, não conseguia se desligar completamente do que foi.

Era a ausência dela que o consumia, uma saudade intensa, maior do que qualquer dor. Não era apenas desejo, nem a lembrança do toque ou dos beijos. Era sobre como ela o fazia sentir-se vivo, sobre a essência dela, sobre o jeito único que só ela tinha de fazê-lo se perder no calor de sua presença.

Mas havia algo mais. Algo que o impedia de se entregar novamente. Era esse receio que o mantinha distante, tentando manter a chama apenas como uma lembrança — algo que ele não queria mais tocar, mas que ainda estava lá, viva, pronta para se acender novamente. Só espero que, se eu resolver me aproximar, não me queime mais...

O desejo de voltar, de tentar mais uma vez, ainda estava lá, mesmo que ele se forçasse a acreditar que não estava.

Apesar de tudo, talvez, ele ainda acreditasse, em algum lugar dentro de si, que havia mais. Que o fim não era o fim. Para ele, era só um intervalo. Um espaço temporário. Talvez necessário. Talvez não. Mas, ainda assim, um intervalo.

Gabriel não sabia o que estava tentando provar para si mesmo. Ele foi ao cinema sozinho, assistiu a uma comédia romântica — um gênero que Clara adorava, e ele, por algum motivo, sempre odiou. Durante o filme, enquanto casais riam ao seu redor, ele se pegou perdido nos próprios pensamentos. O riso forçado das cenas não o distraía. Na verdade, ele se viu refletindo sobre tudo o que havia sido, sobre a relação deles, o início, os altos, os baixos e, finalmente, o fim.

"Se o nosso amor for como nos filmes, certeza vai ter o 2!"

Ele riu sozinho, pensando na possibilidade de sua vida ser uma comédia romântica clichê americana. Mas, talvez, naquele momento, fosse a hora de começar a escrever uma nova história para si mesmo.

Gabriel sabia que precisava ocupar a cabeça, mudar de rumo, focar melhor no trabalho, nos seus projetos. Estava na hora de investir em outras coisas, de voltar a viver de verdade, sem a sombra da saudade a lhe rondar o tempo todo. Investir em outros casos, quem sabe, como as pessoas diziam quando estavam tentando seguir em frente.

Ele sorriu sem vontade, sabendo que, no fundo, não era só sobre "outros casos", mas sobre a tentativa de se reencontrar. E talvez, ao fazer isso, ele começasse a preencher aquele vazio que, há semanas, parecia crescer dentro de si.

Gabriel se permitiu sair. Tentou, de todas as formas, preencher o vazio com novas experiências. Conheceu novas pessoas, se jogou em encontros casuais, em relacionamentos que pareciam promissores, mas que rapidamente se mostravam rasos, superficiais, sem profundidade. Alguns duraram semanas, outros, poucos meses... Mas nenhum deles conseguiu prender sua atenção, aquecer seu coração. Cada beijo, cada risada, cada toque era passageiro.

Ele se via dando de si, mas sem jamais se entregar por inteiro. O que ele oferecia, no fundo, não era mais do que um lugar vazio, uma promessa não cumprida. Um aluguel de poucos sentimentos. Esses relacionamentos passageiros não passavam de ocupações temporárias, preenchendo lacunas, mas jamais suprindo a ausência real que ele sentia. Eles não eram a verdadeira morada do seu coração, esse lugar já estava ocupado, jurado, selado.

Gabriel sabia disso. Sabia que não poderia dar a ninguém o que ele ainda tinha reservado para Clara, mesmo que ela não soubesse disso, mesmo que ela já tivesse dado o fim. Ele não queria mais acreditar que poderia encontrar algo mais verdadeiro enquanto ainda carregava, no fundo da alma, o desejo de um reencontro com Clara...

Anos haviam se passado. Dois, talvez três. O tempo que, no início, parecia uma eternidade de distâncias, agora se mostrava como a medida exata para que as feridas curassem e as almas amadurecessem.

Gabriel não sabia ao certo como ou por que, mas a vida o trouxe de volta a Clara, e agora, quando se encontraram novamente, tudo parecia diferente. Eles estavam mais maduros, mais serenos, mais conscientes do que a vida poderia oferecer. Havia algo nos olhos dela que não estava mais coberto de incertezas e mágoas. Era como se ela também tivesse aprendido a importância do silêncio, da espera, do reencontro.

O amor que ele sentia por ela parecia mais forte, mais profundo, como se o tempo tivesse amadurecido cada parte de seu sentimento. Ela também parecia vê-lo com outros olhos. A urgência da juventude e dos erros do passado havia se transformado em uma nova certeza, mais tranquila, mais sólida.

Eles se encontraram em um café, como se o destino os tivesse orquestrado para esse momento. As palavras entre eles começaram como um ensaio, como se ambos tivessem medo de falar o que sentiam. Ao fundo, a música que eles mais ouviram durante esse tempo de ausência um do outro. E que, por coincidência ou obra do destino, casava com o momento.

Então, Gabriel sorriu, sentindo que aquele era o momento... E, falou:

Porque se for amor real, foi mal... o meu tá jurado.

Clara respirou fundo, segurou a mão dele e completou, num sussurro carregado de certeza:

Pra você, por tudo que é mais sagrado.

E naquele instante, eles souberam que era para sempre.

Ela o abraçou, com a certeza de que, finalmente, estavam no momento certo.

Eles não estavam mais fugindo do amor, nem tentando dar-lhe outro nome. Estavam prontos para viver aquilo que, há muito tempo, o coração de ambos soubera ser verdadeiro.

Era o recomeço deles, agora com a promessa de não deixar mais nenhum intervalo entre o que realmente importava.

FIM.

"Aluga-se" é a história de um coração partido tentando seguir em frente, mas preso às lembranças de um amor perdido.

Inspirado na música "Aluga-se" de Luan Santana.

Contos que CantamWhere stories live. Discover now