O sol da tarde incomodava a pele, o suor escorria, e o vento quente soprava nas bochechas vermelhas. O barulho corriqueiro e até mesmo o passar dos animais para lá e para cá não impediram que Elias se sentasse no chão, perto do estábulo do avô, sentindo o calor do sol. Ele gostava de sentir os raios penetrando em sua pele e, logo em seguida, escapar para o rio mais próximo, apenas para se aventurar em um banho na água geladinha. Fazia isso desde os oito anos, quando começara a ir à fazenda do avô para ajudá-lo no dia a dia.
Ele estava concentrado demais, de olhos fechados, a ponto de não ouvir o chamado do avô, que berrava de cima do trator.
— Elias, coloque um protetor solar, vai acabar torrando no sol. Elias, você está me ouvindo?
Parecendo despertar do transe, Elias deu um salto, ficando de pé num instante.
— Já vou, vovô. É a comida das vacas ou das galinhas?
Fred, vendo que os pensamentos do neto estavam tão distantes que ele não ouviu uma palavra do que foi dito, levou a mão à testa e a balançou para lá e para cá, dando um risinho antes de repetir:
— É para colocar um protetor solar.
— Ah, tudo bem, vovô, já coloquei.
— Venha, venha, suba aqui. Vamos arar mais um pouco.
Contente com o chamado do avô, Elias subiu no trator, recebendo a oportunidade de conduzi-lo, mesmo que sob a vigilância de Fred.
As horas ao lado do avô voavam tanto que Elias nem percebeu que já estava perto do anoitecer e precisava voltar para casa.
— Estou indo, vovô.
— Tome cuidado.
Com um aceno, Elias pegou a mochila jogada no chão e montou em sua bicicleta, sentindo a brisa do fim de tarde enquanto pedalava de volta para casa. Assim que entrou em sua rua, notou uma movimentação estranha: havia um caminhão de mudanças na casa da frente, aquela que estava abandonada há meses. Ele parou a bicicleta e tentou observar um pouco, mas foi pego de surpresa quando seu irmão mais velho, Maxime, deu um tapa em sua nuca.
— O que está fazendo parado aí? Vamos logo, mamãe já fez o jantar.
Elias concordou, guardando a bicicleta e entrando com o irmão em casa. Subiu para tomar um banho rápido e logo se reuniu com a família para jantar. Seu pai, Luk, se gabava mais uma vez por sua música estar fazendo sucesso. Elias até ficaria feliz por ele, se o bullying recorrente na escola, por parte dos veteranos, não o amedrontasse tanto.
— Viram os novos vizinhos? — perguntou Elias, curioso.
— Oh, sim. Falei com eles mais cedo, assim que chegaram. No sábado, irei fazer um churrasco e convidá-los para dar as boas-vindas — disse Nathalie, mãe de Elias.
— Para quê? — replicou Maxime, com um claro tom de sarcasmo. Ele não gostava muito desses programas que a mãe organizava.
— Para termos uma boa convivência.
— Para comerem mais da nossa comida.
— Max, pare com isso. Vai ser legal — interveio Luk, apoiando a decisão da esposa. — O que acha, Elias?
Terminando de engolir o macarrão que mastigava, Elias lambeu os lábios antes de responder:
— Por mim, tudo bem.
— Ótimo, então — disse Nathalie, sorrindo contente, mesmo ouvindo o bufar do filho mais velho. — Pode chamar a Valerie, se quiser. — Ofereceu a Elias.
Valerie era sua namorada, uma loira, bem mais alta que ele e cheia de atitude.
Elias concordou com a cabeça, encerrando o assunto.
Depois do jantar, o sono o embalou de forma leve. Estava tão bom que ele nem ouviu o despertador tocar. Foi então que mãos gentis o balançaram, dando-lhe beijos na testa e pedindo para que se levantasse, para não se atrasar. Mesmo a contragosto, Elias obedeceu ao pedido da mãe, arrumando-se para ir ao colégio. Em sua opinião, as segundas-feiras eram as piores, as mais cansativas depois de um domingo divertido.
— Brigou com a escova? — seu pai questionou Elias assim que viu os fios loiros revoltos para todos os lados, ainda úmidos do banho. Elias, por outro lado, estava com sono demais para responder ao pai adequadamente.
— Vai secar depois.
Elias saiu de casa ainda esfregando os olhos, a mochila pendurada em um dos ombros. O vento fresco da manhã contrastava com o calor sufocante do dia anterior, e ele sentiu um leve arrepio ao subir na bicicleta. Maxine já havia partido, então ele seguiria sozinho até a escola.
Não demorou até avistar a namorada junto dos outros amigos, reunidos e apostando, mais uma vez, quem conseguiria girar a garrafa para que ela caísse de pé. Aproximou-se devagar, bocejando.
— Bom dia! — Valerie sorriu grande ao ver Elias, um sorriso cheio de ferros, graças ao aparelho dentário.
— Bom dia!
Valerie agarrou a mão de Elias, puxando-o para sentar-se ao seu lado.
— Conseguiu terminar as questões de matemática ou ficou desenhando a noite inteira?
Elias gostava muito de desenhar. A cada dia, era mais notório o quanto se empenhava nos desenhos e o quanto era talentoso.
— Eu terminei.
Valerie concordou. O sinal tocou alto, fazendo os alunos entrarem em suas salas. Ninguém estranhou quando Gomes foi o primeiro professor a entrar. Ele começou sua aula fazendo questionamentos aos alunos sobre como é estar apaixonado, mas foi interrompido pelo diretor, que fez com que todos se levantassem para recebê-lo. Ao seu lado, havia um garoto cabeludo segurando vários livros nas mãos. Olhar para ele foi como levar um chute no estômago.
— Pessoal, este é Alexander. Acabou de se mudar para cá. Por favor, sejam gentis com ele.
A turma concordou, e não demorou até que os burburinhos das meninas comentando sobre a aparência dele começassem. Sim, ele era bonito. E Elias não parava de se perguntar por que diabos achou isso de um garoto. Ele tinha amigos meninos, e, mesmo assim, vê-los não lhe causava essa sensação de dor de barriga a qualquer instante.
Elias resolveu ignorar esses pensamentos estúpidos - mesmo quando o professor pediu para que Alexander se sentasse atrás dele e seu perfume impregnava tudo ao redor.
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Young hearts
FanfictionO mundo de Elias vira de ponta-cabeça à medida que seus laços com Alexander se fortalecem. A aceitação torna-se um desafio, e o destino reserva surpresas que podem mudar tudo. O que o futuro lhes reserva?
