1849
Era estranho que em pleno verão quente no Rio de Janeiro estivesse caindo uma tempestade. Era o último dia das festas de Carnaval, estavam todos alegres gritando, dançando, cantando as marchinhas, bebendo até não se lembrarem de seus nomes. Como todos diziam? "Tudo pode-se no Carnaval". Mesmo para a elite do Rio de Janeiro, aquilo era estranho, todos se abraçavam, os cavalheiros levavam as damas para algum canto isolado, e sabe se lá o faziam ali, só que a dama em questão já não estava mais composta quando voltava ao salão.
Quantas foram as vezes que Frances levou alguma dama para um canto isolado? Não sabia dizer, mas com certeza nunca fora uma dama pura. Não se atreveria a tanto, não pensaria em comprometer uma dama de família, mesmo em época de carnaval, quando ninguém era de ninguém. Mas nenhuma dama de família se envolvia em festas inescrupulosas. Não, elas viam os desfiles, e as fantasias das sacadas das casas de temporada próximas a praia, e Cícero via em suas faces como elas queriam estar ali, se divertindo como qualquer outra pessoa.
Mas depois do baile dos Almeida de Castro, resolveu se recolher em seu elegante apartamento com vista para o mar. Nunca se cansaria de passar seus dias ali, acabará de se formar na faculdade, mas continuou sua vida de libertinagem ali na cidade mais movimentada do Brasil. Se dependesse Frances arqueou as costas lembrando o que o pai lhe fizeram quando ainda tinha apenas oito anos, quando tentou defender um amigo de ser açoitado por um dos capatazes da fazenda. Havia duas grandes marcas em Frances, uma que cortava toda a extensão de suas costas, e outra que marcava as suas duas coxas.
Parecia que tinha sido naquele mesmo dia, quando segurou o braço do capataz, impedindo de brandir o chicote. Mas o pai o puxou pela gola da camisa e lhe falou que já que queria tanto salvar o amigo, poderia lhe tomar o lugar. E com isso o pai que arrancará toda a roupa e o amarrou ao tronco, e brandiu ele mesmo o chicote, e com dois estalos bem alto, deixou as marcas que ainda enfeitavam as costas e as coxas deFrances. Nunca mais falou com o pai depois disso, e implorava todos os dias para Deus antes de dormir, para que chegasse a hora de ir estudar e sair de uma vez daquela casa.
Agradecia todos os dias por estar longe dele, por finalmente ter sua liberdade, por não carregar mais o fardo de ser daquela familia. A única coisa que não o deixava praguejar sobre todos daquela casa, era sua amada irmã, doce, meiga e tão inocente irmã. Ele a amava te todo coração, ela era sua família. Sua única família. Já que a mãe falecera a tantos anos. Frances acha que faleceu de tanta tristeza, mas a verdade era que sua mãe sofria de dores de cabeça tão fortes que se trancava em seu quarto e fechava todas as cortinas. Com o tempo a doença foi piorando, ela foi definhando, se sentindo cansada, mal conseguindo comer, perderá a cor, e quando começou a perder os cabelos, veio a falecer. Frances culpou o pai, ele sempre foi cruel com a mulher e os dois filhos, mas depois da morte da esposa, passou a tratar a filha como uma princesa. Claro _ pensou Frances _ ela era a cara da mãe, mas toda vez que olhava no espelho via a cópia do pai, até mesmo o jeito de franzir a testa, ou de dar de ombros. E isso o deixava ainda mais irado, nunca se livraria dele, nem mesmo quando o pai morresse se livraria dele.
Antes mesmo de virar a maçaneta da porta, seu mordomo a abriu fazendo Frances tropeçar no hall do apartamento.
_ Desculpe-me senhor, mas não era minha intenção que caísse. _ disse o mordomo fazendo uma pequena reverência.
_ Não se preocupe Souza. _ Frances tentou arrumar o colete que se encontrava aberto, e apanhando o paletó que caiu no chão. _ Não estou muito perceptivo. _ Com um sorriso travesso olhou para o mordomo, que corou assim que entendeu o que queria dizer.
_ A noite foi boa então senhor. _ Souza devolveu o mesmo sorriso travesso a ele.
_ Como todas as outras. _ caminhou até a sala ampla do apartamento, e se estirou em uma das poltronas decoradas em tons de azul e branco. _ Como todas as outras. _ repetiu, lembrando-se com um sorriso da bela viúva loira que dedicou toda a atenção aquela noite. _ Prepare uma bebida para mim por favor.
Em pouco tempo Souza lhe passou o copo com o líquido ambarino que tomava todas a noites quando chegava de suas aventuras amorosas. Levou o copo aos lábios, ainda imaginando os lábios da mulher que esquentará seu corpo nas últimas horas, lembrando como ela lhe arrancou as roupas, como saboreava todo seu corpo, como se arqueava embaixo dele em busca de mais prazer, dos gemidos que soltava quando ele chegava ao limiar da paixão, e como gritava o nome dele quando terminavam.
Nunca se cansava dessa vida, provavelmente não encontraria ela de novo, ou encontraria em algum baile ou reunião, mas não importava, ela fingiria que não o conhecia, e ele faria o mesmo. E isso era o que mais gostava, teria o seu prazer saciado com belas mulheres e não precisaria continuar a conviver com elas.
Continuou a saborear seu conhaque, e se perdendo nas lembranças da noite, quando veio uma batida forte e insistente em sua porta e o tirou de seus devaneios.
_ Atenta por favor Souza, e diga que já me recolhi.
O mordomo foi até a porta atender o visitante insistente que não parava de bater.
_ Pelo amor de Deus Souza, vá chamar Frances para mim. _ a voz do visitante estava carregada de desespero.
_ Sinto muito, mas o senhor já se recolheu.
_ É urgente Souza!
_ MANDE O ENTRAR PELO AMOR DE DEUS!
Para o espanto de Frances, seu amigo estava parado à sua frente parecendo que o próprio Imperador estava a sua caça para extraditá-lo de volta a Portugal.
_ Para que este desespero todo Carlos? _ perguntou Frances com os cantos da boca se repuxando para cima de forma sarcástica. _ Não conseguiu a atenção de ninguém está noite? De novo?
_ É Josué.
O copo que Frances estava bebendo parou pouco antes de chegar aos lábios mais uma vez, e sentiu o sangue congelar em todo corpo. Seu amigo irresponsável Josué Alves. O único que conseguiu se meter em mais brigas e confusões em apenas 3 meses, do que Frances a vida inteira. Mas era seu melhor amigo. O que o acolherá quando não tinha mais ninguém. O que o tratou como se fosse da própria família.
_ Ele está na praia _ retomou Carlos. _ Arrumou briga com dois homens no porto.
Frances sentiu que agora o sangue literalmente se esvaiu de seu rosto. Mas ainda continuou em silêncio. Não sabia o que responder.
_ Eles vão matá-lo...
Frances não esperou que Carlos continuasse a falar, porque já estava em cima de um cavalo e não corria, mas voava até chegar ao Porto. Não podia deixar Josué morrer, além de sua irmã, ele era sua única família. Não importava com as pessoas ainda festejando nas ruas, passou tão rápido por elas que mal viu quando jogou alguns deles no chão. O único pensamento que estava em sua cabeça era que seu amigo tinha que estar vivo, e rezou pedindo a Deus que chegasse a tempo de salvá-lo.
Quando chegou ao Porto, procurou por todos os lados, tentando encontrar onde eles estavam. Parou o cavalo e tentou ouvir.
_ Seu português idiota!
A ouvir um gemido de dor, seguido por um som de osso se quebrando, Frances já não esperou, correu sem se importar como seus pulmões queimavam. Quando viu a cena, seu amigo estirado no chão com o rosto todo inchado e ensanguentado, e o braço torcido de uma forma impossível, começou a ver o mundo em tons de vermelho. Não se importou com o tamanho dos homens, se eram magros ou forte, se era mais altos ou mais baixo que ele. Ele apenas não enxergou, e partiu para cima dos dois homens, acertou um soco na garganta de um deles _ o que se encontrava em pé assistindo o outro socar a cara de Josué _ que caiu do píer dentro do mar. E seguiu para o outro que ainda esmurrava a cara de Josué. Frances o puxou pelo colarinho da camisa e acertou o punho em seu queixo, quando o homem caiu, não conseguiu parar, continuou o acertando no rosto enquanto o sangue de espalhava por todo o corpo do homem que caiu sobre o deque do porto, e Frances continuou desferindo golpes com os dois punhos desta vez, e não parou. Já não dava para ver mais o rosto do homem, somente carne inchada e sangue, e mesmo assim a raiva ainda tomava conta de todo o corpo de Frances. Josué era sua família, ele não poderia perdê-lo. Já perderá a mãe, nunca tivera um pai, somente sua irmã que não a via a tantos anos _ porque ainda morava na fazenda _ e Josué. Sua família se resumia a duas pessoas e ele arriscaria sua vida por qualquer um deles.
Quando os braços cansaram de atacar o rosto do homem estirado ao chão, olhou em volta e não viu mais o segundo que caiu na água, e mais uma vez o sentiu o sangue se esvair de seu rosto. Olhou mais uma vez envolta a procura agora de Josué, ele estava olhando as mãos de Frances assustado e mal conseguindo se erguer em um braço.
_ Frances, _ a voz de Josué não passava de um sussurro. _ O que foi que você fez?
Frances olhou para suas roupas agora sujas de sangue e as mãos trêmulas. Quando baixou os olhos para o corpo sem vida ao seus pés.
_ Eu não sei.
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AQUARELA - BLUE
Romance"_ Boa tarde Coronel. _ fez uma pequena reverência que saiu bem desajeitada quando perdeu o equilíbrio. Ótimo! Agora minhas pernas viraram geleia. _ Creio eu senhorita, que já anoiteceu. _ O sorriso que tinha nos lábios ganhou proporções ainda mais...
