O fim da guerra parecia um sonho distante, desses que a gente tenta lembrar e só consegue puxar as partes doloridas. Hogwarts até tentava fingir normalidade, mas ninguém ali estava normal. As paredes do castelo ainda carregavam marcas invisíveis — um pedaço de medo aqui, uma memória torta ali.
Harry sentia isso todo dia, como se o ar estivesse pesado demais para um lugar supostamente "em paz".
De vez em quando ele pegava o próprio reflexo em alguma janela e se perguntava quem diabos era aquele garoto. Herói? Sobrevivente? Ou só alguém tentando não desmoronar no meio do corredor?
Os alunos voltaram, claro. A vida continuou, teoricamente. As salas estavam cheias, as mesas também, mas por trás do barulho, tinha sempre aquele silêncio estranho, como se Hogwarts estivesse segurando a respiração o tempo todo.
Harry odiava admitir, mas sentia falta de Dumbledore de um jeito que atravessava tudo.
E a guerra... estava longe no calendário, mas não no peito.
Ainda era o centro dos olhares — só que agora, em vez de admiração, ele sentia uma mistura entre pena e expectativa. Como se todos esperassem que ele continuasse resolvendo tudo. Como se ele não estivesse cansado até os ossos.
Hermione estava lidando com tudo isso melhor que ele, ao menos na superfície. Enterrada nos livros, ocupando a mente de propósito.
Rony fingia normalidade do jeito dele: piadas, comentários, bagunça. Mas tinha uma sombra nova no olhar dele também. A separação entre os dois tinha sido civilizada, mas civilização não cura coisa nenhuma.
Era uma tarde estranha na biblioteca. O tipo de tarde em que o castelo parece sussurrar nas sombras.
Hermione escrevia tão rápido que parecia duelar com a pena.
Rony tentava distrair todo mundo com alguma história aleatória.
E Harry só... existia. Tentava focar em um livro que parecia em outra língua.
Virou de novo com aquela sensação teimosa de que alguém o observava. Nada. Ninguém. Só livros empoeirados e aquele silêncio que não era silencioso.
Foi aí que Draco Malfoy entrou.
Parecia cansado, mas escondia isso do jeito Malfoy de sempre — queixo erguido, roupas impecáveis, olhar que dizia "não estou nem aí", mas na real estava sim.
Os Sonserinos atrás dele sussurravam alguma coisa, mas Draco estava desligado, como se tivesse ficado preso em outro pensamento e não conseguisse voltar.
Ele viu Harry. Os olhos se encontraram por um segundo.
E aquele segundo foi estranho.
Quase tenso demais para ser casual.
— Potter. — Draco chamou, a voz cortando o ar.
Hermione parou de escrever.
Rony ergueu a cabeça, pronto para o combate.
E Harry respirou fundo.
— Aprendeu a usar um livro? — Draco provocou, mas tinha algo errado no tom. Não era a mesma arrogância confortável que ele usava um ano atrás. Era... automática. Quase vazia.
Rony já ia retrucar, Hermione bloqueou com a mão, mas Harry não teve a mesma paciência.
— Nada vai ser como antes, Malfoy — ele disse, encarando. — Nem pra você, nem pra mim.
Por um instante, Draco pareceu levar um soco silencioso. Os olhos dele vacilaram — só por meio segundo — e o sorriso torto demorou a vir.
Um sorriso que não encaixava no resto do rosto.
Ele virou as costas e foi embora.
Mas o ar ficou esquisito, como se algo tivesse sido arrancado da conversa antes da hora.
⸻
O resto da tarde passou arrastado. O tipo de arrastado que faz Harry achar que alguém mexeu no tempo.
Quando estavam indo para o jantar, algo prendeu a atenção dele.
Um pedaço de pergaminho, dobrado, exatamente no lugar onde Draco estava sentado mais cedo.
Parecia... colocado ali de propósito.
Harry pegou rápido, como se tivesse medo que o papel gritasse.
Abriu.
"Você tem coragem, Potter.
Mas coragem não basta pra ver o que está vindo.
Você vai continuar sendo o menino perfeito ou vai finalmente enxergar o que está na sua frente?"
O estômago dele embrulhou na hora.
A letra era estranha, apressada, mas não totalmente familiar.
E o tom — Merlin — o tom carregava alguma coisa pesada, quase íntima demais pra ser uma provocação simples.
Ele olhou para Draco que, coincidentemente (ou não), estava saindo da biblioteca naquele momento.
Mas Draco não olhava para ele. Nem de relance. Parecia preso no próprio mundo.
— Isso é coisa do Malfoy? — Rony perguntou, espiando o papel.
— Não sei — Harry respondeu, sem desviar os olhos de Draco. — É... diferente.
Hermione pegou o pergaminho.
Virou.
Examinou.
— Harry, isso está completamente em branco — ela disse, com a sobrancelha franzida.
Harry quase derrubou o papel.
— Em branco? Como assim?
Os dois encaravam um pedaço de pergaminho completamente vazio.
Mas Harry ainda conseguia ver as palavras queimando nele.
— Deve ser minha cabeça — ele disse, guardando o bilhete como se estivesse escondendo um segredo que nem ele mesmo entendia. — Sei lá. Tô com fome.
⸻
O Grande Salão estava vivo demais.
Ou morto demais.
Harry não conseguia decidir.
As quatro mesas pareciam quatro realidades diferentes:
Lufa-Lufa gargalhando como se a guerra tivesse sido só um boato.
Corvinal falando baixo, trocando teorias, como se ninguém ali tivesse chorado semanas antes.
Grifinória num caos familiar, barulhenta, quente, meio falsa demais pra conforto.
E Sonserina... ah, a Sonserina. Sempre impecável, sempre rígida, sempre guardando segredos.
Mas Draco destacava.
Ele estava sentado entre vários outros, mas parecia sozinho. Completamente sozinho.
Os ombros estavam tensos, o olhar perdido em algum ponto do nada.
E ninguém falava com ele de verdade.
Era como se o espaço ao redor de Draco fosse uma parede invisível.
Harry viu isso de longe.
E sentiu algo incômodo no peito.
Sentou na mesa dos Grifinórios, mas era como se estivesse em outro lugar.
Pegou comida, mas não sentiu gosto.
O bilhete parecia pulsar dentro do bolso.
Hermione falava sobre quadribol.
Rony ria alto, tentando manter tudo leve.
E Harry não conseguia ouvir nada.
Ele olhou para a Sonserina de novo.
Draco não comia. Não conversava.
Só respirava — e mesmo isso parecia um esforço.
Alguma coisa nele estava quebrada.
Ou trincada.
Ou prestes a quebrar.
E por algum motivo idiota, Harry sentiu um aperto no peito.
Não era pena.
Não era raiva.
Era... reconhecível.
O mesmo vazio que rondava ele todo dia desde o fim da guerra.
A paz tinha chegado, dizem.
Mas quando Harry olhava ao redor, tudo o que via eram feridas abertas segurando a respiração para não sangrar no meio da mesa.
Ele respirou fundo, mas o ar não entrou direito.
E, em algum canto da mesa da Sonserina, Draco finalmente ergueu os olhos.
E olhou diretamente para ele.
Um olhar rápido.
Intenso.
Cheio de algo que Harry não soube nomear.
Então Draco desviou como se tivesse tocado fogo.
Harry sentiu um arrepio.
Aquilo ali, fosse o que fosse, não tinha acabado.
Na verdade, parecia só estar começando.
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Entre Linhas e Sombras.
FanfictionEntre linhas e sombras, Harry Potter se vê atraído por cartas que surgem em seu caminho, escritas por uma mão desconhecida. Palavras sutis, desafiadoras e, intensamente provocativas. O remetente promete mistérios, e Harry, consumido pela curiosidade...
