1: Estou cansado

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Eu poderia começar com o clássico "era uma vez", mas, sinceramente, não acho que mereça toda a magia de contos de fadas que vem junto dessas três palavras. Chega, vamos lá então! Meu nome é Ragner, só mais um orc que vive junto a todos os outros orcs nas Terras de Vinandi. A minha vila se chama Kusokola, é um povoado somente de orcs localizado ao extremo Norte de Virandi.

Até pouco tempo atrás, orcs como eu e meus irmãos éramos proibidos de andar livremente pelas Terras ao nosso redor, o Norte era o único lugar designado para seres como a gente. Mas, um dia como qualquer outro, enquanto eu caçava a janta junto aos outros integrantes do meu clã, da minha família, a minha vila recebeu uma carta.

– Ahn? Um corvo correio? Nem lembro a última vez que vi um – Indagou o chefe do clã responsável pela vila Kusokola, e ele estava certo, corvos correios não eram um método de comunicação muito utilizado entre os orcs – Da onde você veio, amiguinho? – Então, o chefe notou o brasão da Cidade Central de Kupambana preso junto a uma carta – Uma carta enviada pela Cidade Central? O que será que vão tirar de nós agora...?

A maioria dos orcs não sabia ler e nem escrever, já que não recebiam educação básica de leitura e escrita, suas preocupações educacionais eram voltadas para as necessidades da comunidade como caça, cultivo, pesca e coleta de materiais, senão morreriam de fome e frio, pois as Terras do Norte sempre foram conhecidas pelo seu inverno rigoroso e constante. Logo, o líder do clã buscou a única orc capaz de interpretar os ditos da carta, Twelly, a parteira do clã, ou, dizendo de outra forma, minha vó.

Twelly era uma orc estudiosa, seus pais, os quais viveram em uma época antiga de paz entre os orcs e todas as outras raças, valorizavam o desenvolvimento intelectual como ferramenta de maior valor de um ser. Frequentou boas escolas da Cidade Central, teve acesso a diversos livros, contos e poemas, até em uma biblioteca pública ela já entrou, acredita nisso? Enfim, quando o decreto do rei forçou os orcs a se mudarem pro Norte, ela precisou deixar tudo para trás, amigos, escola, livros, vindo acompanhada no colo ainda por seus pais e tios. Quando seus pais, tios e primos que viveram a época na Cidade Central foram morrendo devido ao frio, a fome e doenças, ela foi a única que restou com educação básica em leitura e escrita. Nos tempos livres, quando não estava realizando partos ou cuidando de algum enfermo da vila, ela tirava o tempo para ler para as crianças orcs e fazer algumas anotações em papéis que ela nunca deixou ninguém tocar, nem mesmo meu falecido avô. Embora possuísse conhecimento, não era capaz de compartilhar com as crianças que nasciam, pois assim que começavam a andar, seu treinamento de sobrevivência ao Norte era iniciado.

O líder foi rapidamente aos aposentos de Twelly, onde como sempre se encontrava escrevendo em sua mesa feita de um tronco de pinheiro comum do Norte, já a tinta para escrita ela conseguia das beterrabas que a tribo cultivava, um dos poucos legumes que cresciam naquele local, e sua caneta, feita de penas de pássaro trazidos pela caça. Ele a entregou a carta:

– Anciã Twelly! – disse o líder.

– Não vê que estou ocupada? Espero que seja importante.

– É sim, Anciã. Olhe – ele a entregou o pedaço de papel com o carimbo da Cidade Central.

– Minha nossa... Faz décadas que não vejo esse carimbo – exclamou Twelly – De onde tirou isso?

– Um corvo correio me entregou, o deixei na minha cabana, quer que eu vá buscar?

– Não precisa... Você sabe quem enviou?

– Bem, ainda não, trouxe assim que recebi, esperava que pudesse ler e contar a nossa comunidade o que eles querem de nós dessa vez – disse o líder, cabisbaixo.

– Claro, convoque todos, eu farei uma leitura durante a nossa ceia.

Quando o líder saiu, a Anciã virou-se para sua mesa e ficou encarando fixamente a carta. Seu corpo tremia, mas não sabia identificar se era medo ou esperança, tristeza ou uma possível alegria. Aquilo não era um sentimento qualquer, era expectativa, mas não qualquer uma, ela tinha expectativa de algum dia voltar à Cidade Central, reencontrar amigos que abandonou e ver se ainda se lembravam de seus momentos, expectativa de uma vida que já foi dela, a muito muito tempo atrás. Twelly pegou a carta e guardou dentro de um dos bolsos de sua veste de couro e aguardou a chegada de todos os moradores da vila para a ceia, tentando ao máximo conter sua ansiedade sobre o conteúdo daquela carta.

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⏰ Last updated: Jan 27, 2025 ⏰

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