01

576 19 5
                                        

"Povs Juliana"

Respirei fundo antes de entrar na academia. Era meu primeiro treino no Corinthians, e meu coração batia acelerado. Não sei se era pelo nervosismo ou pela animação de finalmente vestir a camisa de um dos maiores times do país. Assim que abri a porta e coloquei os pés no ambiente, senti todos os olhares voltados para mim. Era como se uma aura de expectativa pairasse no ar.

"Você é Juliana, não é?" ouvi alguém dizer, mas meus olhos já estavam fixos em outra pessoa.

Ela estava ali, no canto da sala, fazendo supinos com uma expressão de quem dominava o lugar. Seu cabelo estava preso em um coque bagunçado, e mesmo sem nenhum esforço para parecer impressionante, ela exalava confiança. Era a famosa Duda. E, por algum motivo, ela parecia determinada a fingir que eu não existia.

"Juliana?" a voz do técnico Lucas me trouxe de volta à realidade.

"Sim, sou eu!" respondi rapidamente, tentando não parecer tão desnorteada.

"Seja bem-vinda ao Timão! Estamos felizes em ter você no time. Antes de começar, precisamos que você pegue seu uniforme e se prepare para o treino. Duda!" Ele virou-se para ela, que continuava no supino como se não tivesse ouvido nada.

"Duda!" repetiu Lucas, mais alto desta vez.

Ela finalmente largou o peso, se levantou devagar e olhou para nós com um olhar desinteressado.

"Leve Juliana até a sala de materiais para pegar o uniforme, por favor," disse ele.

"Claro," respondeu ela, com um tom que parecia mais obrigado do que genuíno.

Caminhamos em silêncio pelos corredores do CT. Duda seguia na frente, com passos largos, sem sequer olhar para trás para checar se eu estava acompanhando.

"Então, há quanto tempo você está no time?" tentei puxar assunto.

"Tempo suficiente," respondeu ela, sem olhar para mim.

"Ah... Legal."

Chegamos à sala de materiais, e ela abriu a porta, indicando com um gesto que eu entrasse.

"O uniforme tá ali no armário. Escolhe um e se troca rápido. O treino já vai começar," disse ela, encostando-se na porta com os braços cruzados.

Eu não sabia se era impressão minha, mas havia algo nos olhos dela. Um brilho que dizia que, por trás daquela fachada de indiferença, ela estava me analisando. E talvez... só talvez, estivesse tão intrigada comigo quanto eu estava com ela.

"Obrigada," respondi, tentando soar casual enquanto pegava o uniforme.

Ela me observou por alguns segundos antes de soltar um suspiro e virar-se para sair.

"Se precisar de alguma coisa... pergunta pra outra pessoa," disse ela, saindo pela porta com um meio sorriso que parecia mais uma provocação do que simpatia.

Fiquei parada ali por alguns segundos, processando o que acabara de acontecer. Era óbvio que Duda estava tentando agir como se eu não tivesse nenhum impacto nela, mas, por alguma razão, isso só me deixava mais curiosa.

Vestir aquela camisa do Corinthians era um sonho realizado, mas, ao que parecia, minha chegada ao time também trazia algo que eu não esperava: um desafio que tinha nome, sobrenome e um sorriso provocador chamado Duda.

Terminei de vestir o uniforme e me olhei no espelho da sala de materiais. A camisa preta e branca com o escudo do Corinthians no peito fazia meu coração disparar de orgulho. Era um momento que eu esperava há muito tempo, mas, curiosamente, o que mais ocupava minha mente naquele instante não era o peso de jogar por um dos maiores times do Brasil. Era ela.

"Duda," murmurei, ajeitando o cabelo em um rabo de cavalo. Aquela garota tinha algo diferente. A maneira como ela fingia que eu não existia, mas mesmo assim parecia notar cada detalhe. Era intrigante.

Quando voltei para a academia, Lucas estava finalizando algumas instruções para as jogadoras. Duda estava do outro lado da sala, conversando com outra menina, mas, assim que entrei, senti o olhar dela. Foi rápido, quase imperceptível, mas estava lá.

"Juliana, chegou a hora de mostrar por que trouxemos você para cá!" disse Lucas com um sorriso animado. "Vamos começar com o aquecimento. Duda, coordene o circuito."

Ela não parecia exatamente feliz com a tarefa, mas concordou com um aceno de cabeça e começou a organizar as jogadoras.

"Vamos lá, pessoal. Dividam-se em duplas para os exercícios," disse ela, com um tom firme e seguro.

Antes que eu pudesse procurar alguém para formar dupla, Lucas interveio novamente.

"Juliana, você fica com a Duda. Assim ela pode ajudar você a se adaptar melhor."

Eu quase ri da expressão que Duda fez. Era uma mistura de descrença e resignação.

"Ótimo," disse ela, forçando um sorriso que mal escondia sua irritação.

Ficamos lado a lado para o circuito. O primeiro exercício era um simples aquecimento com passes de bola. Eu estava concentrada em fazer tudo certo, mas não podia ignorar o jeito como Duda me observava. Era como se estivesse procurando algo — um erro, uma fraqueza, qualquer coisa que provasse que eu não merecia estar ali.

"Se quiser sobreviver aqui, vai precisar fazer mais do que isso," disse ela, depois de um passe meu que, admito, foi um pouco fraco.

"Não se preocupe, eu dou conta," respondi, devolvendo a bola com força suficiente para fazê-la recuar um passo.

Ela arqueou uma sobrancelha, claramente surpresa, mas não disse nada.

Enquanto o treino avançava, percebi que Duda não era apenas exigente comigo. Ela era assim com todo mundo. Gritava instruções, corrigia posturas, e não hesitava em apontar falhas. Era óbvio que ela era uma líder, mas também que não fazia questão de ser amada por isso.

Quando o treino finalmente acabou, eu estava exausta, mas satisfeita. Lucas me chamou de lado para elogiar meu desempenho, e eu mal conseguia segurar o sorriso.

"Foi um bom começo, Juliana. Continue assim e vai se entrosar rapidamente," disse ele, dando um tapinha no meu ombro.

Enquanto eu guardava minhas coisas, senti alguém se aproximar. Virei-me e encontrei Duda parada ali, com os braços cruzados e aquela expressão de quem está decidindo se vale a pena falar ou não.

"Você não foi mal hoje," disse ela, por fim.

"Obrigada, eu acho," respondi, tentando não soar sarcástica.

"Mas não se empolgue. Aqui ninguém vai te dar nada de graça."

"Nem preciso," retruquei, encarando-a diretamente.

Por um momento, o silêncio entre nós foi quase palpável. Então, ela soltou uma risada baixa e deu de ombros.

"Vamos ver quanto tempo você dura," disse ela, antes de se virar e sair da sala.

Eu deveria ter ficado irritada, mas, estranhamente, tudo o que senti foi um impulso ainda maior de provar que ela estava errada. Se Duda achava que podia me intimidar, ela estava prestes a descobrir que eu não era do tipo que desistia fácil.

Do nosso jeito Onde histórias criam vida. Descubra agora