CAPÍTULO 1

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Ster praguejou e esmurrou o despertador quando ele começou a berrar às cinco e meia da manhã. Aquele som parecia perfurar seus tímpanos. Ela continuou deitada, com os olhos fixos no teto branco do quarto, tentando contar até dez. Era uma tática antiga, mas que agora já não resolvia porra nenhuma de seus problemas.

Seus pensamentos intrusivos de cometer um crime hediondo estavam quase vencendo a sua pouca sanidade mental. E a vítima — que, sejamos sinceros, não era tão vítima assim — tinha nome, sobrenome e um sorriso cínico gravado na memória dela:

Khalil Rivers.

Ela levantou num salto, com o peito subindo e descendo pela irritação matinal. Calçou as pantufas felpudas e começou organizar os lençóis com uma maestria exagerada, típica de quem nutria um ódio profundo por qualquer tipo de bagunça. Assim que esticou a última dobra do edredom, caminhou pisando duro até a mesa de trabalho no canto do quarto.

Pegou o celular e a tela acendeu, bombardeada por notificações: mais e-mails de trabalho misturados com as mensagens do grupo de suas amigas. Um e-mail específico fez seu sangue ferver. A secretária do seu chefe era mesmo uma sem noção para enviar porcarias de PDFs de relatórios técnicos às dez da noite, sabendo perfeitamente que o horário de expediente de Ster acabava às sete em ponto.

Era um verdadeiro abuso corporativo!

Desde que começara a trabalhar naquela empresa de tecnologia avançada, tecnicamente criando e programando pequenos robôs, sua rotina havia virado uma montanha-russa desgraçada. Ali, a criatividade não podia ficar fora de conexão por um segundo sequer; era uma ironia fodida, pois parecia que ela precisava se transformar num robô frio e mecânico para conseguir programar e passar emoções reais para os androides de verdade.

O clima na empresa beirava um estado crítico de emergência sempre que um funcionário não entregava exatamente aquilo que o chefe queria. O grande problema era que aquele homem queria muita coisa, o tempo todo, exigindo funcionalidades que Ster nem sabia que eram possíveis de serem criadas. E, porra, como se não bastasse ela enlouquecer com a carga horária abusiva e os surtos diários do todo-poderoso da empresa, ela ainda precisava dividir o mesmo ambiente que Khalil Rivers.

Quer dizer, "dividir" era uma palavra suave demais para o inferno que vivia.

De acordo com as normas rígidas da empresa e por causa daquela mentira clássica que todo mundo enfia no currículo — a de ser uma "ótima pessoa para trabalhar em equipe" —, Ster não tinha outra alternativa a não ser engolir o orgulho e trabalhar diretamente com seu rival. O cara a tirava do sério desde o primeiro milésimo de segundo em que teve o desprazer de cruzar o caminho dele.

Não fora um encontro proposital, longe disso; fora, na verdade, uma autêntica tragédia mundial.

Khalil era o verdadeiro diabo encarnado que assombrava suas manhãs e destruía seus fins de tarde. O ódio visceral que Ster sentia por ele havia começado em uma manhã fatídica, anos atrás, quando ela estava a caminho da entrevista de emprego na empresa. Tudo bem, já fazia tempo, mas quem nunca guardou um rancor saudável que atire a primeira pedra.

Naquele dia, ela caminhava pela calçada exalando confiança, pronta para agarrar a oportunidade que mudaria sua vida financeira. Afinal, passara anos sendo uma universitária fodida, comendo o pão que o diabo amassou — o diabo de verdade, deixando claro, não o Rivers — para finalmente conseguir trabalhar na carreira que escolhera e que sempre imaginara: a era tecnológica.

Mas, exatamente naquele maldito dia que tinha tudo para ser perfeito, Khalil surgiu do absoluto nada montado em uma moto, passando feito um louco por cima de uma poça de água suja acumulada pela chuva da noite anterior.

Um Favorzinho Natalino - (REVISÃO + ACRÉSCIMO DE CENAS)Historias para obsesionarse. Descúbrelo ahora