introdução:

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"Comece pelo começo, por favor"

Eu não me lembro da última vez que dormi em paz. Eu acho que foi a muito tempo.
Meus sonhos sempre foram em um lugar estranho, um corredor vazio por onde borrões de sombra passavam sem aviso, deixando atrás de si um rastro frio e pesado. Nunca entendi direito por que isso acontece comigo. Só sei que agora faz parte de quem eu sou, e, por mais que eu tente fugir, eles sempre me encontram.
Não é fácil explicar para as pessoas. Na verdade, eu nem tento mais. Como você diria para alguém que, quase todas as noites, algo do outro lado do véu entre a vida e a morte te visita, pedindo por ajuda? A reação mais comum é o silêncio constrangedor, seguido por um olhar de pena. Já vi isso o suficiente para saber que não vale a pena compartilhar.
Com o tempo, você aprende a conviver com isso.
É como carregar uma pedra no bolso: no começo, pesa e incomoda, mas depois de um certo tempo você quase esquece que ela está ali. Quase. No fundo, a pedra nunca desaparece, e a cada sonho - a cada borrão -, ela fica um pouco mais pesada.
Muitas psiquiatras e terapeutas já me perguntaram, por quê eu ajudo essas almas, e é sempre a mesma resposta, "é o único jeito que encontrei de manter um pouco de sanidade". Ignorar os sonhos só piora as coisas. Elas não pedem muito: só querem ser vistas, entendidas, libertas. Mas não é só sobre resolver mistérios ou caçar culpados de sua morte.
O mais difícil é convencer uma alma a deixar para trás o que a prende. O que as mantém aqui não é a morte, mas a dor. E dor, como aprendi, não desaparece fácil.
Então, minha vida se divide entre duas realidades: a que as pessoas veem, e a que existe quando estou sozinha, no escuro, à espera da próxima sombra. Às vezes, penso que nasci para isso. Às vezes, acho que estou apenas tentando me redimir de algo que nem sei ao certo o que é.
As vezes quando estou sentada no sofá ou em qualquer lugar eu fico pensando como seria minha vida se eu não tivesse essas "visões". Porquê é difícil manter uma vida funcional enquanto lido com o sobrenatural, fico me perguntando até onde eu estou disposta a ir para ajudar essas aparições, e o quanto a minha rotina de viagens me impede de criar laços com outras pessoas. Eu sou uma fotógrafa, e não, não tenho fotos de músicos e artistas famosos, mas sim de paisagens e fotos tiradas no momento certo, até que é bom viajar pelo mundo a fora, esse meu trabalho abafa um pouco meus problemas não resolvidos, mas lá no fundo sei que um dia essa pilha de problemas vai cair encima de mim.
Não sei o número exato de aparições que eu ajudei, mas não passam de dez. Não me julgue, porquê não é fácil como parece, só ir lá e convencer eles a irem descansar, muitos dessas aparições não são da minha região, e eles são uns hipócritas, pois eles se escondem de mim se disfarçando de pessoas normais por não confiar em mim (para eles é muito difícil manter suas feições humanas, então as aparências deles são bem fáceis de saber que não são pessoas normais), e achar que eu quero fazer algum mal a eles, só por causa dessas atitudes, da uma vontade de mata-los novamente, bem eu não os machucos por vários motivos, mas o mais destacado é que alguns deles não são nenhum fantasminha camarada. Eu costumo ajudar aqueles que estão mais perto de mim, mas não é fácil, as vezes eu me sinto um monstro por escolher quem eu salvo, como se eles não tivessem opiniões, como se eles só fossem mais uma parte da minha rotina, como um carro um carro na vitrine... Mas dessa vez eu não pude escolher a proxima alma.

O CHAMADO DOS PERDIDOS Where stories live. Discover now