Cap 1 - tia Helena?

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Oi, eu sou a Marina. Você pode me imaginar como uma garota de 19 anos, pele clara, cabelos negros e mais ou menos 1,60m. Eu sou... normal. Ou pelo menos eu achava que era, até o dia em que a palavra "normal" saiu voando pela janela da minha vida.

Tudo começou com um almoço. Ou melhor, com uma conversa sobre um almoço. Um daqueles almoços de família que a gente nem quer ir, sabe? Só que esse não era um almoço qualquer. Era na casa dela. Da minha tia. Uma tia que, até aquele momento, eu nem sabia que existia.

O nome dela é Helena. E ela é, bom... a mulher mais poderosa que eu já ouvi falar. Juíza. Rica. Com uma vida que parece saída de um filme de Hollywood. E eu? Eu não sabia que ela existia até meus pais soltarem isso como se fosse normal.

"Marina, a gente vai à casa da tia Helena no sábado. Ela quer nos ver."

Helena? Quem é Helena? E por que, de repente, minha vida está virando de cabeça pra baixo?

Bom, já falei da confusão que minha vida vai virar, mas talvez seja bom você saber o básico. Eu tenho 19 anos, terminei o ensino médio e agora estou no segundo ano da faculdade de direito. Isso mesmo, estou tentando entender um pouco da lei, das regras e de como tudo funciona nesse mundo. Sei que parece coisa de gente certinha, mas, honestamente, meu foco não está em ser uma advogada de sucesso. A ideia é poder ajudar pessoas, lutar por justiça de algum jeito. Talvez eu tenha essa coisa de querer entender as coisas mais a fundo.

Sobre mim? Sou uma garota comum. Ou ao menos tento ser. Tinha o cabelo escuro desde sempre e a pele bem clarinha, uma cor que combina com o meu estilo mais reservado e meio rebelde, confesso. Eu sou lésbica, e, embora eu tenha ficado tranquila com isso, nem todo mundo ao meu redor estava. Aqui em Brasília, as coisas são mais abertas, mas a sociedade ainda gosta de fazer as pessoas se esconderem. Eu, no entanto, aprendi a não me preocupar tanto com isso.

Eu não sou uma pessoa que faz amizades com facilidade, mas tenho dois amigos que são tudo pra mim. A Clara é minha melhor amiga, sempre teve uma paciência enorme comigo e é daquelas que te defende até o fim. Ela é o tipo de pessoa que você pode confiar com qualquer coisa, e o melhor é que a gente pode falar de qualquer assunto sem medo de julgamento. Já o Gabriel, meu melhor amigo, é mais quieto que a Clara, mas também é superprotetor. Ele tem aquela vibe mais introspectiva, mas, quando se importa, não tem limites. Eles são os dois pilares da minha vida. Se eu tenho alguém pra desabafar, são eles.

Enfim, daqui em diante você vai ver como minha vida virou de cabeça para baixo.

Acordei com o som do meu celular tocando em algum lugar, não sabia onde. A luz do dia já entrava pela janela, e eu ainda estava deitada, totalmente atrasada para o que seria o meu dia de faculdade. Tentei me mexer, mas o cansaço me manteve ali, de olhos semiabertos. Olhei para o relógio. Oito e meia! Caramba, eu devia ter acordado às sete!

Levantei correndo, me vestindo quase no automático, e saí do quarto. Antes que eu pudesse gritar para minha mãe que estava atrasada, o Gabriel apareceu na porta.

— Marina, vamos, já estão esperando! — Ele estava com a Clara, os dois na porta, já prontos para a faculdade.

Eu respirei fundo, aliviada. O Gabriel sempre me salva. Ele não só me acorda quando eu falho, como ainda oferece uma carona. A Clara, sempre calma e tranquila, me olhou com um sorriso de leve.

— Eu sabia que você ia se atrasar, Marina. — Ela riu.

Como sempre, o Gabriel dirigia e a Clara estava no banco do passageiro, com seu olhar atento e a cabeça cheia de pensamentos profundos, já meio cansada com os estudos.

O caminho até a faculdade foi rápido. Entre conversas bobas e risadas, conseguimos chegar a tempo da primeira aula. O dia passou num piscar de olhos, entre provas, trabalhos e algumas conversas nos intervalos. Não estava sendo o melhor dia, mas estava sendo normal — até a hora de voltar para casa.

Cheguei em casa exausta, mas com a cabeça cheia de coisas para fazer. Tomei um banho relaxante, deixando a água morna aliviar um pouco o peso das minhas preocupações e o stress da faculdade. Quando saí do banheiro, me vesti e fui até a cozinha.

Sentei para comer, peguei meu celular e comecei a mexer nas redes sociais, tentando distrair a mente. A comida estava quase pronto, e eu já podia sentir o cheiro do arroz e feijão vindo da cozinha.

Foi quando minha mãe, com aquele jeito dela de sempre, interrompeu meus pensamentos.

— Marina, você sabia que a tia Helena quer nos ver? Ela chamou a gente para um almoço na casa dela no sábado. — Ela falou sem olhar diretamente para mim, como quem só soltava uma informação qualquer.

Eu parei, deixando o celular de lado, e a palavra "Helena" ecoou na minha mente.

Tia Helena? Como assim, tia Helena?

Meu pai entrou na cozinha, rindo em voz alta.

— Ah, eu já não vejo a hora de encontrar o Pedro! — Ele deu uma risada descontraída, como se estivesse realmente empolgado com a ideia.

Minha mãe, Neuza, deu um sorriso sem muito entusiasmo, enquanto começava a organizar as coisas para o almoço.

— Também, né? Faz tanto tempo que a gente não vê o Pedro... Eu só espero que ele não traga o trabalho todo pra conversa, como sempre.

Eles riram juntos, mas eu continuei ali, processando a informação. Tia Helena... Quem era essa mulher mesmo?

Minha mãe percebeu meu silêncio e me olhou, como se soubesse que eu tinha perguntas.

— Marina, a tia Helena é uma irmã do seu pai. Ela é juíza e trabalha muito. Por isso, ela vive viajando e mal conseguimos vê-la. — Ela falou calmamente, como se fosse uma explicação simples.

Eu fiquei pensando, confusa. Como uma tia minha podia ser tão distante assim?

— Quando você tinha uns 1 ano, a gente foi à casa dela... Ela ficou completamente encantada por você. — A mãe continuou, com um sorriso nostálgico, mas eu não conseguia lembrar de nada disso.

Eu olhei para o prato à minha frente, comendo sem realmente sentir gosto. Aquelas palavras martelavam na minha cabeça, e quanto mais eu pensava, mais me perguntava por que não lembrava de nada disso. Por que ninguém falava tanto sobre ela?

Quando terminei de comer, subi para o meu quarto, mais inquieta do que nunca. Me deitei na cama e fiquei olhando para o teto, deixando meus pensamentos vagarem. A tia Helena... Eu deveria saber quem ela era, ou pelo menos lembrar de algo. Mas nada vinha à minha mente. Era como se ela fosse uma figura distante demais para ser real, e, ainda assim, tudo estava acontecendo. Por que ninguém mencionava ela com mais frequência? O que estava acontecendo aqui?

Depois de tanto pensar, meu corpo acabou cedendo ao cansaço e eu peguei no sono. Acordei no meio da noite, um pouco desorientada, e olhei para o relógio. Já eram 9 horas da noite! Eu quase pulei da cama, tentando entender como o tempo tinha passado tão rápido.

Fui até a cozinha, quase sonolenta, na esperança de encontrar algo que me acordasse. Peguei um copo com água e, ao me virar para voltar, vi minha mãe, Neuza, de pé, mexendo no celular. Ela parecia tão concentrada, digitando e lendo mensagens.

Eu a observei por alguns segundos antes de perguntar, ainda meio sonolenta:

— Mãe, o que você está fazendo?

Ela olhou para mim e, como sempre, sorriu de um jeito tranquilo.

— Ah, estou conversando no grupo da família... A gente está decidindo quem vai para a casa da tia Helena no sábado. — Ela respondeu, sem dar muita importância para o assunto, como se fosse algo rotineiro.

Olhei para o celular dela, mas o que mais me chamou atenção foi a quantidade de tias que estavam confirmando presença.

— Muitas das suas tias vão, então... parece que vai ser um grande encontro — minha mãe continuou, ainda com aquele tom de conversa descontraída.

Eu fiquei em silêncio por um momento. O coração bateu mais forte e uma sensação estranha tomou conta de mim. Helena... Ela morava na mesma cidade que eu, mas para mim, parecia uma estranha. Era como se ela fosse uma figura distante, alguém que eu não conhecia de verdade, mas que estava ali, bem perto.

A ansiedade começou a crescer. Como seria esse encontro? Eu mal sabia o que esperar. E, ao mesmo tempo, o desejo de entender mais sobre essa mulher que, por algum motivo, tinha ficado tão ausente na minha vida, só aumentava.

Além do laço de sangue Stories to obsess over. Discover now