O dia começou envolto em um mistério sutil. Acordei sentindo o vazio ao meu lado na cama. O lugar onde Hector deveria estar estava frio, o lençol suavemente amassado como se ele tivesse saído às pressas. Hector nunca saia sem se despedir de mim, sempre fazia questão de me dar um beijo leve antes de iniciar o dia. Uma sensação estranha de inquietação tomou conta de mim.
Levantei-me devagar, ainda absorvendo o silêncio incomum da casa. O relógio ao lado da cama marcava 6h30, um horário que costumávamos compartilhar. Caminhei até o banheiro e me deixei envolver pela água quente da banheira. O calor me confortava, quase como um abraço, mas a mente continuava a vagar. Enquanto afundava na água, desejei que o tempo parasse, permitindo-me ficar ali, imersa naquele momento de solitude, longe das preocupações do mundo.
Porém, o silêncio foi interrompido por um som suave: a porta do quarto se abrindo. O coração saltou por um instante, esperançoso de que Hector tivesse retornado. Mas não era ele. Ao erguer os olhos, vi a figura delicada de Sônia, a governanta, de cabelos grisalhos presos em um coque impecável. Seu semblante sempre trazia uma calma acolhedora, algo maternal que me fazia sentir segura. Ela permaneceu à porta do banheiro, hesitante, antes de falar com sua voz tranquila e quase melodiosa.
— Bom dia, Senhora Valtelhas — disse ela, sua voz se espalhando pelo ambiente como um murmúrio gentil. — O café está pronto na mesa. Tenho um recado do senhor: ele mencionou que está resolvendo alguns problemas na empresa, por isso saiu bem cedo e não quis acordá-la.
Houve um breve silêncio enquanto eu processava suas palavras. Era raro que Hector saísse sem se despedir. Uma sombra de preocupação passou por mim, mas forcei um sorriso.
— Bom dia, Sônia. Obrigada por me avisar — respondi, tentando parecer despreocupada. — Descerei logo para tomar o café, e quero sua companhia como de costume.
— Sim, senhora — Sônia respondeu com um leve aceno, seu sorriso de canto revelando a familiaridade de nosso ritual matinal. Ela saiu do quarto com passos tão leves que parecia flutuar sobre o assoalho de madeira polida.
Fiquei mais alguns minutos na banheira, perdida em pensamentos, mas logo a inquietação me fez levantar. Sequei o corpo com a toalha felpuda, e, ao olhar para o espelho, vi meu cabelo ainda úmido, caindo em ondas desordenadas. Decidi, como de costume, deixá-lo secar naturalmente. Peguei um creme de fragrância suave, uma essência que Hector adorava, e apliquei com cuidado, penteando os fios lentamente.
Caminhei até o closet e percorri as fileiras de roupas penduradas, optando por um vestido amarelo leve, adornado com pequenas flores delicadas que pareciam dançar com o movimento do tecido. Escolhi um perfume importado, presente de Hector, e após um toque suave de batom nude, senti-me pronta para encarar o dia. No entanto, ao descer as escadas, percebi que ainda estava usando as pantufas de pelúcia. Voltei correndo para o quarto, troquei-as por uma sandália branca de salto baixo e confortável, rindo de mim mesma pela distração.
Quando finalmente desci, Sônia já me aguardava no pé da escada, um sorriso de canto em seu rosto, quase maternal.
— Vamos, Senhora — disse ela com um gesto suave, conduzindo-me para a sala principal, onde o café da manhã era servido todos os dias.
Ao entrar na sala, fui recebida pela visão de várias mulheres mais velhas, todas uniformizadas, em pé ao redor das mesas, como era de costume. Elas se curvaram ligeiramente, em uma sincronia quase ensaiada.
— Bom dia, senhora Valtelhas! — disseram em uníssono, suas vozes ecoando pelo salão.
Ainda não estava totalmente acostumada com a formalidade da casa. Era estranho para mim, ser tratada com tanta deferência, mas compreendia que fazia parte da rotina. Sentei-me à mesa e, como de costume, esperei que Sônia se juntasse a mim. Poucos minutos depois, Joana, o braço direito de Sônia e uma cozinheira excepcional, aproximou-se para me servir. Era uma regra da casa que somente ela ou Sônia me servissem, uma tradição que, embora antiga, eu respeitava.
O aroma do café fresco e das frutas recém-cortadas começou a preencher o ar, trazendo um pouco de conforto ao meu coração ansioso. Mas a ausência de Hector pairava sobre mim, como uma nuvem que insistia em não se dissipar.
Com o café da manhã servido e Sônia ao meu lado, tentei me concentrar na refeição. Mas a cada gole de suco ou mordida no pão, minha mente vagava para Hector. Ele estava distante nos últimos dias, mais pensativo, como se algo o estivesse consumindo. Era difícil não imaginar o pior, mas forcei-me a afastar esses pensamentos. Afinal, ele era um homem de negócios, e às vezes a empresa demandava mais dele do que qualquer um poderia compreender.
— Tudo está ao seu gosto, senhora? — perguntou Sônia, sua voz me trazendo de volta à realidade.
Olhei ao redor, percebendo o cuidado com que cada detalhe da mesa havia sido preparado. O pão estava fresco, as frutas, cortadas em pedaços perfeitos, e o café, quente e aromático. Tudo estava impecável, como sempre. Sorri para Sônia, agradecida.
— Está tudo perfeito, Sônia. Como sempre. — Minha voz era calma, mas eu sentia o peso da preocupação em cada palavra.
Ela me observou por um momento, com aquele olhar que só quem viveu muito tempo ao lado de outra pessoa poderia ter. Parecia saber o que eu sentia, mas, como sempre, foi discreta, limitando-se a um leve aceno de cabeça.
O silêncio confortável que se seguiu foi interrompido pela chegada de uma das empregadas, uma jovem que ainda não conhecia muito bem. Ela carregava uma bandeja com mais café e algumas cartas. Com um gesto delicado, deixou tudo na mesa e saiu sem dizer uma palavra. Observei as cartas, todas cuidadosamente alinhadas, e notei que uma delas estava endereçada a mim. Era incomum receber cartas, e mais ainda que fossem entregues diretamente à mesa de café. Senti uma pontada de curiosidade e peguei o envelope.
— Parece que a senhora recebeu uma correspondência especial hoje — comentou Sônia, observando-me com um olhar atento, mas amigável.
— Sim, parece que sim — murmurei enquanto abria o envelope com cuidado. O papel era grosso, quase como se tivesse sido feito à mão, e a caligrafia, familiar. Era de Hector.
Li as palavras com atenção, sentindo o coração acelerar a cada linha. Ele não mencionava nada específico sobre onde estava ou o que fazia, mas a maneira como escrevia sugeria uma certa urgência. As palavras, embora carinhosas, carregavam um tom de despedida, como se estivesse se preparando para algo que preferia me poupar.
"Ofélia,
Saiba que te amo mais do que tudo, e tudo que faço é para nosso bem. Sinto muito por sair sem me despedir, mas precisava resolver algo importante. Por favor, não se preocupe. Confie em mim.
Com amor, Hector."
As mãos começaram a tremer enquanto segurava a carta. O que poderia ser tão importante a ponto de Hector sair de casa sem falar comigo? O peso de suas palavras parecia aumentar a cada segundo, e, de repente, a ausência dele não era apenas uma simples questão de negócios.
— Senhora, está tudo bem? — A voz de Sônia trouxe-me de volta ao momento. Seus olhos, sempre serenos, agora estavam cheios de preocupação.
Respirei fundo, tentando controlar as emoções. Não queria alarmar ninguém, especialmente Sônia, que sempre cuidou de mim com tanto zelo. Dobrei a carta cuidadosamente e a coloquei de volta no envelope.
— Está tudo bem, Sônia. Apenas uma mensagem rápida de Hector — menti, oferecendo um sorriso que não alcançou meus olhos.
Sônia hesitou, mas não insistiu. Com um aceno suave, ela se levantou, retirando-se da mesa com a mesma graça silenciosa com que sempre se movia. Fiquei ali, sozinha, a carta de Hector ainda fresca em minha mente.
O que ele estava escondendo? E por que eu sentia que algo muito maior estava por vir?
Determinada a descobrir a verdade, terminei o café rapidamente e me dirigi ao escritório de Hector. O cômodo, geralmente repleto de documentos e papéis, agora parecia mais desorganizado do que o normal. Vasculhei as gavetas, olhei nas prateleiras, mas não encontrei nada que pudesse me dar uma pista concreta sobre o que estava acontecendo. Mas então, no fundo de uma das gavetas, encontrei um bilhete pequeno, amassado, como se tivesse sido descartado rapidamente. Abri com cuidado e li:
"Tudo estará pronto ao entardecer. Cuidado com quem você confia. — M."
O bilhete era ainda mais enigmático do que a carta, e as palavras ecoavam em minha mente como um aviso sombrio. Hector estava envolvido em algo perigoso, e eu precisava entender o que era antes que fosse tarde demais.
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Casada com um Mafioso
RomanceNas charmosas e históricas ruas de Lisboa, Hector Valtelhas é um nome que inspira medo. Conhecido como um dos mafiosos mais perigosos de Portugal, sua vida nas sombras é solitária até o dia em que conhece Ofélia Costa, uma talentosa professora de ba...
