capítulo 1 Encontrando Meu Sol

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Sentei-me à mesa onde meus amigos me esperavam, os pedidos já espalhados na frente deles
— hambúrgueres, batatas fritas e refrigerantes suando nos copos. O barulho da lanchonete enchia o ar, mas eu mal ouvia. Conversamos sobre os testes na escola, aqueles dias difíceis que pareciam sugar o pouco de vida que me restava. Filho único desde que minha mãe se foi, a solidão era uma sombra que me seguia. Os dias passavam devagar, arrastados, e eu só tinha eles: Tayle, J’p e seu irmão JJ, além do pequeno Arthe, o mais quieto do grupo. Quatro pessoas que tentavam me segurar quando eu sentia que ia afundar. 
O aniversário de morte dela estava chegando — mais um ano desde que o mundo desabou. Meus amigos se juntavam pra me distrair, e às vezes funcionava. Por algumas horas, eu ria, jogava conversa fora, fingia que estava tudo bem. Mas, quando voltava pra casa, as lembranças me engoliam. O som da risada dela, o cheiro de lavanda que ficava nas roupas dela, os momentos que eu repetia na cabeça sem parar. E a culpa — essa faca cravada no peito, me dizendo que, se não fosse por mim, ela ainda estaria aqui. Sentia as lágrimas escorrerem pelo rosto, quentes e silenciosas, enquanto eu me afundava na cadeira giratória do escritório do meu pai, esperando ele chegar. 
Ele sempre foi atencioso, tentando de tudo pra preencher o vazio que só crescia dentro de mim. Mas eu, com meus quatorze anos, quase esqueci como era sorrir de verdade. Falava pouco. Se não estava com os amigos, me trancava no quarto com os livros, estudando até os olhos arderem, como se as notas pudessem apagar o que eu sentia. 
Tayle deu um gole barulhento no refrigerante e me cutucou com o cotovelo.

“Ei, Ravi, sobreviveu àquela prova de matemática ou tá planejando fugir da escola?” 

Olhei pra ele, forçando um meio sorriso.

“Sobrevivi. Mas não sei se o professor vai sobreviver à minha letra.” 
JJ riu, jogando uma batata frita na boca.

“Se ele reprovar você, a gente invade a sala dele. Plano infalível.” 

“Plano infalível é você parar de roubar minhas batatas,” J’p retrucou, puxando o prato pra perto. 

Arthe, quieto como sempre, só me observou por cima dos óculos, um olhar que dizia mais do que ele falava.

“Você tá bem?” perguntou, baixo, quase se perdendo no barulho dos outros. 

“Tô,” menti, mexendo no canudo do meu copo. “Só cansado.” 
Tayle inclinou a cabeça, me estudando como se pudesse ver através de mim.

“Tá, mas amanhã a gente vai no fliperama, hein? Nada de se trancar no quarto de novo. Promete?” 

“Prometo,” falei, mas minha voz saiu fraca, sem convicção. 
JJ se inclinou na mesa, apontando pra mim com uma batata.

“E se você não aparecer, eu e J’p te arrastamos. O aniversário dela tá chegando, a gente sabe, mas você não vai ficar sozinho nessa.” 

Fiquei quieto, o peso das palavras dele me acertando fundo. Eles sabiam. Sempre sabiam. Mas não dava pra explicar que, mesmo com eles por perto, o buraco dentro de mim não fechava. 

“Valeu,” murmurei, baixando os olhos pro copo. “Vocês são os melhores.” 
“Claro que somos,” Tayle disse, dando um tapa leve no meu ombro. “Agora come logo, antes que o JJ acabe com tudo.” 

Eu ri — um som curto, quase vazio —, mas o calor deles me segurou por um instante. Em casa, porém, era diferente. Quando a porta se fechava atrás de mim, eu caía de novo. Sentava na cadeira do escritório do meu pai, girando devagar, o silêncio da casa me sufocando. Ele chegava mais tarde, o rosto cansado, mas os olhos sempre tentando me encontrar. 

“Oi, filho,” ele disse naquela noite, largando a bolsa na poltrona. “Como foi hoje?”

“Normal,” respondi, girando a cadeira pra encarar ele. “E o teu dia?”

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⏰ Last updated: Mar 09, 2025 ⏰

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