Parte um: O garoto.
O que é o ensino médio? Uma fase? Uma escola? Um lugar? Uma memória? Para mim, foi desejo.
___________________________________________
"Por toda minha juventude te busquei, sem saber o que buscava". O que W.S. Merwin estava pensando quando escreveu isso?
Como sempre, o primeiro dia é rotineiramente morno, monótono, comum, e sem graça. Jamais fora novidade voltar das férias. A luz solar penetrava o vidro das janelas e iluminava a sala. Eu repetia o bater rítmico do lápis no caderno pensando longe, enquanto nosso professor folheava O Capital de Karl Marx. A aula era sobre ele e seu livro, ou deveria ser, pois não houve explicação ou sequer algum contexto sobre o assunto. Ele entrou, e mandou a gente ler a primeira página do livro de história que falava do tal Marx e sua obra. Nem se deu ao trabalho de revisar antes. O que eu esperava? Já tive aulas com ele ano passado, a única coisa que aprendi foi a nunca contar com sua ajuda.
Pensei nas férias. Foram boas. Viajei em família, acampei, decorei novos poemas e músicas, li mais livros do que o ano passado. Nada fora do comum. Fazia todo fim de ano, então não me surpreendeu a sensação de ver como o tempo passou rápido. Sempre passa. Parece que foi ontem que vi E.T. pela primeira vez no cinema e me apaixonei pelo filme. Lembro-me de perguntar aos meus pais se poderíamos ver o filme de novo. Fomos mais três vezes.
Agora tenho quase dezoito e ainda não sei o que fazer da vida. Para ser franco, não quero trabalhar. Quero sair dessa cidade e viver de assistir filmes e ouvir música com minha irmã Atena. É isso o que eu quero. Nada de trabalho, escola, aulas chatas, responsabilidades, obrigações, pais exigentes, e açaí. Eu odeio açaí. Irônico, afinal, aqui é o Pará, mas não me considero paraense. Não gosto da maioria das coisas daqui.
Interrompendo meus devaneios, senti uma bola de papel atingir minhas costas. Me virei. Vi minha irmã recolher a mão. "Vamos pedir para sair!" Disse ela em libras. "Você ou eu primeiro?" Perguntei na mesma linguagem.
A porta da sala abriu e um garoto usando jaqueta college vermelha em detalhes brancos entrou na sala, confuso e atrasado.
— Licença, aqui é o convênio? - perguntou.
— É sim, sente-se - ordenou o professor.
O garoto atravessou a sala, desviando das cadeiras bagunçadas. Puxou conversa com a turma do fundão, comprimentando com toques elaborados e complexos.
— E aí, André? Chegou cedo - comentou Lucas Costa.
— Se você não me dissesse, eu nunca ia saber - devolveu com um sorriso.
Meu convívio com aqueles caras não é muito agradável, a maioria só sabe falar de sexo, o próprio orgão genital e comparar meninas à objetos. Com exceção de Lucas Costa, o namorado de Lana Castello, minha melhor amiga. O julguei por fazer parte daquela turma também. Quando nos vimos, trocamos duas palavras: "oi" e "oi". Papo super interessante. Desde então, sua relação com Lana vem me surpreendendo, não brigam como todos os casais dessa idade, não toleram chacotas ou especulações alheias sobre o próprio relacionamento, e o mais surpreendente, se respeitam.
Ainda não tenho tanta fé nele. Por enquanto, minha nova vítima de julgamento foi André Valente, o aluno novato que chegou atrasado para o primeiro dia de aula, e mais atual integrante do grupo que menos me afeiçoei na escola. Minha primeira convicção à seu respeito foi um generoso: "Legal, mais um arrogante."
YOU ARE READING
Tão Ensino Médio
RomanceDaniel Dionísio tem uma vida dita "perfeita", mas que vive se queixando dela. Quando ele conhece André Valente, no qual, Dani o julga como mimado de primeira, a vida dos dois vira de ponta cabeça, no bom e mal sentido. Dani tem uma irmã, Atena, na q...
