A taça de vinho parecia pesada nas minhas mãos. Eu a girava devagar, observando o reflexo das luzes da cidade dançando no líquido vermelho. Do lado de fora, tudo parecia tão distante, quase irreal. Eu estava ali, cercada de luxo e confortos que tantas pessoas sonhariam em ter. Mas, dentro de mim, tudo parecia vazio. Presa no alto de um apartamento de luxo, cercada por paredes que minha mãe chamava de "recompensas", mas que, para mim, eram apenas lembranças amargas de uma vida que não havia escolhido para mim mesma. Meu celular vibrou na bancada da cozinha, tirando-me dos pensamentos. Eu nem precisei olhar para saber de quem era. Minha mãe. A mensagem era breve, curta e direta, como sempre: "Próximo alvo confirmado. Me ligue quando puder." Suspirei, sentindo o peso familiar de uma responsabilidade que nunca foi realmente minha. Um homem a mais na lista, mais uma mentira a ser construída, e um futuro a ser destruído para garantir o nosso. Ou o dela. Às vezes, eu nem sabia mais. Só conseguia lembrar de como tudo isso começou, quando eu ainda era nova demais para entender o que realmente significava aquele "trabalho" que ela me ensinou a fazer. O padrão era sempre o mesmo: sedução, mentiras cuidadosamente ensaiadas, e no fim, já no casamento, o golpe que nos deixaria cada vez mais ricas. Os passos dela ecoaram pelo corredor antes mesmo de eu responder. Em segundos, lá estava minha mãe, impecável como sempre, com aquele olhar que não aceitava "não" como resposta.
— Então? Está pronta para o próximo?
Perguntou ela, ajeitando o colar de pérolas no pescoço e me encarando como se eu fosse uma funcionária em uma reunião de negócios.
— Mãe... — Prendi a respiração. Em algum lugar dentro de mim, uma pequena faísca de coragem tentava encontrar palavras. — Talvez já tenhamos o suficiente. A gente não precisa continuar agindo assim.
Minha voz saiu mais baixa do que eu pretendia, quase como um sussurro. Ela parou e me lançou um olhar que fez o ar do ambiente ficar pesado.
— Você acha que uma vida dessas se mantém sozinha? Olhe ao seu redor, Katherine. Tudo isso existe porque nós lutamos por ele. Porque você aprendeu a fazer o que é preciso para sobreviver e prosperar.
Surpreendida pelo tom frio, desviei o olhar para a janela, tentando não deixar transparecer o quanto aquela vida estava me destruindo. Ela nunca entenderia o que eu sentia. Desde que me entendo por gente, minha mãe sempre tratou nossos "alvos" como apenas isso: números em uma tabela, oportunidades, um meio para um fim. Para ela, cada homem era uma conquista, uma peça no tabuleiro que precisava ser manipulada. Eu sempre tentei me convencer de que tudo isso era para um bem maior, de que estava sendo uma boa filha ao obedecer. Mas, com o passar dos anos, essa ilusão se tornou cada vez mais insustentável.
— Você nasceu para isso. — ela continuou, aproximando-se de mim e pousando a mão firme no meu ombro. — Algumas mulheres têm a sorte de serem belas. Outras, a habilidade de manipular. Você tem os dois, Katherine. Eu te ensinei a usar isso, a fazer disso o nosso legado.
As palavras dela eram duras, e, por um segundo, senti um nó se formar em minha garganta. Eu queria gritar, dizer que eu não me importava com o dinheiro, que a cada golpe eu me perdia um pouco mais. Mas sabia que ela não entenderia. Ao longo dos anos, as lições foram sempre as mesmas: enganar antes de ser enganada, manter-se acima de todos e nunca permitir que ninguém chegasse perto demais. No começo, eu acreditava que estava tudo bem. Que era apenas um jogo. Mas agora... agora eu não tinha tanta certeza.
— Tudo bem. — murmurei, forçando um sorriso que tentava esconder a confusão e o desgosto. — Eu vou fazer o que for preciso.
Ela assentiu, satisfeita, e virou-se, desaparecendo pelo corredor com passos firmes, como se toda essa conversa tivesse sido apenas um detalhe em uma noite qualquer. Fiquei ali, sozinha, segurando a taça, vendo meu reflexo no vidro da janela. Às vezes me pergunto quem eu era antes disso tudo. Antes de me tornar um rosto bonito e uma voz suave com histórias inventadas para conquistar homens que depois eu precisaria destruir. Voltei a olhar para a cidade, sentindo uma tristeza se enraizar fundo. Por quanto tempo eu conseguiria viver assim, sem perder tudo o que eu realmente sou? Eu já não sabia responder.
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Perigo oculto
RomanceKatherine Diaz vive uma vida de luxo e enganos, sustentada pelos golpes aplicados em seus ex-maridos. Mas tudo muda quando conhece um homem envolto em mistério que desperta nela sentimentos até então desconhecidos. À medida que seu coração se rende...
