Fátima -Pov
Deixa a cafeteira ligada enquanto corre para fazer o restante do café da manhã. Cada um tem uma preferência: Robson é adepto do café puro e pão com manteiga, enquanto isso, Débora gosta de café com leite e misto quente. Já Filipe prefere seu Nescau com biscoitos.
São anos na mesma rotina, já conheço o passo a passo com exatidão, mas ainda me sinto pressionada a correr para deixar tudo pronto para eles saírem, todo o dia, cedo.
Enquanto a sanduicheira está terminando de preparar os mistos, subo correndo as escadas e, pelo caminho, vou abrindo sequencialmente cada porta e chamando um por um, que resmunga algo, cobre a cabeça ou, simplesmente, finge que não ouviu. Normal, já estou acostumada com essa luta matinal.
Entro no meu quarto e vou direto para o banheiro, onde Robson está saindo do banho. Sorrimos um para o outro e seguimos nossos caminhos. Ele vai se aprontar para mais um dia de trabalho e eu para mais um dia rotineiro na vida de uma dona de casa de classe média.
Arrumo-me rapidamente e desço, fazendo o caminho contrário das portas nas quais vou batendo.
Filipe já está terminando de colocar o uniforme e me deseja um bom dia animado assim que apareço na porta. Débora, como toda menina, está escolhendo suas roupas, o que me arranca um riso.
Desço correndo e vou para a cozinha, terminar meus afazeres, pois logo aquele lugar vai ser tomado por um pequeno batalhão. Assim que termino de pôr a mesa, começam a surgir.
Robson sério, pega seu jornal e se senta, servindo seu café e focando nas notícias. Débora, com o maldito celular em mãos, rindo sabe-se lá de que.
Filipe, com seus óculos e cabelinho ajeitadinho, me sorri novamente e pega seus biscoitos. Bem, essa é a minha família e minha rotina.
Meu nome é Fátima , sou casada com esse homem de cabelos, parcialmente, grisalhos, sério, mas que ainda emana sua beleza, e mãe dessas de duas criaturas maravilhosas, mas complicadas, Débora de 11 anos e já nas complicações da pré-adolescência, Filipe de 8 anos.
Casei-me com Robson assim que terminei minha faculdade de fisioterapia.
Nós nos conhecemos há anos, mas só começamos a namorar mesmo quando eu entrei na faculdade. Ele é um homem sério e, muitas vezes, fechado, entretanto, é um bom marido e pai.
Ele é engenheiro mecânico e trabalha como chefe de manutenção para uma empresa chinesa e é muito considerado e reconhecido em sua área.
Eu, por outro lado, nunca exerci minha profissão, mas, não julguem nada por isso, pois, não o fiz por opção minha, mesmo.
Quando Débora nasceu, acabei optando por ser a dona de casa que cuidava dos filhos e do lar. Arrependo-me? Às vezes sim, mas não é nada tão complicado assim... pelo menos eu acho.
— Mãe... preciso de uma calça nova. - Débora fala comigo enquanto estávamos à mesa tomando nosso café.
Olho-a estranhada, afinal, o que essa garota mais tem é roupa.
— O que houve com as suas? - Questiono a encarando, deixando de lado minha salada de frutas.
- Vai ser aniversário da Nanda esse final de semana e eu não quero ir com as roupas que tenho. - Falou como se nada, me fazendo olhá-la sem acreditar e Robson rir de lado, mas sem desviar os olhos do jornal que tinha em mãos.
Suspiro firmemente, tamborilando os dedos sobre o tampo da mesa. "Bem que falam que a adolescência dos filhos é como pagar todos os seus pecados na Terra".
- Débora... minha filha. - Falo calmada. - Não vou comprar mais nenhuma calça para você. - Olhei-a e já percebi a revolta em seus olhos. "Vai ter que lidar com isso". - Você tem roupa o suficiente no armário e, se procurar com atenção, vai encontrar uma que ainda não usou. - Finalizei voltando para meu café, logo teríamos que sair e não queria atrasar.
Mas, mãe... - Tentou falar, mas logo parou assim que a fitei diretamente.
Mas não sem antes bufar. "Por favor, Deus! Que o o outro demore mais a crescer."
Continuamos nosso café da manhã sem falar muito. Era comum comermos em silêncio, cada um no seu mundo.
Por um lado era até confortável, mas, por outro, eu sentia um pouco de vazio em nossos momentos de família. Tirando quando algum deles pedia algo para mim ou para o pai, raramente conversávamos.
Terminem logo que precisamos ir. - Falei me levantando e levando minhas coisas para a pia, para depois arrumar tudo, e me encaminhei para a sala, pois precisava pegar minha bolsa para levar as crianças ao colégio.
Minha rotina era sempre a mesma: Acordar, colocar à mesa para o café da manhã, levar as crianças para o colégio, ir na academia fazer algo de exercício, voltar para casa e fazer meus afazeres domésticos, para, quando todos chegassem, tudo está pronto.
Eu sei, não é o tipo de coisa mais animada do mundo, mas, fazer o que? Era a minha vida, a vida que escolhi para mim. Tirando a academia, raramente saía para fazer algo que não envolvesse minha casa ou minha família.
Peguei minha bolsa e logo as crianças foram por suas coisas para podermos ir para o colégio. Robson terminou seu café da manhã, pegou suas coisas, me deu um beijo no rosto e foi para seu trabalho.
Ele trabalhava no centro da cidade do Rio de Janeiro, mas, de vez em quando, ficava dias embarcado em alguma plataforma petrolífera.
Encaminhei-me para a garagem e já visualizei o carro de meu marido manobrando e saindo. Ele deu um leve buzinada para alguém e seguiu seu caminho, enquanto eu entrei no meu já aprontando tudo e desesperada porque as criaturas não saíam.
"Vamos nos atrasar" pensei batucando o volante. Logo os dois saíram e vieram até o carro, entrando cada um no seu "espaço".
- Coloquem o cinto. - Disse ligando o carro e já dando a ré para sair da garagem.
Moramos em um condomínio fechado na Barra, em uma casa grande e confortável. É um daqueles condomínios de casas, com segurança e "liberdade".
As casas são "abertas", o que nos permite termos contato, se quisermos, com os vizinhos e também que as crianças tenham liberdade para brincar.
Assim que saí com o carro para a rua em frente, me deparei com um caminhão grande, de mudanças, parado na casa a frente da minha.
Manobrei o carro para seguir para a saída, quando percebi um casal falando com um dos homens que trabalhavam descarregando.
Eles pareciam bem jovens... ele, um rapaz de estatura média e cabelos negros, cortados bem baixinho e ela, uma mulher de porte descontraído, mas sem perder a pose altiva, com cabelos longos e numa cor puxando para o loiro.
Por alguns segundos, me senti hipnotizada pela imagem dos dois, mas logo minha filha me interpelou dizendo algo, o que me fez voltar a mim e seguir meu caminho.
"Vizinhos novos! Será que são boa gente?" foi o único que pensei, porém, algo em mim martelava, mas eu não sabia o que era.
YOU ARE READING
Diana & Fátima - Diama
FanfictionFátima é uma mulher de 37 anos,casada,mãe de 2, classe média,onde a única preocupação é o quê fazer para o jantar...Etc. Talvez,seria tudo que uma mulher poderia querer,mais ela é feliz? Diana uma mulher de 32 anos,casada,realizada profissionalmente...
