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One Shot: O Fardo da Escolha

Harry se sentia exausto. Cada dia que passava em Hogwarts parecia pesar mais sobre seus ombros. Ser o "herói de todos", o Grifinório perfeito, o garoto que sobrevivera... Ele já não suportava mais essa responsabilidade esmagadora. Não que tivesse escolha. Era como se estivesse preso em uma narrativa escrita por outra pessoa, sem ter controle sobre sua própria vida. Mas, ultimamente, uma ideia perturbadora tomava conta de seus pensamentos: ele poderia simplesmente... ir embora. Deixar tudo para trás. Sumir.

Ao vagar pelos corredores da escola durante a noite, tentando encontrar um refúgio do turbilhão em sua mente, ele se deparou com alguém que jamais esperaria ver ali àquela hora: Draco Malfoy.

— Potter — disse Malfoy, sua voz soando tensa, mas curiosamente não hostil.

Harry parou, sentindo o coração acelerar. Ele sabia que deveria manter distância. Malfoy era um comensal. Um inimigo. Era o que todos esperavam dele. Mas uma parte sua — uma parte sombria e reprimida — não conseguia ignorar o estranho magnetismo que o loiro exercia sobre ele. Havia algo mais ali. Algo que ele não entendia completamente, mas sabia que era real.

— Malfoy — respondeu Harry, mais calmo do que esperava.

O silêncio que se seguiu era palpável. Os olhos prateados de Draco cravaram-se nos de Harry, como se buscassem algo mais profundo do que inimizade. Algo que ambos compartilhavam: cansaço. Eles estavam cansados. Cansados das expectativas, das máscaras, dos papéis que a guerra e o destino lhes impuseram.

— Você não devia estar aqui — disse Harry, quebrando o silêncio, mas sem convicção.

— Nem você — replicou Malfoy, aproximando-se lentamente. — Mas aqui estamos.

Harry queria se afastar. Ele sabia que deveria, mas suas pernas pareciam coladas ao chão. Algo no olhar de Draco o paralisava. E, mais do que isso, o fazia questionar tudo. Será que ele estava mesmo no caminho certo? E se... ele pudesse escolher?

Draco suspirou, olhando de soslaio para o vazio ao redor, antes de voltar seu olhar diretamente para Harry.

— Estou cansado, Potter. Cansado de tudo isso. Do que esperam de mim, do que eu preciso ser... — ele parou, como se pesasse suas palavras, e então acrescentou: — Eu só... não quero mais seguir esse caminho.

As palavras de Malfoy ecoaram na mente de Harry, despertando algo que ele vinha enterrando há muito tempo. 'Eu também.' Ele queria dizer. Queria gritar. Mas a confusão em sua mente o impediu. No entanto, havia algo naquele momento, naquele encontro inesperado, que desarmava as defesas que ele vinha erguendo contra seus próprios sentimentos.

Harry deu um passo à frente, seus olhos não deixando os de Malfoy. Ele não sabia o que estava fazendo, apenas sabia que não podia continuar fugindo de si mesmo. Malfoy, de alguma forma, tinha se tornado seu ponto de apoio em meio ao caos.

— Por que você está me dizendo isso? — perguntou Harry, a voz baixa, quase um sussurro.

Draco hesitou. Por um segundo, parecia que ele ia se afastar, colocar de volta a máscara arrogante que ele usava para se proteger. Mas ele não o fez. Em vez disso, deu um passo à frente, ficando a poucos centímetros de Harry.

— Porque eu sei o que você sente — Draco murmurou, quase como se fosse um segredo proibido. — Sei que está cansado de ser o "herói". Sei que, assim como eu, estou cansado de ser o vilao,você também não quer isso.

Harry sentiu o ar sair de seus pulmões. Como Malfoy podia saber? Como ele conseguia ver tão claramente algo que nem os amigos mais próximos de Harry viam? O peso de suas responsabilidades, o cansaço, a desesperança... e o desejo de fugir de tudo.

Draco ergueu a mão, hesitante, e tocou levemente o ombro de Harry. O toque era sutil, mas carregava uma eletricidade que fez os pelos de Harry se arrepiarem.

— Você tem uma escolha, Harry — disse Draco suavemente. — Você pode deixar tudo isso para trás.

Harry fechou os olhos por um momento, sentindo o conflito dentro de si borbulhar. Ele sabia que Malfoy estava certo. Ele sabia que poderia escolher um caminho diferente, que poderia seguir um rumo que não fosse definido pelos outros, pelas expectativas de um mundo que ele nunca pediu para salvar.

Quando abriu os olhos novamente, ele encarou Draco com uma intensidade que surpreendeu até a si mesmo.

— E você? — perguntou Harry. — O que você vai escolher?

Draco sorriu de maneira quase imperceptível, e naquele sorriso havia algo que Harry jamais esperaria ver: vulnerabilidade.

— Eu não sei ainda — respondeu Draco, a voz baixa. — Mas... se você quiser, podemos descobrir juntos.

A oferta pairou entre eles como uma promessa silenciosa, uma escolha que Harry jamais pensou que teria. Não era apenas sobre a guerra, sobre o bem ou o mal. Era sobre eles. E sobre a liberdade de finalmente fazer suas próprias escolhas.

Harry olhou para Draco, sentindo algo profundo e inescapável crescer em seu peito. Ele soube, naquele momento, que não estava sozinho. Que, por mais confuso que tudo estivesse, ele havia encontrado alguém que o entendia — alguém que estava disposto a caminhar ao seu lado, não como inimigo, mas como algo mais.

E, pela primeira vez em muito tempo, Harry sentiu que talvez pudesse respirar de novo.

Fosse qual fosse o caminho que escolhessem, ele sabia que não estaria mais sozinho.

FIM.

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