19/09/2024
"Você existe em cada cômodo do meu corpo."
Querido beija-flor,
Certas coisas ficam impregnadas no fundo do nosso coração esperando pacientemente a hora certa de serem transpassadas adiante num fluxo intenso de palavras. Te confesso que não sei escrever sem deixar implicitamente que em cada curva de letra tem um traço dedicado a você.
Sinto que não tenho te escrito da forma que queria, da forma que você merece. Na verdade, acho que precisaria de mais um devaneio para te descrever precisamente nessas linhas de amores. Quero dizer que lembro de você com exatidão: o cabelo escuro, a pinta abaixo da boca, e os olhos carregados de constelações; Mas sua alma sempre foi insolúvel, um ponto de interrogação no final da folha, algo que eu não consegui resolver, e agora não consigo transcrever. É como se eu tivesse te perdendo antes mesmo de te ter.
Tenho medo que, de jeito simples como um estalar de dedos, você se torne um estranho cujo rosto eu ainda conheça as nuances suaves, que o beijo eu ainda sinta tão quente na pele do meu ombro e as mãos que em mim desenharam tatuagens alcoólicas com teor de poesia e poeira estelar, ainda sinto as digitais queimando a derme, deixando seu rastro delicado, entretanto danoso. Eu poderia tentar ludibriar minha mente, ocupá-la com coisas supérfluas, te apagar da linha temporal que escreveu minha história e o deixar somente nas notas de rodapé; mas te conto, beija-flor, eu não seria capaz de negar toda sua existência. Não te esqueceria, nem mesmo se eu quisesse.
Me agarro nesse relicário de lembranças entorpecidas, enevoadas pela maldade do tempo, retorno para o ano passado e consigo te ver dançando na minha sala de estar, com os móveis todos afastados, a vitrola tocando The Smiths; os nossos sonhos continuavam vivos, a vida tinha tons cor-de-rosa e as promessas de que nada daquilo acabaria tão cedo ainda saiam das nossas bocas - pelo menos, não dois meses depois -.
Odeio pensar que me preparei por meses para o dia em que você fosse embora, cortou o cabelo que eu tanta amava e levou uma porção de roupas na mala, se despediu com um beijo na minha boca e outro na testa, sussurrando o quanto cada centímetro meu era composto por poesia, lírica, e prometendo uma volta sem data marcada. A única coisa que restou de você foi o diário de couro velho cheio de versos que você lia pra mim em voz alta, o colar de quartzo rosa lapidado em formato de coração, e o livro de poemas daquele velho alemão que você tanto gostava. Guardo todas essas coisas na esperança de segurar aquele pedacinho de você que sobrou comigo.
Volto no passado com uma frequência quase absurda, desesperada por um momento de serenidade, de finalmente calar a voz na minha mente e descansar os olhos num sonho distante, viajar por entre galáxias e pelas curvas do seu ombro, da sua boca faminta e dos seus olhos descobridores. Quero ignorar essa avalanche de sentimentos e buscar refúgio no teu colo, te encontrar novamente em qualquer lugar que você esteja. Pois desde que você se foi, as flores estão jazidas no chão, o vento soa frio e forte como um prelúdio catastrófico, é inverno por aqui, e o frio me traz a inegável certeza de que só o seu coração tórrido pode me esquentar.
Beija-flor, agora cada centímetro meu está transbordando de dor, é setembro outra vez, então amor, você deveria estar vindo.
Da sua melancólica e eterna, L.
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E agora, que faço eu da vida sem você?
Poesia"Me agarro nesse relicário de lembranças entorpecidas, enevoadas pela maldade do tempo, retorno para o ano passado e consigo te ver dançando na minha sala de estar, com os móveis todos afastados, a vitrola tocando The Smiths; os nossos sonhos contin...
