Capítulo 1 (piloto)

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          Não podia acreditar que era finalmente meu último ano, estava tão feliz que aquilo finalmente se encerraria. Eu podia me achar forte, talvez o próprio Superman, mas não era o suficiente para aquilo. Ensino médio é uma completa tortura.
          Me assustava em pensar que a faculdade podia ser pior, entretanto, eu preferia imaginar que estar em um lugar novo, com outras pessoas e principalmente pessoas que tivessem intenções diferentes era melhor.
          Eu tinha minha primeira aula, e estava adiantado como sempre. E não era porque gostava das aulas de exatas, quanto mais longe eu ficava dos corredores, melhor. Era mais saudável para mim.
          Evitava encontrar outros garotos nos corredores, o motivo de eu ser mais quieto e estudioso os incomodava de alguma forma, me envolver com os esportes era o pior. Nunca fui muito bom, mas meus pais diziam que eu iria melhorar na escola. O que não aconteceu, pois eu não conseguia praticá-los com outros garotos.
          Ficar mais sozinho não me incomodava, era pacífico na verdade. Eu podia ficar sentado enquanto fazia o que eu queria, seja ouvir uma música ou ler. Também os observava, o quanto suas necessidades sociais eram importantes, e o quanto outros se humilhavam para ter um pouco disso. Em muitos eu via estampado em seus rostos o quanto não gostavam daquilo, mas para eles era mais importante serem populares e terem atenção do que serem eles mesmos.
          Pessoas fazem escolhas, e estou feliz com a minha.
          — Hey, cara! — Andy interrompeu meus pensamentos. — Pensei que não fôssemos ter aulas juntos.
          Andy era meu amigo, possivelmente o mais próximo, mas as vezes gostava de o considerar meu colega. Havia muitas coisas que não sabíamos sobre o outro, além disso, não nos víamos fora do colégio. Parecia conveniente, ficávamos relativamente juntos enquanto estávamos aqui, fazíamos trabalho juntos se necessário, mas fora daqui cada um de nós tinha uma vida que não sabíamos qual era.
          — Impossível! Seria algo muito milagroso se eu tivesse paz — brinquei.
          — O que fez nas férias? Mais super-heróis e videogames? Mais livros? — perguntou enquanto se acomodava ao meu lado.
          — Um pouco de tudo que podia, mas estudei também.
          — Cara, sabe que se adiantar não vai fazer isso — disse apontando o dedo em volta de nós — acabar mais rápido, né?
          — Sim, mas me adiantar faz eu poder matar aula sem me preocupar se saberei o que preciso para as provas — dei de ombros.
          — Até parece que você mata aulas — riu.
          — Eu já matei — menti —, mas não faço frequentemente. E se eu ficar doente e não puder vir a escola?
          — Ok... Ok... Entendi — estendeu suas mãos como rendição. — Mas...! Você precisa relaxar, cara. Vai ter uma festa, acho que devíamos tentar ir dessa vez.
          —Pra quê? Beber? Dançar? Conversar com pessoas estranhas? Não faço nenhum desses.
          — Mas podemos tentar nos divertir, e a garota que está dando a festa disse que queria todo mundo lá, sem exceções — continuou. — Acho que vale a pena tentar, pode ser uma festa diferente.
          — E desde quando seguimos o que o resto faz? Minha mãe disse que não sou todo mundo, não vou a não ser que eu tenha um motivo para ir, e até agora meu videogame parece uma ideia muito melhor.
          — Vou te convencer até sexta, você tá fodido — desafiou rindo.
          — Talvez eu vá se você admitir que quer ir para conhecer alguma garota, mas não quer ir sozinho — franzi o cenho ao dizer, o provocando de forma brincalhona.
          — Isso não é verdade.
          — Quem é a garota?
          — Não tem garota, só tô tentando me divertir. A anfitriã garantiu que seria divertido — respondeu tentando não gaguejar.
          — Então é a anfitriã. Você pode falar, não precisa ter vergonha.
          — Não é! — exclamou, quase alterado. — É uma garota nova, por isso achei que podíamos ir. Ela não conhece muita gente, mas... está fazendo sucesso. Eu reparei, é bonita, mas não é como se eu achasse que eu tivesse uma chance. Mas me convenci de que vai ser legal porque ela é novata.
          — É só mais uma, Andy. Acabou de chegar e já é popular, já dá festas. Deixa-me adivinhar... Samantha e Natalie já estavam com ela e Taylor estava a olhando pelos corredores... Hmm... Meu videogame é melhor.
          — Ache o que quiser... Até sexta te convenço a ir.
          — Vai ser engraçado ver você tentando — ri e finalizei a conversa quando o professor que havia acabado de entrar na sala se preparou para começar sua aula.
          É estranho como Andy se prontificou a ir a uma festa, deve haver um bom motivo para isso, pois até então ele era como eu, não ligava para essas coisas.
          O fato é que eu não queria ir aquela festa, nem que eu fosse pago para isso. Já tinha a noção de que todas são iguais, e eu não queria ser o cara que fica no canto vendo os outros beberem e dançarem, não gosto de nenhuma dessas duas ideias, então não tinha como eu me misturar a eles.
          Meus pais com certeza gostariam da ideia de me ver sair, com certeza faziam o mesmo quando mais e se preocupam que eu seja tão introvertido. Não que eu já tenha alguma vez tentado explicar o quão vazio são tais atos se não é o que você gosta de fazer.
          Cresci podendo fazer o que eu quisesse, então o fiz, achei o que me divertia e pago o preço por isso.
          Após a aula terminar, saí para a próxima e esperava isso se repetir mais 5 vezes no meu dia.
          — Te vejo depois, Mike! — Andy de despediu e logo fiz meu caminho para a próxima aula.
          A melhor parte de chegar antes nas aulas era poder escolher meu lugar, gostava de sentar-me atrás, próximo a janela. Era um lugar bom para estudar, e caso a aula estivesse entediante por algo que eu já havia estudado, podia facilmente ler um livro enquanto o tempo passava.
          Era isso o que eu tinha feito por anos, esperava o tempo passar.
          Mas para quê? O que eu esperava?
          A faculdade, talvez, mas não era a melhor opção. O dia que eu trabalharia como um robô com uma rotina que se repetia enquanto eu fingia ser feliz, muito menos. Eu não conseguia adivinhar o que esperava, mas sabia que não queria estar onde eu estava, por isso fazia o que mais me agradava para que meus dias fossem os mais cheios possíveis. Porém, cheios de coisas boas, e não sentimentos vazios.
          Acho que não era o momento de descobrir o que eu esperava, o que realmente queria. Entretanto, eu tinha paciência para esperar o tempo que fosse.
          A vida ainda tinha algum valor, algo que valesse a pena para vivê-la. Eu podia ser apenas um rato no meio de tantos gatos, ou uma máquina feita para fazer a mesma coisa que todos, que gerações, todos automáticos. Mas gostava de ter a esperança de que podia ser mais que isso, que podia ser melhor.
          Me sentei na cadeira e olhei pela janela, os carros parados no estacionamento enquanto o céu, escuro pelas nuvens, refletiam em seus para-brisas. Alguns alunos atrasados se arriscavam pelas gotas de chuva persistentes enquanto outros tinham o conforto do guarda-chuva. Pouco me importava se eu estava dentro de um lugar quente e coberto de casacos. De fato, era um dia mais frio para o início do outono.
          E logo um cheiro chamou minha atenção. Não era cheiro de chuva, ou de botas molhadas da grama, ou de desodorante como os alunos costumavam usar em excesso. Era algo que nunca havia sentido.
          Perfume.
          Um perfume doce, ao mesmo tempo com cheiro de flores e algo a mais, algo que eu não sabia o que era. Foi tudo por um milésimo se segundo, passou pelo meu nariz como uma brisa, mas eu quis mais antes mesmo de expirar o ar de meus pulmões. Meu rosto seguiu o cheiro enquanto uma menina passava por mim, uma mulher na verdade.
Antes de ver seu rosto vi seus cabelos perfeitamente ondulados que iam até o início de sua cintura em um preto tão escuro quanto ônix. Foi quando me arrependi de sentar-me na última cadeira, sempre a deixava vaga, mas ninguém se sentava atrás de mim, era sempre um lugar vazio.
          Ela se sentou atrás de mim e eu não me atrevi a olhá-la ao ponto de que precisasse virar meu corpo, ela estava acompanhada por duas outras garotas, mas seu cheiro era o que me interessava, e agora tão longe eu não conseguia mais sentir. Há uma súbita vontade de ficar mais perto, mas não me movo um músculo, ao contrário, fico parado como uma pedra olhando para frente.
          — Mas como seus pais deixaram você vir sozinha para os Estados Unidos? — uma voz feminina perguntou, mas essa eu conhecia, era a voz de Samantha. E como eu presumir, ela estaria acompanhada da garota nova que Andy falou.
          A garota nova estava sentada atrás de mim, e aquele cheiro era seu.
          — Meus pais confiam em mim, conto tudo a eles — ela respondeu.
          Sua voz era tão doce quanto o seu cheiro, quase parecia uma canção ao ouvir, além de seu sotaque, um sotaque britânico inconfundível, era diferente dos que eu já havia ouvido.
          — Quem me dera ter pais assim, mas não posso confiar tudo a eles. Não teriam uma reação boa.
          — Então você está fazendo algo muito errado ou seus pais esperam muito de você? — a novata perguntou.
          — Um pouco dos dois — respondeu seguida de uma risada. — Mas sua casa é tão grande para uma festa com a escola inteira?
          — Vai servir, pode confiar.
          O sinal tocou, fazendo as duas meninas se despedirem enquanto saiam da sala, por sorte elas não estavam na mesma aula que eu. Suas fofocas se tornam irritantes com o tempo.
          — Te vejo depois — uma delas disse enquanto saia.
          O professor ainda não havia entrado na sala, provavelmente estava atrasado, era de se esperar. Porém, não havia esquecido da mulher que havia atrás de mim, não consegui percebê-la por inteiro ainda, mas parecia ser linda. Eu queria checar, queria saber o porquê ela havia chamado a atenção de meu amigo, deveria haver um motivo.
          Arrumei meus óculos em meu nariz e massageei as têmporas, esperando para que o professor não demore tanto.
          — Hey! Você sabe qual livro ele vai usar hoje? Acho que eu trouxe o errado — ouvi sua voz penetrar meus ouvidos com a mesma doçura da primeira vez que a ouvi.
          — Perdão? — me virei para ela, como se eu precisasse prestar atenção no que dizia pois não havia entendido. O que era uma mentira, eu escutei perfeitamente.
          Foi quando pude perceber suas feições, seu rosto. Sua pele era pálida, entrando em contraste com a escuridão do seu cabelo. Os lábios rosados tinham um sorriso gentil enquanto seus olhos azuis penetravam os meus. Pelo menos era o que eu sentia.
          — O livro... é este? Acho que me enganei — repetiu enquanto me mostrava o mesmo.
          — Não, este livro só será usado no próximo semestre — respondi enquanto olhava para o livro, como se o analisasse, mas a olhava com o canto dos olhos.
          — Obrigada! O professor dessa matéria é bom? Não quero ficar entediada.
          — Não sei se sou a pessoa certa para te dizer isso, nenhum dos professores me deixam entediado... Só a matéria, as vezes.
          — Mas se a matéria está te deixando entediado não é o professor que não sabe aplicá-la? — perguntou, erguendo uma de suas sobrancelhas.
          — Não... Na verdade é porque eu provavelmente já a estudei — disse envergonhado.
          — Hmm... Então você é o nerd tímido? — perguntou depois de colocar uma de suas mãos em seu queixo e olhar profundamente para mim. Com seu corpo apoiado na mesa eu a vi por inteiro, as roupas em preto e marrom escuro combinavam, ela tinha um estilo bonito e sofisticado, combinava com seu sotaque britânico.
          — É o que dizem... — respondi, sem querer abrir a boca para confirmar, não gostava desse título. Me virei para frente, escondendo a decepção em meu rosto e vendo o professor entrar na sala para sua aula.
          — Hey! — sussurrou próximo ao meu ouvido. Seu corpo estava tão próximo que pude sentir seu cheiro mais uma vez, era o suficiente para quase me fazer derreter na cadeira. — Pode me ajudar nessa matéria? Não sou muito boa.
          — Éé... te ajudar?
          — Sim! Por favor! Posso pagar se quiser, mas preciso manter minhas notas boas se quiser continuar aqui.
          — É... É... Sim! Pode ser... — respondi, nervoso. Ajudá-la com alguma matéria significava que passaríamos tempo juntos, e possivelmente sozinhos.
          — Não se preocupe, eu não mordo. Na verdade, eu queria convidá-lo para minha festa, mas percebi que você não parece o tipo que gosta de festas, apesar de que caso você fosse, não iria deixá-lo sozinho — ela sussurrou.
          Suas palavras eram como uma brisa fria, entrando em meus ouvidos, mas também em minha pele, fazendo um arrepio se espalhar por toda a extensão. Era como um choque. Pude sentir o hálito quente em meu pescoço.
          — Sou tão fácil de ler? — respondi sem me virar para ela, estático. Eu parecia nervoso, era diferente para mim.
          Para começar não sabia o porquê de ela estar falando comigo, muito menos porque queria minha ajuda. O assunto da festa foi ainda mais delicado, Andy queria ir por seu convite, talvez agora eu entendesse o porquê. Há algo nela que desperta a curiosidade, como se ela estivesse no controle de tudo. Engoli ar, não havia lubrificação alguma em minha boca, parecia até que faltava oxigênio em minha volta.
          — Eu apenas sei...

O Sangue Mais Doce: É vicianteStories to obsess over. Discover now