A flor da pele

2 0 0
                                        


A sala estava cheia, mas o tempo parecia desacelerar toda vez que Leandro passava entre os alunos, ajustando os óculos de leitura com a ponta dos dedos. Sua voz grave ecoava pela sala, penetrando cada canto com uma autoridade que fazia com que ninguém ousasse desviar a atenção - exceto Yasmin.Ela estava sentada na segunda fileira, como sempre, com as mãos descansando sobre o caderno. Seus olhos, no entanto, não estavam focados nas anotações. Ela acompanhava cada movimento de Leandro, observando o modo como ele andava pela sala com uma confiança inabalável, como se soubesse que seu intelecto, assim como sua presença física, dominava o espaço."Direito Penal não é apenas sobre leis e estatutos," dizia ele, sua voz ecoando com seriedade. "É sobre entender a moralidade e a justiça que sustentam nossa sociedade. Quem aqui pode me dizer qual a função social da pena?"Yasmin sabia a resposta. Sabia antes mesmo de Leandro terminar a pergunta, mas hesitou por um segundo. Seu coração acelerava, não por medo de errar, mas por causa da eletricidade que sentia ao interagir com ele.Leandro ergueu o olhar e seus olhos encontraram os de Yasmin por uma fração de segundo - uma fração que fez seu estômago revirar. Ele sabia que ela sabia. Era impossível não notar. Com um leve arqueamento de sobrancelha, ele a incentivou silenciosamente."Yasmin?" disse ele, a voz firme, mas com uma suavidade contida que apenas ela parecia notar.Ela endireitou a postura e respondeu com a confiança de sempre: "A função social da pena, professor, vai além da punição. Ela visa a reintegração do infrator na sociedade, ao mesmo tempo em que serve como um exemplo para o coletivo, mostrando os limites que não podem ser ultrapassados."Leandro assentiu, satisfeito. "Perfeito. Como sempre, você capturou a essência do que estamos discutindo."Ela tentou não sorrir, mas sentiu um calor subir por seu rosto ao receber o elogio. Embora Yasmin fosse sempre a melhor aluna da classe, o reconhecimento dele parecia diferente. Especial. Ela se perguntou se ele percebia o quanto aquelas simples palavras significavam para ela.Enquanto ele voltava a andar pela sala, explicando as nuances da teoria do direito, Yasmin se permitiu um momento de devaneio. Imaginou-se sozinha com ele, discutindo filosofia ou direito em algum lugar mais íntimo, onde as formalidades da sala de aula pudessem ser deixadas de lado. Onde as barreiras pudessem cair, nem que fosse por um momento.Ela piscou, voltando à realidade quando ouviu o som do marcador riscando o quadro. Leandro estava agora de costas, escrevendo com elegância uma série de tópicos sobre o caso que discutiriam a seguir. O tribal católico em seu braço se destacava sob o tecido ajustado da camisa branca, um contraste intrigante entre sua aparência profissional e algo mais primal, mais pessoal, que Yasmin não conseguia deixar de notar.O tempo passou rápido demais. Quando o sinal finalmente tocou, os alunos começaram a guardar seus materiais, mas Yasmin permaneceu em seu lugar por alguns segundos a mais, observando Leandro recolher suas coisas. Ela queria falar com ele, mas sabia que seria impróprio. Sabia que não poderia.Ainda assim, enquanto ele saía da sala, ela sentiu o olhar dele sobre ela novamente, mesmo que por um segundo. Um segundo que fez com que ela tivesse certeza de uma coisa: por mais que ela tentasse negar, havia algo ali. Algo que ele não demonstraria, mas que talvez estivesse sentindo também.E naquele instante, Yasmin soube que, embora suas respostas na sala fossem sempre rápidas e precisas, a pergunta que realmente importava ficaria suspensa por mais algum tempo - até que ambos estivessem prontos para encarar a verdade.


A chuva caía suave lá fora, criando um ritmo relaxante que ecoava pelas janelas da universidade. O corredor estava quase vazio quando Yasmin, ainda absorvida pelas últimas palavras da aula, arrumava seus livros com calma. Ela sempre gostava de ser a última a sair, prolongando o momento, sentindo-se ainda parte daquele espaço onde Leandro dominava o ambiente com suas palavras e presença.Mas dessa vez, quando ela fechou a mochila, notou uma sombra se aproximando. Leandro, com passos firmes e decididos, estava caminhando em sua direção, os olhos fixos nela de um jeito que fazia o coração de Yasmin acelerar."Yasmin, pode ficar um minuto?" Ele disse, a voz mais baixa do que de costume, quase privada.Ela olhou em volta, confusa, mas também um pouco apreensiva. "Claro, professor."Leandro indicou com um aceno sutil que ela o seguisse para fora da sala, onde o corredor estava completamente vazio. A luz suave refletia nos corredores de mármore, e o som da chuva lá fora era a única coisa que preenchia o silêncio entre eles. Yasmin sentia a tensão no ar, mas não sabia o que esperar.Ele parou perto da janela, cruzando os braços de maneira relaxada, mas seus olhos, normalmente cheios de uma calma controlada, estavam mais intensos dessa vez. Ele parecia escolher cuidadosamente as palavras, como se estivesse prestes a atravessar uma linha invisível."Yasmin," começou ele, a voz baixa e cheia de intenção, "Você é uma das alunas mais brilhantes que eu já tive. Mas tenho notado algo... e preciso te alertar."Ela franziu a testa, sentindo um peso crescente no peito. "O que quer dizer, professor?"Leandro hesitou por um momento, algo raro para ele, e então continuou, os olhos nunca deixando os dela. "Não deixe que isso te consuma."Aquilo pegou Yasmin de surpresa. Ela tentou decifrar suas palavras, mas uma parte de si já sabia do que ele estava falando. Seu coração deu um salto desconfortável. Ele sabia. Ou, pelo menos, suspeitava."Isso...?" Ela perguntou, sentindo-se vulnerável pela primeira vez em muito tempo. Estava acostumada a ser aquela com todas as respostas, mas agora se via perdida no meio de uma conversa que já era mais pessoal do que deveria ser.Leandro manteve o olhar firme, mas havia uma preocupação por trás de seus olhos. "Você é inteligente, determinada... Mas às vezes, quando você está aqui, parece que está focada em algo além do que estamos discutindo. Preciso que entenda que certos sentimentos, certos desejos, podem complicar as coisas, especialmente para você."Yasmin sentiu o rosto esquentar, uma mistura de vergonha e frustração. Ele estava a um passo de dizer o que ela temia - e, ao mesmo tempo, desejava. Ela engoliu em seco, tentando recuperar o controle da situação. "Eu não sei do que está falando."Ele não sorriu, mas havia uma suavidade em seu rosto, como se estivesse tentando ser cuidadoso. "Seja honesta consigo mesma, Yasmin. Não estou dizendo isso para te magoar, mas para te proteger."Ela mordeu o lábio, sentindo-se exposta, como se todos os seus segredos estivessem abertos ali, diante dele. Tentou encontrar uma maneira de responder, algo que não a entregasse completamente. Mas as palavras de Leandro já haviam atravessado uma barreira invisível entre eles."Então o que eu deveria fazer?" Yasmin perguntou, com um toque de desafio em sua voz, mas também com uma vulnerabilidade que ela não conseguia esconder.Leandro suspirou levemente e descruzou os braços, os olhos suaves, mas firmes. "Foque nos seus estudos. Construa sua carreira. Não deixe que distrações ou sentimentos complicados atrapalhem o que você pode alcançar. Você tem um futuro brilhante pela frente, Yasmin. Não perca isso de vista."Aquelas palavras, ditas com tanta seriedade, deveriam tê-la acalmado. Mas, em vez disso, deixaram um vazio, como se ele estivesse reafirmando a distância entre eles - uma distância que Yasmin, em seus momentos mais secretos, sonhava em romper.Ela assentiu lentamente, sem conseguir formular uma resposta imediata. Seu peito estava apertado, e a chuva lá fora parecia agora refletir a confusão dentro dela. Sabia que ele estava certo, sabia que precisava controlar o que sentia, mas ouvir isso dele apenas confirmava que ele também percebia o que estava acontecendo entre eles."Entendo, professor," ela disse finalmente, a voz baixa.Leandro a observou por um momento a mais, e então, com um pequeno aceno de cabeça, virou-se para ir embora. "Cuide-se, Yasmin," ele disse suavemente antes de sair pelo corredor, deixando-a sozinha com seus pensamentos turbulentos.Yasmin ficou parada por alguns segundos, olhando para o vazio, ouvindo os passos dele ecoarem até desaparecerem. Ela sabia que precisava manter distância, que deveria seguir o conselho dele. Mas como poderia, quando tudo dentro dela gritava pelo oposto?

teacher'sWhere stories live. Discover now