Stênio Alencar
Como dar fim em algo que sempre fez parte de quem nós somos? Aliás, de quem nós sempre achamos ser.
Sempre me considerei um homem centrado, certo do que eu queria para a minha vida. Nos amores, nas dores, nas vontades. Tudo sempre me foi muito claro e justo.
Mas quando se refere ao outro, aí a coisa muda de figura e se torna uma tragicômica história de amor.
Heloísa Sampaio sempre foi o motivo de tudo, da minha respiração, do meu viver, de todo o meu amor e desejo. Apesar de sermos diferentes, a química inexplicável e o amor incondicional sempre fez com que nos uníssemos em prol de algo único.
Até esse algo não existir mais.
Pelo menos, não para ela.
Tentei até o último segundo acreditar que era coisa de momento, que ela só estava ocupada demais no trabalho, que estava sem tempo pra mim. Mas dói entender que, na verdade, o que nos uniu, é o motivo do fim.
Nosso fim se deve ao que eu acredito ser a falta de desejo, de amor e de química entre nós dois. Dela.
Helô já não me ama, já não se importa mais com o que eu sinto ou deixo de sentir. Virei apenas um morador em sua casa, uma sombra que a todo custo tentava salvar algo que já não tinha salvação.
Um amor de anos, que nos moldou a ser quem somos. Mas que acabou, pelo menos para ela, acabou.
Pra mim, é como se tirassem a facas o meu coração do peito, como se levassem de mim a única certeza que eu tenho nessa vida. Ela sempre foi a minha constante, o meu caso certo.
Até não ser mais.
As malas no meio do apartamento que conta todas as nossas histórias são a prova viva de que o fim chegou, de que a minha vida iria mudar pra sempre dali em diante.
E como tudo que é ruim, pode piorar. Ainda teria que dar um jeito no trabalho, para evitar encontrá-la o máximo possível, mesmo que ela trabalhasse comigo no escritório. No nosso escritório, que leva nossos sobrenomes juntos como havia de ser.
Como deveria ter sido.
— Você não vai ter a coragem de falar nada? Nem agora que eu estou indo embora? — minha voz continha toda a mágoa guardada no meu peito, no meu coração.
Não conseguia aceitar o quão fria ela conseguia ser com tanta facilidade, como se todos esses anos juntos não valessem de nada. Como se eu não valesse de nada.
A advogada me olhava por cima da taça de vinho que segurava em suas mãos, com aquele olhar enigmático que sempre foi o seu maior charme, pelo qual eu sempre fui apaixonado.
Mas agora, eu o odeio mais que tudo. Odeio esse lado frio dela.
O lado que não gosta de demonstrar afeto, que odeia dormir de conchinha todas as noites, que não sabe dizer um "eu te amo" com facilidade.
E agora eu sinto que a odeio por inteiro, a odeio por me deixar ir embora assim, do nada.
Eu odeio Heloísa Sampaio com todas as minhas forças.
Por me destruir, por me fazer acreditar que o nosso amor era de verdade, que existia reciprocidade.
— Já entendi. — murmurei em mágoa total, descrente em como ela conseguia ser assim. — Já deveria ter me acostumado que dentro desse teu peito não tem nada batendo...
Não saía sequer uma palavra da sua boca, e ela só me assistia ir embora da sua vida com todas as minhas coisas. Como se para ela fosse fácil, fosse óbvio.
Quem sabe não era isso que ela tanto queria e não sabia como dizer, não sabia como me expulsar da sua vida.
Peguei duas malas que não continham nem um terço de todas as minhas coisas, de tudo que juntei durante toda a minha vida, indo em direção à porta do nosso apartamento.
Do apartamento que construímos juntos, cada pequena partezinha. Desde as cores da parede, até os móveis e decoração.
Tudo meu e dela, nosso.
Dei uma última olhada para tudo, em especial para a mulher que sempre seria a mulher da minha vida, a única que amei de verdade e quem sempre terá o meu coração.
Morrerei sozinho e amargurado, mas jamais irei me permitir sentir algo assim por alguém de novo.
Limpei uma lágrima que escorreu sem que eu tivesse conta do meu rosto, não querendo ser ainda mais fraco na frente dela.
Deveria ter pego aulas com ela para aprender a ser inerente a tudo, inerente a vida. Não sentir, não doer, não amar.
Tudo seria tão mais fácil se eu conseguisse ser como ela, frio e vazio. Mas eu não sei ser assim, só sei ser amoroso, carinhoso e demonstrar tudo que sinto.
Essa é a minha maior fraqueza, e justamente onde ela mais me apunhalou.
— Tchau, Helô.
Fechei a porta atrás de mim, deixando a minha vida pra trás.
Entrei no elevador ainda segurando um choro que não aguentaria muito, que desabaria logo. Um choro de dor por finalmente ter tomado a frente de tudo, por ter sido corajoso o suficiente para dar um basta no meu próprio sofrimento.
Mas que sofrimento é esse que quase me custou tudo? Que se triplicou no momento em que fechei a porta?
Não tive nem coragem de me despedir de Creusa, aproveitei do momento em que ela havia saído de casa para ir embora. Dar adeus a ela era realmente assinar o divórcio antes mesmo do papel ficar pronto.
A mulher que sempre foi a favor do nosso amor, que sempre torceu para darmos certo... Ah, Creusinha... Se tu soubesse o quanto eu tentei.
Porém, sozinho nada é possível.
Eu precisava de Helô comigo, mesmo que ela não fosse tão intensa como eu, mesmo não sabendo demonstrar seus sentimentos. Mas eu sempre a senti comigo, do jeitinho dela.
Quando deixei de sentir, quando deixei de enxergar a minha Helô ali, tudo ruiu.
Ela não me olhava mais com o mesmo brilho nos olhos, com aquele amor que transborda.
Era só frieza, só trabalho, só negócios. Eu virei um negócio pra ela, um papel que nos unia perante a justiça e só.
Sinto que ela desaprendeu a me amar.
E eu precisava aprender urgentemente a como deixar de amá-la também.
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MUVND
FanfictionMais uma vez nós dois. Uma história sobre recomeços e mudanças. Steloisa.
