O amor sempre foi um assunto complicado e borrado nas bordas para Evan. Normalmente, em lares saudáveis, as crianças crescem já tendo uma boa ideia do que é o amor. "É o sentimento que enche os olhos da mamãe quando ela me pega no colo. Está no sorr...
Este capítulo contém descrições de abuso físico e emocional, incluindo dinâmicas de controle familiar e humilhação. Aborda temas de solidão, rejeição e a luta interna do protagonista, que podem evocar sentimentos intensos em leitores sensíveis. A narrativa também explora os traumas religiosos e a descoberta da verdadeira natureza do amor. Se você ou alguém que você conhece está passando por situações semelhantes, é importante buscar apoio e considerar se esta leitura é adequada para você. Cuide-se!
Boa leitura!
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The fates already fucked me sideways, swinging by my neck from the family tree.
— Ethel Cain
Um suspiro silencioso deixou os lábios de Evan enquanto ele dedilhava suavemente o piano novo que havia ganhado de presente, forçando um sorriso no rosto sempre que sua Mãe o olhava. Suas costas doíam por ficar na mesma posição sentada em frente ao instrumento, e seus dedos doíam pelas aulas de guitarra que vinha fazendo depois das visitas diárias à igreja, às escondidas de seus pais. Não era como se ele pudesse conversar com eles e dizer que seus dedos ainda estavam formando calos e que, atualmente, haviam bolhas dolorosas há muito estouradas pelo atrito com as teclas, e que elas provavelmente iriam infeccionar se ele continuasse naquele ritmo.
— Não, não, Evan. Você saiu do tom, querido. Vamos mais uma vez.
Erroneamente, o loiro suspirou com aquilo e se preparou para recomeçar a música pela décima vez consecutiva. Se Evan soubesse, naquela época, o que aquele mero suspiro desencadearia, ele jamais teria soltado-o na presença de sua Mãe. Jamais o teria feito onde seu Pai pudesse ver.
Desde pequeno, Evan Rosier sempre soube ser dono de uma péssima sorte. Quando brincava com seus primos de algo que seus pais não aprovariam, ele era sempre o primeiro a ser descoberto. Quando tentava tirar a fruta com textura estranha de seu prato, sua Mãe sempre parecia ver. Quando ia correr no quintal, caía. Não deveria ser, então, uma surpresa tão grande para ele que seu Pai tivesse entrado na sala de visitas justamente no momento em que aquele maldito fluxo de ar revoltoso deixou seus lábios. Era apenas sua sorte.
— O que foi, garoto? Sua Mãe está te incomodando ao exigir um trabalho decente de você?
Parecendo sentir a mudança de clima no ambiente, a Senhora Rosier se retirou imediatamente do recinto, como sempre fazia quando as coisas davam indícios de que iriam esquentar entre o Senhor Rosier e alguma de suas proles. Evan não sabia se era por temer o Pai, por concordar com ele ou por simplesmente não ter dentro de si a força necessária para se importar com os abusos sofridos por seus filhos nas mãos do progenitor.
Abuso. Evan estava se familiarizando com a palavra. Por muito tempo, ele acreditou que aquilo era amor. Que seus pais estavam dando exatamente aquilo que todos davam aos filhos. Então, um dia, saindo da escola, ele viu um casal já um tanto grisalho e seu aparente filho. Talvez neto, embora eles não parecessem tão velhos assim. O que ficou consigo daquele brevíssimo momento foi a forma como os olhos da senhora brilharam — um brilho doce, amoroso, não de diversão, de escárnio. Evan sabia a diferença agora — ao ver seu garoto saindo da escola com os cabelos mais revoltosos de todos e os óculos completamente tortos no rosto. Durante a interação, o loiro prendeu a respiração, tenso, imaginando o que se desenvolveria a partir dali. Certamente, pensou Evan, ele será repreendido. Como? Gritos? Estamos em público, seria deselegante. Então uma palmada na mão? Totalmente aceitável. No rosto me parece um pouco excessivo, mas existem pais excessivos... Seus pensamentos foram interrompidos quando a senhora gentilmente removeu os óculos do rosto do jovem e os limpou nas saias de seu longo vestido. O senhor passou os dedos pelos cabelos do garoto, desembaraçando e ordenando os fios com tamanho zelo que levou lágrimas aos olhos de Evan. Não porque ele achou a cena à sua frente bonita ou porque o emocionou, mas porque foi naquele momento que ele finalmente notou a dura verdade que vinha assombrando-o há alguns meses: seus pais não o amavam. Aquilo não era amor. Era outra coisa.