Capítulo 1: O Silêncio que Queima

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Vocês se lembram do que o #ROSATTAZ representava, certo? 

Era mais que uma hashtag; era a prova viva de que, no esporte, duas almas podiam se fundir em uma cumplicidade que transcendia as quadras. Mas o que ninguém te conta é que, quanto mais alta é a chama, mais dolorosas são as cinzas que ela deixa para trás.

Tudo começou a ruir após as Olimpíadas de Paris. A glória da convocação para Rosamaria, a amargura da ausência para Gattaz. Rosa tinha um relacionamento; Carol vivia a sua liberdade. Em teoria, nada disso deveria importar. Amizades verdadeiras sobrevivem a fossos, mas não sobrevivem ao silêncio.

A barreira não foi erguida de uma vez; foi construída tijolo por tijolo. Uma mensagem visualizada e não respondida aqui, um "estou cansada" ali. Carol sentia o frio vindo daquela que sempre fora seu sol. Rosamaria tinha um motivo — um segredo guardado sob sete chaves que a consumia — e, incapaz de lidar com a própria dor, escolheu a terra arrasada. Afastou-se da melhor amiga, da família, do vôlei e do Brasil.

O Japão foi o seu esconderijo perfeito, até que o anúncio da pausa na carreira caiu como uma bomba. Rosa sumiu do mapa. Redes sociais desativadas, telefones trocados. Ela se tornou um fantasma. Carol, desesperada, tentou de tudo. Ligou para a então namorada de Rosa, apenas para ouvir um "não estamos mais juntas" seco. Tentou até que, um dia, o áudio chegou.

A voz de Rosamaria não tinha o brilho de outrora. Estava gélida, metálica, desprovida de qualquer rastro de afeto: 

"Eu não quero te ver, Caroline. Eu não quero falar com você. Me esquece. Tô te bloqueando de tudo e te excluindo da minha vida. Por favor, não me procure mais."

Carol ouviu aquele áudio em looping, sentindo o peito contrair até faltar o ar. Se fosse texto, ela acharia que alguém roubara o celular de Rosa. Mas era aquela voz. A voz que tantas vezes a acalmara antes de um saque decisivo. O luto começou ali.

POV CAROL


Nove meses. Duzentos e setenta e quatro dias respirando o ar pesado da ausência.

Muita coisa mudou. Saí de Belo Horizonte, deixei o Minas e o conforto de dez anos de rotina para vestir a camisa do Praia Clube. Uberlândia é uma cidade incrível, mas, às vezes, as luzes da cidade parecem apenas ressaltar o vazio que carrego na alma. Minhas novas companheiras são fantásticas, e ter a Macris por perto é o que me mantém sã. Ela é meu porto seguro, a única que percebe quando meus olhos se perdem no horizonte em busca de uma resposta que nunca vem.

Eu tentei ser forte. Parei de ligar para a mãe da Rosa quando percebi que a esperança estava se tornando uma forma de tortura. "Ela está bem, Carol. Só não quer falar com ninguém", dona Adelir dizia, e aquela frase me cortava como navalha. Parei de perguntar para a Roberta, para a Naiane, Josy... paramos de falar o nome dela porque o som causava uma dor física em todas nós.

Estava imersa nesse pântano de pensamentos quando senti o impacto úmido de uma toalha no meu rosto.

— Acorda para a vida, Gattaz! — Macris estava parada à minha frente, as mãos na cintura. — Não dormiu de novo? Ou estava viajando para o Japão em pensamento?

— Eu sei, vegana... eu sei — murmurei, tirando a toalha do rosto e tentando forçar um sorriso que não chegou aos olhos.

— Eu não gosto de te ver assim, Cá. — Ela se aproximou, o tom de voz suavizando. — Tem algo que eu possa fazer? Sério.

— Você já faz, Macris. Você me atura — respondi, levantando-me e dando um abraço apertado nela, tirando-a do chão apenas para sentir que algo no mundo ainda era sólido.

— Ainda bem que você sabe! — Ela riu, me dando tapinhas nas costas. — Mas escuta: você precisa de um tempo. Desconectar.

— Eu tive uma ideia — falei, soltando-a. — Descobri um vilarejo bem afastado, no litoral, quase fora do radar. Sem internet estável, com gente velha e sossegada... bem o meu estilo. Vou para lá esse fim de semana.

Macris sorriu, aliviada. — Vá. Esfrie a cabeça. Nós queremos a nossa Gattaz de volta, aquela que brilha. Boa viagem. E cuidado... eu te amo, viu?

Eu me segurei para não desabar ali mesmo. O "eu te amo" da Macris me lembrou de como era bom ser amada sem condições, e de como eu vivia um luto interminável por alguém que ainda estava vivo, mas que decidira morrer para mim.

O Fogo e o Destino


Peguei o carro e peguei a estrada. O que deveria ser uma viagem de duas horas transformou-se em cinco. O calor era insuportável e o céu estava manchado por uma fumaça cinza e densa. Focos de incêndio na vegetação lateral castigavam o trajeto. Quando finalmente cheguei ao acesso do vilarejo, precisei manobrar entre buracos e terra seca.

A calmaria que eu buscava não existia.

O pequeno Vilarejo estava em estado de guerra. O incêndio havia chegado às bordas das casas. Homens, mulheres e crianças corriam com baldes, as roupas sujas de fuligem, os rostos marcados pelo desespero. Estacionei o carro de qualquer jeito, o instinto de atleta e de ser humano assumindo o controle.

— No que posso ajudar? — gritei para um rapaz que corria com uma mangueira furada.

— Você é a Caroline? — Ele parou, ofegante. — Sou o Danilo, da pousada. Não consegui te avisar para não vir... estamos sem sinal, as linhas queimaram.

— Não importa, Danilo. Me diz onde eu sou mais útil.

Ele me entregou um balde e apontou para a capela de pedras no centro da vila. — Atrás da capela tem um poço. Estamos fazendo uma corrente humana. A casa da vizinha está começando a pegar no telhado!

Não pensei. Corri. O peso do balde cheio, o esforço repetitivo, a fumaça invadindo meus pulmões... por algumas horas, a dor da alma foi substituída pelo cansaço do corpo. Trabalhamos juntos, desconhecidos unidos pelo medo de perder o pouco que tinham. Quando o último foco de incêndio foi debelado sob os aplausos emocionados da vila, eu me senti em paz. Aquelas pessoas não tinham nada, mas tinham umas às outras.

Eu conversava com Danilo, limpando o suor e a fuligem do rosto, quando um grito agudo cortou a celebração.

— Socorro! Alguém ajude! A Maria entrou em trabalho de parto!

— A contração dela tá muito forte! — gritava uma mulher idosa. — Ela vai parir agora e a parteira foi para a cidade vizinha por causa do fogo!

O pânico mudou de direção. As pessoas começaram a correr para uma trilha estreita que levava a uma casa mais afastada, perto de uma encosta que dava para o mar. Eu fui junto, movida por uma curiosidade ansiosa e uma vontade de ajudar.

"Não tem médico aqui", pensei, "não tem hospital, o fogo isolou a estrada..."

Cheguei à casa. O falatório era ensurdecedor. Mulheres entravam e saíam com panos quentes. Eu, com meus quase dois metros de altura, conseguia ver por cima das cabeças. Forcei passagem, o coração martelando contra as costelas sem que eu soubesse o porquê.

Eu parei. O mundo congelou. A fumaça lá fora parecia ter entrado nos meus olhos, pois eu não conseguia acreditar no que via.

Ali, deitada sobre uma cama simples, com o rosto banhado de suor e lágrimas, os cabelos loiros grudados na testa e soltando um grito de dor lancinante enquanto segurava o próprio ventre enorme, estava ela.

Rosamaria.

A minha Rosa. Desaparecida, grávida e prestes a dar à luz no meio das cinzas de um incêndio.

Entre fogo e CinzasStories to obsess over. Discover now