Prólogo

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São nove horas da noite. Uma brisa fria permeia por entre os cômodos da casa, obrigando-o a ligar o aquecedor central em pleno verão, assim saindo de seu quarto de onde passou boa parte do dia. Seu caminhar sereno passa pelo corredor, as mãos afundadas no bolso do casaco, sem contar os fones de ouvido que parecem nunca descarregar. Caminha pelos quadros já habituados e os vasos de plantas artificiais — ora, não se pode deixar plantas de verdade em casa! —, sempre imerso na música que tocava, sempre a mesma que ouvia quando precisava respirar fundo antes de entrar na cozinha.

Eram dois pares de olhos atentos. Olhos aqueles que pertenciam a quem se definia como seu porto seguro, porém não era bem o que dizia seu diário. Os olhares procuram em si algo, ele tentando se concentrar na música enquanto o silêncio preenche aquele ambiente a ponto de o sufocar. "Freedom! Freedom! I can't move." São letras que faziam sentido na sua cabeça, mesmo ele se movendo normalmente pelo cômodo, até parar ao ouvir o primeiro tiro.

— Boa noite, filho — diz ela, movendo seu olhar momentaneamente para seu tablet e após volta para ele.

— Boa noite, mãe — responde, mantendo a casualidade.

O outro par de olhos paira sobre os dois, abaixando para ler um jornal que com certeza ele já terminou de ler umas quatro vezes. Esse par em específico não costuma falar, se mantendo na encolha desde o que foi a revelação que o fez girar uma nova chave em seu consciente, direto do abismo do inconsciente.

Logo então, após o primeiro tiro, ele volta a se mover pela cozinha, mais seguro de que nada naquele momento acarretará algo mais sério. Convenhamos, por que se sentir inseguro perto dos seus pais? São seres dotados de amor incondicional por você desde seu nascimento, não fariam nada para te machucar ou que não fosse para seu bem. Ou você só quer romantizar um abuso parental ao afirmar isso continuamente para si, não é, Dylan? Ele se perde em seus pensamentos enquanto prepara um simples sanduíche, nada de mais, até que o segundo tiro é dado.

— Você mal saiu do quarto hoje.

Ele olha para a parede, fechando a sanduicheira enquanto pensa numa resposta rápida que o livrasse das diversas situações que poderia desaguar daquela simples frase. Rápido, certeiro e educado, sem perder a casualidade.

— Estava desenhando e lendo um livro — Mentira.

E volta-se o silêncio, tão palpável quanto a trava da sanduicheira, que ele não soltou desde que pôs a perfeita combinação do pão integral, queijo, carne desfiada e alface. Os dois pares de olhos se levantaram simultaneamente, observando-o de costas para eles, imaginando o que dizer, fazer ou julgar. Imóvel, seus dedos começam a perder a cor ao segurar a sanduicheira com tanta força, a música ainda ecoando nos seus ouvidos enquanto ele implora para que o terceiro tiro não venha. Porém, pasme, ele vem.

— Então, você passou o dia inteiro trancado, desenhando e lendo? — Ela arqueia aquela sobrancelha, como se fosse um ímã que o fizesse rapidamente olhar para seu rosto. — Creio que está queimando.

Seus dedos descansam a partir do desespero, logo abrindo a sanduicheira para passar seu lanche noturno para um prato branco, sem nenhuma sujeira. O espaço se preenche de silêncio novamente, e ele crê fortemente que está liberado, até se virar e se deparar com aquele par de olho fixo nele, obviamente lembrando da pergunta que fez.

— Sim... — diz baixo, segurando o prato como se sua vida dependesse dele.

— Eu sou sua mãe... — Sempre essa merda de frase. — Sei quando está mentindo.

Ele respira fundo. Em sua consciência, o ringue estava montado, os lutadores já aquecidos e prontos, ansiando pelo confronto, desejando cada um a vitória. O aquecedor não resolve o frio que passa pela sua espinha, ele pensa subitamente sobre mentir ou contar a verdade que com certeza piorará o que já está ruim.

Tutorial De Como Estragar Seu VerãoWhere stories live. Discover now