Eu sentia como se minha cabeça estivesse prestes a explodir. A luz da lâmpada do meu quarto penetrava meus olhos, parecendo atingir diretamente meu cérebro. Eu havia acabado de chegar em casa, após ir à faculdade para trancar meu curso definitivamente. Não que eu não gostasse de jornalismo – na verdade, eu realmente gostava – mas já não me identificava mais com a área. Meus pais, claro, desaprovaram minha decisão. Para eles, quatro períodos não eram suficientes para eu decidir se gostava ou não do curso. Mesmo assim, permitiram que eu trancasse, desde que eu fizesse outra coisa. Já me inscrevi no cursinho pré-vestibular e entreguei alguns currículos, mesmo assim, a sensação de que estou constantemente tomando decisões erradas continua a me atormentar. Tudo começou quando entrei na faculdade. Passei no vestibular de primeira, aos 18 anos, conquistando o segundo lugar em uma universidade pública. Meus pais ficaram orgulhosos, ainda mais porque a faculdade era perto de casa, o que significava que eu não precisaria morar sozinha. No entanto, após dois anos de curso, percebi que aquilo não era o que eu realmente queria. Trancar o curso parecia a decisão certa, mas, no momento em que o fiz, senti uma pontada no estômago, como se estivesse novamente cometendo um erro. Depois de trancar o curso, os dias começaram a passar devagar, como se o tempo tivesse perdido seu ritmo. A cada manhã, eu acordava com uma sensação de vazio, uma ansiedade que se espalhava por todo o meu corpo antes mesmo de abrir os olhos. A rotina de estudar para o cursinho e entregar currículos me dava uma sensação de propósito, mas não preenchia a lacuna que o jornalismo havia deixado. Eu me pegava pensando constantemente se havia outra escolha, outro caminho que eu poderia ter tomado. O que teria acontecido se eu tivesse me forçado a continuar? Teria eu encontrado algum sentido, alguma paixão, se tivesse insistido um pouco mais? Esses pensamentos me acompanhavam como uma sombra, presentes em cada decisão que eu tomava, grandes ou pequenas. Meus pais, embora tentassem disfarçar, estavam decepcionados. Não disseram nada abertamente, mas seus olhares preocupados e silêncios pesados falavam por si. Sentia como se eu tivesse falhado com eles, como se tivesse quebrado uma promessa silenciosa de seguir um caminho que, para eles, era seguro e certo. Uma noite, enquanto revia minhas anotações para o cursinho, algo dentro de mim quebrou. Fechei os livros e, pela primeira vez em semanas, permiti-me sentir a confusão e o medo que eu vinha tentando ignorar. Chorei silenciosamente, não apenas por ter trancado o curso, mas por todas as expectativas não cumpridas – as minhas, as dos meus pais, as de um futuro que parecia ter sido apagado de repente. A sensação de estar parada no tempo é esmagadora. Enquanto todos ao meu redor parecem avançar, sinto como se estivesse congelada em uma fase da vida que deveria ter ficado para trás. Meus amigos, aqueles com quem compartilhei sonhos e planos no ensino médio, agora estão na metade de cursos universitários que amam, já pensando em estágios e carreiras brilhantes. Alguns até foram além, construindo seus próprios negócios, lançando marcas, organizando eventos, mergulhando de cabeça em projetos cheios de propósito e paixão. E eu? Eu ainda estou no cursinho, revendo as mesmas matérias, dia após dia, esperando passar em algum vestibular. Mas o problema real é que eu não faço a menor ideia de qual curso eu realmente quero. Jornalismo, pensei, seria a escolha certa, mas agora parece um erro, ou pelo menos uma decisão precipitada. E qualquer outra opção que eu considere agora me parece carregada de incerteza, como se qualquer escolha fosse só mais uma chance de falhar novamente. Para completar, arranjei um emprego de atendente em uma loja de cosméticos. Não é que eu odeie o trabalho; pelo menos me mantém ocupada e me dá alguma independência financeira. Mas não consigo evitar a comparação. Enquanto meus amigos estão construindo futuros que parecem brilhantes e significativos, eu estou aqui, atrás de um balcão, ajudando clientes a escolher batons e cremes, sentindo que cada dia que passa estou ficando ainda mais para trás. Essa sensação de estar estagnada, de ver o tempo passar enquanto todos os outros avançam, me sufoca. É como se eu estivesse assistindo à vida pela janela, enquanto todos correm em direção a algo que amam e eu fico aqui, sem saber sequer para onde estou indo. Cada escolha parece um labirinto sem saída, e a única coisa que consigo sentir é uma mistura de frustração e medo, uma ansiedade constante que me faz questionar se algum dia vou encontrar meu próprio caminho. Eu preciso me encontrar!
YOU ARE READING
Ponto de vista
RomanceIsabel, uma jovem de vinte e poucos anos, encontra-se presa em um ciclo de incertezas. Após iniciar a faculdade de jornalismo e perceber que aquele não era o caminho certo, ela tranca o curso e volta para o cursinho pré-vestibular, dividindo seu tem...
