Sob o Luar

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Crepúsculo Noturnal... adiantava às parcas estrelas o brilho de uma lâmpada incandescente. Na Beira-Mar, se há morada são principalmente por hotéis. Mas há um lugar, no n°..., por entre os prédios e os bares e os comércios, onde fica uma casa...minha casa, de que outrora eu poderia chamar de "nossa" casa. Os rumores dizem que será logo vendida, velha e luxuosa para alguns padrões, a fim de virar museu quando eu me for ou quem sabe seja só um estacionamento ou franquia do McDonald's, quem sabe até as duas coisas. Lá eu, no alpendre, avultava minha vista ao horizonte de além-mar, sentia o cheiro incômodo do cigarro que fumava. Antigamente preferia cachimbos para degustar como um intelectual de livros antigos e clássicos colecionados. Talvez eu nunca tenha sido o primeiro, mas certamente fui o segundo. E digo fui porque não sou mais, não depois que perdi-a.

A Lua passeava sobre as ondas e seu brilho de Cheia era cintilante, enorme e sobrelevante de caráter. Era realmente um belo luar... Naquela noite eu esquentava as memórias d'outra noite naquele mesmo dia do calendário. Meus ânimos raresciam e eu sentia que precisava vencer o sono constante da melancolia com algum afazer profundo que despertasse em mim os desejos ainda vivazes que, quem sabe, habitassem no fundo de meu espírito. Por Deus... aquele luzir da Lua sobre o mar alembrava-me dos versos bíblicos: "[...]as trevas cobriam o abismo e o Espírito de Deus pairava sobre as águas." Pensei numa piada besta quando acendi a lâmpada por isso. "Fiat Lux", eu disse. Minha velha diria que eu estava sendo engraçadinho e por minha consciência escrupulosa eu benzeria-me disfarçadamente pedindo perdão como se a venialidade de um quase pecado ofendesse ao Senhor mais do que qualquer outra coisa pensável naquelas horas tranquilas. Eu estava sozinho, sentindo-me ilhado no meu... "palácio".

Resolvia, então, calar meus maus pensamentos com uma leitura de Flaubert. Estava tão cansado e atônito que mal conseguia entender o que lia, mas seguia linha após linha, parte após parte, algo num conto que falava de..."Felicidade". Chersterton diria que essa é a preocupação mais nobre do homem comum, a ser alcançada no conforto do lar. Eu já não encontrava-me em minha própria casa senão pelas tenras memórias de uma família cujos filhos renegavam-nos. E pensando nestes textos imaginei qual seria o paradoxo daquele contexto: os supostos entendidos do assunto muitas vezes encantam-se com a ideia de que a felicidade seja algo passageiro e de que não haja propósito nenhum na realidade metafísica das coisas, a não ser pelas falhas de tudo e de como tudo parece se enveredar por um abismo sem nexo. Eu sempre achei esse tipo de ideia um absurdo, mas já não tinha tempo para discussões e digressões filosóficas ou mesmo literárias. Eu queria a felicidade de Deus, finalmente, no encontro com minha amada Joyce.

Não poderia matar-me, seria um pecado mortal tamanha era minha consciência religiosa; não poderia recorrer aos meus filhos, que só desgostavam-me, trazendo-me ainda mais infelicidade; não gostava de escrever sobre as memórias de minha querida ou mesmo me defrontar com elas em reimaginações. Era tudo doloroso demais... Eis que pensei no meu último afazer: passar o tempo pescando num barco pequeno que comprei de um primo e que, ria-se, eu levava Joyce para passear com vinho. Segui, então, e assim caminhei até a areia da praia. Senti o frio arenoso entrelaçar os dedos de meus pés, molhei os pés na água, agachei-me e deixei o frescor salgado das águas oceânicas banharem meu rosto em repetidos movimentos de arremesso com as mãos cheias em concha. Despertei, caminhei até o barco, parti.

Louco é quem pesca a noite, mas eu não estava lá exatamente para pescar. Se pudesse, gostaria de ver os peixes saltarem. Remei, remei, remei, deixei o barco flutuar. Não peguei um único peixe, até que, já há muito distante de onde havia partido, avistei a Ponte Metálica. Um jovem casal namorava à borda da extremidade, suas falas perdiam-se no quebrantar das ondas nas rochas. Eu continuava fumando meu cigarro. Bem, já não sei mais qual era àquela altura, fazia do vício um caminho para a morte. A tosse pigarreada e a velhice, viver à margem da vida, no limite de sua negação... eu poderia deixar-me levar pelo orgulho do mar naquela hora.

Tinha comigo uma caixinha de som, deixei tocar "Seguir Viagem", dos Engenheiros do Hawaii, minha banda favorita desde os anos 80; deitei-me no barco, tirei um livro: A Divina Comédia. Abri no capítulo da selva dos suicidas. Li aquilo pela sei-lá-qual-mais-uma-vez...e refleti. Deixava-me boiar no balançar das ondas. Foi quando ouvi uma voz, uma doce voz infantil, inocente. Vinha dum pequenino, sentado à beirada do barco. Ele olhava-me como um, como um...talvez como aquele garoto do livro "O Pequeno Príncipe". Sim, ele parecia um príncipe sentado, com gentileza e incisividade no olhar. Eu fitei-o, perguntei-me quem seria, não estranhei.

— Você vai ficar aí a noite toda? – perguntou.
— Talvez. Por quê? – respondi com indiferença.
— É perigoso. As ondas vão te levar pra longe, como vai voltar?
— Talvez eu não queira voltar.
— E se mudar de ideia?
— Aí já não haverá mais volta.
— E vai deixar por isso?
— Quem sabe...
— Você não parece saber de muita coisa. Pelo menos não o que fazer.
— É... – dei um tênue riso triste. – eu realmente não sei. – Mas e você? Como chegou aqui?
— Você sabe, eu vim te visitar.
— Agora? Não deveria ter vindo antes?
— Eu não sou você para ficar te seguindo, sou?
— O que quer dizer?
— Você tinha uma boa esposa, ela foi uma boa mãe também! Não precisava de mim para se preocupar.
— Talvez eu quisesse me preocupar, acho que nunca deixei de estar preocupado, na verdade.
— É... é mesmo. Mas esse é seu jeito, não é?
— E esse é o seu. – sorri, ele sorriu de volta.
— Você lembra bem dela?
— Ah, se lembro... como se o tempo não tivesse passado. Ainda me sinto preso àqueles dias.
— Do que mais lembra? De quando ela partiu?
— Não...eu me lembro mais das alegrias que ela me trazia. Lembro dela vestindo aquele redingote variegado, regateando nas coisas da casa, sempre preparando uma receita nova.
— Seu alvitre é cheio de palavras difíceis. – ri da ironia, era de fato uma criança sábia.
— É, eu posso dizer que sou telúrico. Ela não, ela foi feita para as estrelas...
— Do que mais lembra dela?
— Ah, de muitas coisas...mas principalmente...do dia que aprendi a beijar. – sorri bobo, corado.
— É o tipo de coisa que mais encantam as crianças quando querem crescer. – ele riu, eu também. – Como foi?
— Chovia. Estávamos debaixo das palmas de um coqueiro. Era só um chuvisco, mas proteger-se ali nos dava mais proximidade. Nossa amizade era do tipo que dava saudade na distância. Observávamos o mar e os navios negros de carga ao longe, os luzeiros no céu noturno. Acho que retiramos todo orgulho do mar, quando o envergonhamos com nossos gracejos, nossas carícias. As palavras ao vento, os olhos voltados sobre às águas. Ela estava distraída, eu alimentava minha vista com o negro mármore de sua pele, deixava arderem os meus desejos, até cessarem num plácido fulgor de...amor. Eu a beijei de surpresa... e ela retribuiu.
— Deve ter sido um momento mágico...
— E foi! Ah, como foi... – parei um momento, ele silenciado, respirei fundo. – é agora.
— Sim. – disse ele com uma meiga seriedade.
— Eu nem percebi...foi difícil?
— Não permiti.
— Obrigado, obrigado.

Calados ficamos e um numinoso momento ocorreu-me: vi as estrelas brilharem mais do que nunca. Sabe-se lá onde estava no mar, mas as ondas arrastaram-me de volta. A cadeira de balanço balançava no alpendre; na areia da praia aquele casal encontrou meu barco. Eu havia fechado os olhos e adormecido, sentindo o maior esforço estufar em meu peito ao inspirar o ar daquele céu estrelado sob o luar. Então, noutro instante perguntei ao garoto:

— Que me aconteceu... Emanuel?
— Você descansou, eu te velei e ela te abraçou.
— E então?
— E assim foi.

Assim passaram-se os últimos momentos do velho amado de Joyce, qual magia ele viveu mais que nunca, e então...morreu.

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