O riso abafado e cúmplice chegou aos meus ouvidos antes mesmo de o sininho da porta anunciar minha entrada na livraria.
A manhã havia sido uma corrida interminável e, no meio da pressa para almoçar, esqueci minha carteira sobre a mesa. Só percebi quando estava quase chegando ao restaurante e precisei voltar. Estava com pressa para recuperá-la, mas algo naquelas risadas me fez parar. Olhei para o fundo da livraria e Ruan, meu namorado, estava lá, de costas para mim, inclinado sobre o balcão onde Samantha estava.
Estavam perto demais um do outro, o tipo de proximidade que não passava despercebida. Eles riam juntos, mas não era uma risada comum, daquelas que se ouvem entre colegas ou amigos. Era uma risada entrecortada, íntima, carregada de um significado que eu não conseguia definir, mas que apertava meu peito.
Enquanto me aproximava, Samantha levantou o olhar e, ao me ver, seus lábios se curvaram em um sorriso lento, afiado. Não havia qualquer vestígio de simpatia naquele sorriso; o que me fez sentir como uma peça fora do lugar.
- Emilly! - Ruan virou-se com um movimento brusco, os olhos arregalados por um breve segundo antes que ele tentasse recompor a expressão. - Que... que bom que voltou.
Ele parecia querer soar casual, mas a tensão em sua voz e o gesto nervoso de coçar a nuca o traíram. Eu conhecia bem aquele gesto. Ele só o fazia quando estava desconfortável. Ou mentindo.
- Esqueci minha carteira - disse, mantendo o olhar firme nele, tentando ignorar o calor desagradável que subia pelo meu corpo. - O que você está fazendo aqui?
Ele hesitou, os olhos desviando dos meus por um instante, antes de voltar ao rosto de Samantha, que agora cruzava os braços e me observava como se estivesse assistindo uma peça de teatro.
- Eu... queria fazer uma surpresa para você - começou ele, a voz baixa e incerta. - Te levar para almoçar, mas... Samantha estava me explicando que você já havia saído.
Ele não me olhou nos olhos enquanto falava, e isso me atingiu com mais força do que qualquer coisa.
Desde quando Ruan fazia esse tipo de surpresa? Ele nunca foi do tipo impulsivo, muito menos romântico. Na verdade, ultimamente, ele quase não demonstrava interesse ou fazia qualquer esforço pelo nosso relacionamento.
- Que surpresa agradável, não é? - disse Samantha, arqueando uma sobrancelha enquanto um sorriso malicioso dançava em seus lábios.
Havia algo nos olhos dela, algo desafiador, como se estivesse me testando, esperando para ver como eu reagiria.
Minha mente começou a girar, uma tempestade de perguntas, dúvidas e medos se formando a cada segundo que passava.
Eu queria acreditar em Ruan, queria confiar na explicação simples que ele me deu, mas o desconforto em seu rosto me dizia outra coisa.
- Certo - disse eu, forçando um sorriso que mal parecia meu enquanto pegava minha carteira. - Vamos, então.
Enquanto nos afastávamos, pude sentir os olhos de Samantha queimando em minhas costas, como se ela ainda estivesse se divertindo com a cena que acabara de presenciar. E minha mente corria em círculos, tentando buscar algum detalhe esquecido, algum sinal que eu pudesse ter ignorado. Mas não havia nada. Ruan e Samantha nunca foram mais do que meros conhecidos. Até aquele momento, nunca tive motivos para desconfiar de algo diferente.
Ruan segurou minha mão, um gesto que, em outras circunstâncias, me traria paz. Mas seu toque parecia distante, vazio de significado. As perguntas ecoavam na minha cabeça, cada uma mais perturbadora que a anterior.
O que realmente estava acontecendo entre eles? Por que Ruan foi à livraria sem me dizer nada? Ele sempre foi tão previsível.
O silêncio entre nós pesava no ar, carregado de palavras não ditas. Finalmente, incapaz de aguentar por mais tempo, rompi o silêncio.
- Por que você não estacionou na frente da livraria? - perguntei, me esforçando para manter a voz leve, quase casual, apesar da inquietação que borbulhava por dentro.
Ruan desviou o olhar por um instante, como se estivesse escolhendo as palavras com cuidado, e então respondeu com um tom ensaiado demais para o meu gosto.
- Precisava sacar dinheiro no caixa eletrônico que fica na outra quadra - disse ele, dando de ombros. - Depois, pensei que não faria mal nenhum caminharmos um pouco.
Algo na resposta dele não me soou certo. Não era típico de Ruan evitar estacionar perto de onde ia, ainda mais quando havia vagas de sobra. Essa desculpa soava apressada, como se estivesse encobrindo algo.
- Não é algo que você costuma fazer - murmurei, sem conseguir esconder a nota de desconfiança que escorregou pela minha voz.
Ele encolheu os ombros mais uma vez, os olhos voltados para o chão, evitando o meu olhar.
- Só achei que seria uma boa ideia, nada mais - disse ele, mas suas palavras estavam despidas de convicção.
O desconforto no meu peito se intensificava a cada passo que dávamos pela rua tranquila. O som dos nossos sapatos ecoando no asfalto parecia o único ruído no mundo, mas minha mente estava longe de qualquer tranquilidade.
Engoli em seco, sentindo o peso da dúvida se acomodando em meus ombros.
- E o que te deu para aparecer no meu trabalho assim, de repente, com essa surpresa? - perguntei, tentando manter o tom neutro, mas sentindo minha voz tremer levemente ao final.
Ele hesitou, e por um segundo, pensei ter visto algo cruzar seu olhar antes de ele voltar a me evitar. Suas mãos escorregaram para os bolsos, e ele deu um passo à frente, aumentando a distância entre nós, mesmo que apenas simbolicamente.
- Eu só... - começou ele, a voz quase um sussurro. - Só achei que seria bom te ver, fazer algo especial. A gente não tem tido muito tempo juntos.
Um almoço surpresa não parecia ser a solução típica dele. Não consegui evitar a sensação de que havia algo mais por trás dessa história.
- Certo - respondi, finalmente, tentando esconder minha insatisfação. - Vamos ver se isso ajuda, então.
Entramos no carro e assim que a porta se fechou, o ambiente ficou ainda mais pesado.
- Você parecia bem íntimo de Samantha lá dentro - comecei, sem rodeios.
- Emilly, você está exagerando - ele disse, o tom de voz controlado. - Estávamos só conversando. - Ruan suspirou, ligando o motor.
- Conversando bem perto, pelo que vi - retruquei, minha voz carregada de incredulidade.
- Ela estava me falando que não dei sorte de pegar você lá a tempo. - Deu de ombros, os olhos fixos na rua à frente, sem sequer me encarar. - Você está com ciúmes sem motivo - disse ele, como se estivesse explicando a coisa mais simples do mundo.
- Não pareceu só isso. Parecia... diferente - insisti, minha voz mais firme agora, como se finalmente estivesse verbalizando o que realmente me incomodava.
- Você não está num bom dia, não é? - resmungou ele, acelerando o carro como se quisesse deixar aquela conversa para trás. - Não tem nada demais nisso, Emilly. Você precisa confiar mais em mim. - Ele apertou o volante, seus dedos brancos pela força, e soltou um suspiro impaciente.
Confiar.
A palavra reverberou na minha mente.
Ele só estava piorando a situação e tentando desviar a conversa. Eu sempre confiei em Ruan, mas cada resposta evasiva parecia um teste à minha paciência e à minha inteligência. Ele não estava me dando respostas, apenas desculpas que me faziam duvidar ainda mais.
O silêncio voltou a se instalar, denso e pesado, enquanto o carro seguia pelas ruas. Nenhum de nós ousava quebrá-lo, e o trajeto, que normalmente seria confortável, agora parecia interminável.
Depois de alguns minutos que pareceram uma eternidade, Ruan finalmente parou o carro em frente ao meu restaurante favorito. Ele virou-se para mim, seu rosto moldado em uma expressão de sinceridade que parecia ensaiada.
- Por favor, Emilly, confia em mim - disse ele, com a voz calma, enquanto se inclinava para me beijar.
Seus lábios encontraram os meus, mas o gesto, que em outros tempos teria sido reconfortante, agora parecia frio, distante.
Tudo o que eu queria era sair do carro, terminar aquele dia e me refugiar no meu quarto, na solidão da minha cama. Lá, talvez, eu pudesse finalmente pensar com clareza.
Forcei um sorriso para Ruan, tentando mascarar o turbilhão de pensamentos que giravam dentro de mim, enquanto buscava, sem sucesso, vestígios daquele homem que conheci no início do nosso relacionamento, há dois anos.
Ruan sempre teve uma presença marcante. Com seus ombros largos e sua altura imponente, ele não passava despercebido. Sua beleza não estava nas feições perfeitas, mas no charme natural que atraía olhares por onde quer que passasse. Agora, com quase 27 anos e formado em engenharia civil, trabalha em tempo integral na incorporadora de seu pai, Rômulo, que o pressionou a seguir essa carreira. Atualmente, Rômulo deseja que ele curse uma pós-graduação em administração para, no futuro, assumir a empresa da família.
Mas a história de Ruan é mais complicada do que aparenta. Seus pais, Rômulo e Vanuza, se separaram há um ano, e a sombra daquele divórcio ainda paira sobre todos. Rômulo traiu Vanuza com sua secretária, Loren, uma mulher três anos mais jovem que o próprio Ruan. A traição devastou a família, e as feridas ainda não cicatrizaram. Desde o divórcio, Vanuza tornou-se uma figura amarga, carregando sua dor como uma bandeira, e sua relação comigo sempre foi complicada.
Desde que começamos a namorar, percebi que meus sogros nunca, realmente, me aceitaram. Eu sabia que não era por quem eu era como pessoa, mas pelo que eu representava - alguém de fora do círculo social ao qual pertenciam.
Ainda me lembro da primeira vez que fui almoçar na casa deles. Vanuza me olhou dos pés à cabeça assim que entrei, como se avaliasse cada detalhe da minha aparência. Naquele dia, eu usava um vestido de malha leve e uma rasteirinha. Meus cabelos ruivos e longos, estavam presos em um rabo de cavalo. Para mim, eu estava perfeitamente apresentável.
- Vocês estão vindo da praia? - perguntou ela, com um sorriso forçado, enquanto seus olhos examinavam minha roupa.
Aquele comentário, embora aparentemente inocente, me fez queimar de vergonha. Desde então, nunca mais me senti à vontade na casa deles. Só ia quando era absolutamente necessário - aniversários, eventos familiares. E mesmo assim, fazia questão de sair o mais rápido possível. Após o divórcio, Vanuza ficou ainda pior. A traição a deixou mais amarga e era como se, de alguma forma, sua frustração se refletisse em mim.
O almoço surpresa de Ruan foi indigesto. O ambiente estava carregado de silêncios desconfortáveis, e o clima pesado entre nós parecia sufocar qualquer tentativa de conversa. Cada garfada de comida era difícil de engolir, meu estômago revirando enquanto minha mente voltava repetidamente à cena da livraria.
Depois de Ruan pagar a conta e caminharmos até a porta de saída do restaurante, ele parou por um instante, olhou para mim e, num esforço quase palpável, tentou esboçar um sorriso fraco.
- Vou te levar de volta para a livraria - disse ele, tentando encontrar algum terreno comum, uma conexão perdida entre nós.
- Prefiro ir caminhando - respondi, sem rodeios. - Como faço todos os dias quando almoço sozinha - alfinetei.
- Tem certeza? Podemos conversar mais no caminho. - Ruan insistiu, mas de maneira tímida.
Balancei a cabeça. O nó na garganta crescendo.
- Não, obrigada. Preciso de um tempo para pensar. - Minha voz saiu determinada, apesar da tempestade interna.
Ele hesitou, seus olhos buscando algo em mim. Talvez uma confirmação de que tudo ficaria bem. Mas ele não insistiu mais, como um bom namorado faria. Apenas se inclinou e me deu um selinho, o toque de seus lábios nos meus tão leve quanto efêmero.
- Até mais tarde, Emilly - disse ele, virando-se e indo em direção ao carro.
Saí em disparada pelas ruas, tentando manter meus pensamentos sob controle, mas a proximidade suspeita entre Samantha e Ruan continuava a me assombrar, a cena repetindo-se em minha mente como um filme perturbador. Eu ainda tinha o resto do expediente pela frente e só de pensar em enfrentar Samantha, com aquele sorriso afiado e olhar cínico, meu estômago se revirava.
Desde o acidente que tirou a vida da minha família, há pouco mais de um ano, tudo ao meu redor perdeu a cor. Eu, então com 23 anos, vi os meses se arrastando, como se o tempo tivesse perdido o sentido. Laura, sempre presente em minha vida desde que eu era criança, foi um verdadeiro anjo durante esse período sombrio. Como dona da BookStok e alguém que sempre considerei minha segunda mãe, me deu uma licença prolongada, na esperança de que eu conseguisse, de algum modo, juntar os pedaços da minha existência despedaçada.
Antes, éramos apenas eu e Laura. Eventualmente, Marcos, seu marido, nos dava uma mão quando não estava imerso escrevendo livros de ficção histórica para seu pequeno, mas fiel grupo de leitores.
Depois, na minha ausência, Laura precisou de ajuda para manter a livraria funcionando. Foi quando Samantha apareceu, contratada para preencher o espaço que deixei.
Quando finalmente voltei ao trabalho, o peso da perda ainda me acompanhava, mas me forcei a seguir em frente. O que encontrei, no entanto, foi um lugar diferente. Não era mais o refúgio familiar e acolhedor de antes. A presença de Samantha transformou o ambiente. Laura, tentando me ajudar a ocupar a mente e ao mesmo tempo me agradar, me promoveu a gerente. Por um tempo, isso funcionou. Eu precisava do trabalho extra para preencher meus pensamentos e manter a dor à distância.
Passado alguns meses, Laura começou a se ausentar com frequência e sua presença deixou de ser diária. Ela queria tempo para si mesma, o que deixava a livraria sob minha responsabilidade. O peso das tarefas acumuladas me sobrecarregou, mas de certa forma isso me ajudava a não pensar demais. No começo, Samantha parecia ser uma boa adição. Ela era prestativa, sorridente, e até conseguia ser agradável de vez em quando. Porém, à medida que Laura confiava cada vez mais nela, sua postura foi mudando. O que antes eram apenas pequenas discordâncias, se transformaram em competições sutis. Pequenos jogos de poder, como se estivéssemos lutando por um território invisível.
Samantha era menor que eu, mas sua presença parecia maior. Seus longos cabelos loiros e ondulados eram sua marca registrada, sempre impecavelmente hidratados. Com apenas 19 anos, ela se vestia como uma femme fatale, roupas apertadas, decotes profundos e saltos altos que ecoavam pelo chão da livraria. Era como se ela estivesse em uma passarela, não em uma loja de livros. Gastava cada centavo do salário em roupas, sapatos e bolsas, sempre pedindo adiantamentos para cobrir as dívidas que acumulava.
Laura, com seu jeito gentil e avesso a confrontos, nunca reclamou sobre o comportamento de Samantha, muito menos sobre suas roupas. Ela nunca gostou de agir como chefe e evitava qualquer tipo de conflito. Agora, com as responsabilidades da gerência sobre os meus ombros, Laura se sentia aliviada por não ter que lidar com isso. Eu, por outro lado, precisava encarar o que ela ignorava.
Nunca fui o tipo de pessoa que alimenta intrigas. Sempre valorizei a harmonia, pois evitar confrontos parecia mais fácil do que lidar com as consequências. Mas, depois da cena que vi, algo mudou. A maneira como Ruan e Samantha estavam juntos, as risadas cúmplices, o sorriso calculado dela... Uma semente de desconfiança brotou em mim.
Nas raras vezes em que Ruan apareceu na livraria, ou nas poucas ocasiões em que cruzamos com Samantha fora do trabalho, a interação entre eles sempre foi superficial. Algumas palavras trocadas de maneira cordial, sorrisos educados, mas nada que se aproximasse de uma amizade. Nunca houve proximidade suficiente para justificar a cena que presenciei.
Chegando à livraria, fui recebida por uma surpresa inesperada, mas, dessa vez, uma boa. Laura estava lá, e seu abraço caloroso e os beijos leves nas bochechas trouxeram um raro momento de conforto em meio ao turbilhão do dia.
- Você não parece nada animada hoje - comentou ela, seu rosto desenhando uma expressão preocupada. - Pensando na sua família? - perguntou com a suavidade de quem conhece bem minhas feridas.
Suspiro, tentando esconder a dor que sempre está ali, mas que hoje está agravada por outros motivos.
- Eu penso neles todos os dias - admiti, minha voz mais baixa. - Mas hoje o motivo é outro. - Meu olhar percorreu o interior da livraria, à procura de Samantha. - Onde está ela?
- Samantha me mandou uma mensagem - explicou ela. - Pediu para sair mais cedo. Disse que tinha um problema pessoal urgente para resolver. Só não quis falar diretamente com você para não atrapalhar seu almoço romântico com Ruan.
- Almoço romântico? - repito, tentando não mostrar a surpresa em minha voz.
- Sim, até achei estranho. Vocês dois não costumam fazer esses almoços - comentou ela, ainda sorrindo, seu tom despreocupado. - Achei que você voltaria feliz depois disso. Mas parece que as coisas não saíram como o esperado, não é?
- É, não foi exatamente o que eu esperava. - Sorrio de volta, mas é um sorriso fraco, sem vida.
- Quer conversar sobre isso? - ela perguntou, com a delicadeza de quem sabia que algo estava errado. - Estou aqui para você, Emilly. Você sabe disso, né?
Laura me observou por um momento, e seus olhos, sempre tão acolhedores, refletiam a preocupação que ela sentia por mim. Era reconfortante saber que ela se importava, mas, naquele momento, eu não sabia se estava pronta para falar sobre o que me perturbava.
- Eu sei disso e agradeço muito, mas acho que não é uma boa hora. - Minha mente estava um caos, e eu precisava organizar meus próprios pensamentos antes de compartilhar qualquer coisa.
- Tudo bem, querida. Se precisar de qualquer coisa, estarei por aqui - disse ela, apertando minha mão com um carinho genuíno que me aqueceu o coração, mesmo que apenas por um breve momento.
Dei outro aceno de cabeça e me afastei, tentando me concentrar nas tarefas da livraria. Samantha não estava ali, o que, ao menos por enquanto, significava um problema a menos para enfrentar.
Chegando em casa no fim do dia, só queria um banho morno e demorado. O início do outono já trazia o começo do frio em Canoas. A casa, herança dos meus pais, era o meu refúgio, mas também um lugar de lembranças. Cada canto me remetia à família que perdi, como se as paredes ainda ecoassem suas vozes e risadas. As fotografias nas paredes, os móveis antigos, - tudo parecia carregar a presença deles, ainda que não estivessem mais aqui. Minha mãe, Celina, sempre gostou de encher a casa de flores, e meu pai, Breno, assim como eu, era apaixonado por livros, com prateleiras cheias deles por todos os cantos. Minha irmã, Liana, treze anos mais nova que eu, era a alegria diária que quebrava qualquer rotina monótona. Ela corria pela casa, sempre cheia de energia e desordem, tornando cada canto mais vivo.
Tudo isso ficou para trás. A casa estava silenciosa, os dias eram longos e as noites, vazias. Desde o acidente, vivo sozinha aqui, tentando preservar o que posso da vida que eles trouxeram para este lugar. Ruan me visita, mas tem dormido aqui cada vez menos. Laura, por sua vez, aparece de vez em quando, sempre trazendo alguma comida caseira deliciosa, pois ela sabe que muitas vezes acabo indo dormir sem comer nada.
Sem pressa, fui até o banheiro. Quando a água quente começou a escorrer pelo meu corpo, senti minhas lágrimas se misturarem com ela. Chorar no banho já havia se tornado parte da minha rotina. O som constante da água, o calor que envolvia meu corpo - tudo isso parecia me permitir, por alguns instantes, liberar uma fração da dor que carrego.
Saindo do banho, notei uma notificação no celular. Era uma mensagem de Ruan dizendo que não poderia vir à minha casa porque precisava chegar antes das 6 horas no trabalho no outro dia e não queria atrapalhar meu sono tão cedo assim. Visualizo a mensagem e não respondo. Já imaginava que ele não apareceria.
Vesti meu pijama mais confortável, o de flanela, que sempre me aquecia nas noites frias. A cama, de madeira escura com lençóis floridos, estava do mesmo jeito que eu a deixei pela manhã - totalmente desarrumada, assim como o resto da casa. Meu quarto era um pequeno consolo em meio ao caos, um lugar onde eu podia me perder nos meus pensamentos sem ninguém para me interromper.
Enquanto me deitava, Meau, meu gatinho, deu um pulo surpresa na cama, me assustando por um segundo. O pobre coitado estava faminto, e eu havia esquecido de colocar ração para ele. Relutante, saí da cama para alimentar o pequeno rabugento, que já começava a miar incessantemente, como se seu estômago vazio fosse o maior drama do mundo.
Depois de alimentá-lo, voltei para a cama, mas o peso da melancolia se instalou novamente ao meu redor, como uma manta sufocante que eu não conseguia afastar. As lembranças de minha família, a ausência de Ruan, a cena suspeita que flagrei, a solidão, tudo parecia me pressionar, comprimindo meu peito até que as lágrimas voltassem. Chorei em silêncio até que o sono finalmente me vencesse.
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Até que as Palavras nos Encontrem
Storie d'AmoreCOMENTEM SE QUEREM O CAPÍTULO 3 🥰 Será que uma carta perdida no tempo será capaz de unir duas almas que não se conhecem, mas se procuram? Em Até que as Palavras nos Encontrem, acompanhamos a jornada de Emily, uma jovem em luto após perder sua famíl...
