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— É uma honra.
— O que é uma honra?
— Ter você de corpo e alma.

[...]

Agora eu tenho que destruir o meu corpo, para consertar a alma que você quebrou.

[...]

O inverno sempre foi a estação favorita de Eloá. Quer dizer, quem não amava estar debaixo dos lençóis? Uma chuvinha sempre fora motivo para se trancar no quarto, como se não fizesse isso diariamente, principalmente quando um amontoado de pessoas - seus parentes - decidiam, subitamente, aparecer em sua casa. Não sabia como lidar com aquela gritaria, crianças correndo, pessoas falando em um tom tão elevado, que achava que ia explodir os tímpanos.

Porém, tudo isso parou.

Parou quando tragédias começaram a aparecer, repentinamente, rapidamente e mortalmente.

Como explicar o ano que tudo isso aconteceu? Um pós-ano novo. Uma vida nova, tudo estava fluindo bem, como deveria ser. Seu pai trabalhava veemente, estavam reformando a casa, a mãe vivendo feliz, o irmão... bom, o que falar de um adolescente? Não havia muito o que falar.

Porém, a vida é engraçada, principalmente o universo. Não que se deva ir contra o carma ou uma baboseira dessas que o Twitter inventa para atrair o público juvenil; não, não devemos ir contra.

A vida é uma merda, essa é a verdade.

O coração palpitava, o nervosismo evidente, a língua seca, dedos apertando as coxas. Aquele carro estava apertado demais, parecia que ia sufocá-la. Precisava contar duma vez.

Mas como dizer a sua mãe, a mulher mais feliz do mundo, que uma traição estava invadindo a família. Seu querido papai, havia a traído e seu irmão descobriu tudo.

Como já dito: a vida é uma merda.

Meses depois da saída do pai da casa da família, Eloá catava os caquinhos de sua mãe, mesmo enlouquecendo aos poucos. Carente demais, triste demais, insana demais.

Talvez, só talvez, se estivesse bem, não teria se apaixonado tão perdidamente.

KATON - INCERTEZAS.Where stories live. Discover now