capítulo 1: Gravidade inversa

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O céu estava coberto por nuvens densas quando Ochako avistou a silhueta encapuzada sentada nas ruínas de um hospital abandonado. Era como se o tempo tivesse parado — ou talvez fosse a gravidade ao redor dela que oscilava, como fazia sempre que algo mexia fundo demais com seu coração.

— Você não deveria estar aqui. — A voz de Ochako cortou o silêncio, firme, mas sem agressividade.

Himiko Toga virou o rosto devagar. Os olhos dourados brilharam com uma familiaridade desconcertante.

— E você ainda está tentando salvar o mundo... mesmo depois de tudo isso? — ela respondeu, com um sorriso cansado e um corte recente na bochecha.

Uraraka não respondeu de imediato. Em vez disso, caminhou até ficar a poucos passos da vilã — ex-vilã? — e olhou ao redor: o cenário era devastador, mas dentro dela, o conflito era maior.

— Por que não fugiu?

— Porque eu queria que você me encontrasse. — Toga falou com sinceridade crua. — Queria saber se... mesmo depois do que eu fiz, você ainda seria capaz de me olhar sem ódio.

O coração de Ochako apertou. Durante a guerra, as duas se enfrentaram tantas vezes. Toga dizia que amava as pessoas que queria ser. Que queria se transformar nelas. Mas, com Uraraka, aquilo parecia diferente. Havia ternura escondida no caos.

— Você me deixou confusa. — Uraraka murmurou, sentando-se ao lado dela. — Mas talvez... talvez eu entenda agora. Você só queria ser aceita, não é?

Toga assentiu lentamente, os olhos começando a marejar.

— Eu... não sabia como mostrar isso. Eu era feita de cortes, sangue e máscaras. Mas com você... eu queria ser eu mesma. Mesmo que eu ainda nem soubesse quem era.

O silêncio entre elas não era desconfortável. Era pesado, sim, mas necessário. Como uma ponte entre duas margens que sempre pareceram intransponíveis.

Então, Uraraka estendeu a mão. E, pela primeira vez, Toga não viu uma heroína tentando prendê-la. Viu uma garota. Uma garota que, mesmo ferida, escolheu confiar.

— Talvez... a gente possa tentar de novo. Do zero. Não como heroína e vilã. Só como... Ochako e Himiko.

Toga sorriu. E pela primeira vez, não foi um sorriso louco, distorcido. Foi suave. Esperançoso.

— Você é perigosa, sabe? — disse, pegando a mão de Uraraka com delicadeza. — Me faz querer viver.

E pela primeira vez, Toga sentiu que não precisava mudar para ser amada. E Uraraka percebeu que nem toda redenção vem pela justiça — algumas vêm pelo perdãoa

Entre o Caus e a GravidadeWhere stories live. Discover now