Não solta

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O abandono é uma facada no corpo frágil e indefeso de uma criança que não entende o mundo e só quer a segurança dos pais. Uma facada sempre deixa uma cicatriz, sempre. Se Izana tivesse que dizer, tudo o que ele mais quer nesse maldito e doloroso viver, é apenas abraçar a criança abandona e assustada que existe em sua alma. Mas não é um abraço suave, é um abraço forte, daqueles que sufocam e quebraria até alguns ossos. Iria segurar aquela criança, sua cabeça, seguraria com força para não deixar partir com a brisa da ventania da vida.

Ele cresceu com o medo, pavor, do abandono. Nunca se sentiu amado em sua família — no que restou dela pelo menos —, ao menos não 100%. Ou é eu te amo ou eu te odeio, nunca um meio termo. Ele sente demais. Está na borda, tudo bem, dá pra viver, mas ainda está na borda do penhasco. Quando ele cai, tudo acaba. Melhor do que a subida obviamente é a queda. Todos os seus medos, temores, pavores, ódios, amores, tudo vem de uma vez. É estar encurralado num beco escuro e vazio com a cara da morte a sua frente. Nessa queda, ninguém o segurou, ninguém o puxou de volta. Ele não é amado? Se é o caso, então por que eles o soltaram? Por que não o seguraram? Por que o abandonaram na queda? São todos esses questionamentos que o fazem, em sua queda, ter mais que absoluta certeza duvidosa que não é amado por aqueles que dizem que o amam.

Uma vez, descobriu que grandes emoções exigem soluções tão grandes quanto. Soluções? Não, alívio imediato. Com o semblante desequilibrado e meio desesperado, diz palavras afiadas e ácidas que são mais espinhentas que uma rosa selvagem. As vezes, joga as decorações de seu quarto no chão, quebra coisas na paredes. As vezes, desconta fisicamente. Ora fuma, ora se belisca. Dói? Claro que dói, no entanto é um estímulo físico, não condiz com a emoção. A reação obtida é a mudança do foco, aquela ansiedade, medo, sensação de queda, tudo isso fica no mudo, todavia continua ali. Ele só quer sentir menos. Ele sente demais.

Sempre teve medo de Kakucho, seu servo mais leal ao seu lado, se tornar um traidor. Paranoia venenosa que o definha há anos. Corrói seu organismo com espinhos, apodrece. Se ele o abandonar, o que Izana vai fazer? Ele vai cair daquela borda de novo. Ele vai ficar sozinho. Vai cair num abismo escuro, vazio e solitário. O definhamento não traz só isso, traz a paranoia de não ser de fato amado por Hitto. Deveria agradecer pelo seu servo ser tão eficiente em seu trabalho de fingir amar seu rei? Ele é grato, porém implora ao inexistente que seja uma mentira cruel somente. As vezes pensa que Kakucho vai soltar sua mão. Ele não pode. Não tem ele esse direito! E é essa paranoia que já os levou a diversas discussões, inclusive esta que se explica devido ao ciúmes — ciúmes? — de Izana com alguma pessoa qualquer que recebeu mais atenção de seu servo do que o aceitável para a situação.

De braços cruzados, olhos marejados, andando freneticamente pelo quarto enquanto tenta se justificar, Izana já quebrou alguns objetos, além de decorações jogadas no chão com raiva e fúria outrora.

— "Izana, você sequer está se ouvindo?! Não faz sentido! Para de ser paranoico! Eu estava só conversando!"

— "Estava me ignorando!"

— "Tem uma diferença mais que clara entre ignorar e não dar atenção."

— "Mas...você ia me abandonar!"

— "Quando que eu ia te abandonar, Izana?!"

Impaciente o moreno bradou, já estava exausto daquelas explosões repentinas de seu namorado. Estavam cada vez mais frequentes. Kakucho sabe que Izana tem seus traumas e cicatrizes, ele também, mas é tão difícil entender alguém que não quer explicar — ou consegue — o que está dolorido. Como ele poderia parar de fazer algo que deixa Izana com essa maldita paranoia — porque ele imediatamente pensaria numa forma de se permitir viver, mas sem machucar os sentimentos de Kurokawa — quando o próprio Izana não fala o que está acontecendo?

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