Capítulo 1 - Aonde você pensava estar aos 20 e poucos?

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Todos temos sonhos.
Se acha que não, pense um pouco em quem você pensava que seria aos 20 e poucos anos. Nós amamos idealizar a nossa vida. Principalmente criando uma vida simples, sem preocupações ou obrigações. Um paraíso de tranquilidade e liberdade, onde tudo parece perfeito.

Acordei com os gritos desesperados da Emilly, minha amiga que divide um apartamento minúsculo comigo no meio de Brasília. É, definitivamente não era aonde eu esperava estar a essa altura da minha vida.

-  Isabela, você está atrasada! você sabe que hoje é o dia, de catalogar vários livros que vão pra livraria amanhã, a gente precisa correr, ou vão encher o nosso saco o resto do dia.  — Ela tirava a coberta de meu rosto e abria as janelas fazendo aquela luz queimar as minhas belas córneas.

Eu abri os olhos rapidamente, confusa e desorientada. Olhei para o relógio na mesa de cabeceira e vi que já eram 8:15 da manhã. Eu deveria estar no trabalho a quinze minutos..

- Ah, não! por que você ainda mora comigo? — digo isso ainda guiada pela preguiça de ser recém acordada, e não cauculando o atraso.

Decido olhar o relógio novamente e com consciência e dei um salto, sentindo a adrenalina correr pelo meu corpo. EU DEVERIA ESTAR NO TRABALHO A 15 MINUTOS!

O sonho maravilhoso se dissipa rápido quando é substituído pela correria.
É exatamente o que acontece quando crescemos.

Corri para o banheiro para lavar o rosto e escovar os dentes em tempo recorde. Vesti a primeira roupa que encontrei no armário, uma calça jeans e uma blusa amassada social com listras azul claro.

- Porque eu sou a única que te aguenta, mal agradecida! ㅡ Emilly gritava pra mim enquanto tomava sua xicara de café e colocava mais uma para que eu podesse tomar antes de sair.

De certa forma Emilly, tinha razão.
Acho que no fim das contas são poucas as pessoas que ficam nas nossas vidas e podemos contar quando crescemos. Sou grata por Emilly ser uma dessas.
Até porque, fazer novas e profundas amizades na vida adulta é extremamente difícil.

Sem tempo para um café da manhã decente, bebo rápido aquela xícara que Emilly deixou, pego uma maçã da fruteira e coloco na bolsa enquanto corro para porta de saída, onde a Emilly já me espera de braços cruzados e revirando o olho.

No elevador, tento pentear o cabelo com os dedos enquanto olhava para seu reflexo no espelho, vendo as olheiras profundas denunciando as poucas horas de sono. Mas tudo bem, é só mais um dia de trabalho com as mesmas pessoas. Ninguém liga.

Chegando na rua, vimos que o ônibus que costumava pegar já havia passado. Respirei fundo e começamos a caminhar rapidamente em direção à estação de metrô, senti o peso da vida adulta esmagando os vestígios do mundo ideal que eu havia imaginado.

Apesar de todas as desventuras, conseguimos chegar, com 30 min de atrasos. Eu celebro isso, porque poderia ter sido pior, apesar disso ouvimos indiretas do porteiro.

As vezes eu até penso "Meu Deus, como minha vida virou de cabeça pra baixo dessa maneira?" não que eu seja metida ou algo assim, não me leve a mal, mas eu sempre fui uma menina sonhadora, leitora, que saia fotografando tudo que via de bonito, sonhando com o seu conto de fadas moderno.

Mas sem perceber, estando pronta ou não, a vida adulta chegou.
E chegou me atropelando.
As coisas são bem diferentes na vida real.

- "Reclame menos, ame mais." fala sério, que título de livro de romance é esse? — eu digo para Emilly e reviro os olhos, enquanto jogo ele em mais uma pilhas de livros que vai sair para as livrarias.

- Nem me fala, a gente acha cada coisa depois de algum tempo trabalhando aqui...
Wesley! Ei, espera! leva essa pilha aqui para o caminhão!! — Ela concorda comigo e sai correndo chamando o porteiro pra ajudar a levar os livros que serão despaixados.

Todo mundo faz um pouco de tudo aqui. Editora sonhos. Que irônico.
Eu sempre sonhei que seria uma escritora, ou uma fotógrafa profissional, mas estar aqui foi o mais perto que cheguei do meu sonho. E não é ruim, eu ganho bem o suficiente pra viver confortável e ajudar minha família, mas não era bem aqui que eu imaginava que estaria.

De acordo com meus gostos literários talvez você deve estar pensando que eu sou uma pessoa romântica cheia de sonhos e uma vontade imensa de casar com o meu príncipe ter dois filhos, mas a realidade é que, eu sou péssima quando o assunto é amor.
Me envolvi com apenas um cara ao longo da vida, quase casamos e foi tudo lindo, até o dia que ele decidiu ir embora, decidiu viver a vida de outra forma, ele queria ser um "tigre que não é domado" ㅡ como se eu quisesse e tivesse tempo de ficar domando gente, eu tenho trabalho e uma vida, não perco meu tempo "tentando domar" ninguém. Foi a pior desculpa que ele podia dar para "quero pegar geral, cansei de você." "Não te amo mais."

Isso tudo foi uma grande injustiça. O amor não pede licença para chegar; é algo lindo que nos surpreende, e é incrível ser surpreendido pelo amor. Mas ele também não pede licença e não dá aviso prévio para partir. Não importa se você sofre e fica aos pedaços, sentindo-se a pessoa mais solitária do mundo. Ele não á mínima.
O amor é totalmente incontrolável, perigoso e imprevisível. Então, por mais caótico que seja, eu prefiro a realidade.

Essa foi minha história de amor. Emocionante, não? A vida real é assim, e eu vivo nela. Tive meu romance, que foi um desastre, e agora acabou. Deixo as histórias de finais felizes para os livros e sigo trabalhando.

Bem vindos, essa é a vida adulta.

Mas não pense que estou chorando em um quarto escuro, ouvindo "Too Good at Goodbyes" do Sam Smith e esperando que um novo príncipe apareça com um buquê de flores para consertar meu coração frágil e partido.

Na verdade, neste momento, estou me preparando para uma noite de autógrafos de gala de um músico famoso, que lançou o livro "Minha Melodia é Você".

Ok, por que estou me gabando disso? — Rio sozinha do meu próprio fracasso.

Minha opinião polêmica é que ou você é escritor ou cantor; muitos famosos adoram aproveitar a fama para vender livros... péssimos, por sinal! Mas, como parte da editora Sonho, estarei lá.

Minha agenda está sempre lotada. Quando não estou trabalhando na editora, arrumo novas formas de me ocupar, como ir a livrarias fazer uns "bicos" de forografia e outras coisas do tipo. Então, não senti e nem sinto nenhuma saudade do Lucas. Sinceramente, entendo que acabou. — Viu, Sam Smith? Eu sou realmente boa em despedidas. Tanto que, estou totalmente satisfeita com essa, e espero não ter outras.

Eu tenho a mim mesma, e eu sou totalmente fiel a minha essência.

Quando Lucas foi embora um dia antes de nos casarmos, ele me deixou totalmente sem saber o que fazer. Fiquei de braços cruzados diante do destino — e diante de vários doces, vestido de noiva e a droga das 2 mil flores de decoração — e tudo que eu fazia era me perguntar: "E agora? É isso? É assim que a minha história vai acabar? Comendo os doces do meu casamento fracassado sentada no meio-fio?" Foi um saco, detestei me sentir assim. Não combina comigo.

Mas, isso passou, odeio ficar me lamentando.
Já faz exatos 6 anos que o Lucas foi embora, nesse tempo eu estudei e trabalhei muito duro, e tentei me reconstrui.

Estou muito longe de estar aonde eu queria, mas fico feliz de não estar mais aonde ele me deixou.

No final o amor até que me ajudou, não foi? Me sinto ótima, me sinto feliz, e a única coisa que eu penso é em continuar me empenhando cada vez mais.

Eu não posso dizer que amo meu trabalho, mas certamente estar aqui na editora é um passo mais perto do meu sonho de escrever. Eu estou dando passos, e isso me faz feliz. Essa é minha história de amor..

A rotina tediosa e estressante voltava a dominar meus pensamentos, mas, em algum lugar no fundo da minha mente, eu ainda mantinha uma pequena chama de esperança de que o futuro pudesse me reservar boas surpresas.

NOTAS DO DESTINOWhere stories live. Discover now