Prólogo

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O rio aninhava-se próximo às montanhas, descia pelo extremo leste da ilha, criava afluentes, florescia bosques e abastecia arrozais, levava vida à pequena aldeia perdida no mundo; 
naquela manhã, porém, um intruso infiltrara-se na água, amarelo, líquido e pervertido
que, disfarçado, se deixou serpentear pela correnteza, corrompendo tudo o que tocava.

À mata, trouxe cinza; à cidade, desespero.

A doença do sapo havia chegado.

***

A lhama adentrou o bosque com cuidado para não acordar o filhote de panda vermelho que dormia em seu dorso. A vegetação recém espreguiçava-se naquela manhã, como se reverenciasse os dois.

Ou os alertasse do perigo que corriam entrando ali.

Haviam se conhecido há poucos dias, quando o pequeno panda, ao lado da mãe, fazia sua primeira aventura pelo cerrado, no leste da ilha e próximo ao penhasco, há vários metros acima do nível do mar.

Curioso e enérgico, o filhote saltitava pelo capim alto, caçava borboletas, observava os pássaros nos topos das árvores, escutava os diferentes zumbidos da natureza. A mãe às vezes o perdia de vista, voltando a caminhar quando ele ressurgia. Até que seu filho desapareceu de vez.

Ela aguardou um instante, estampando um sorriso duvidoso no focinho, como se esperasse uma brincadeira tola. Uivou uma, duas vezes e o sorriso foi murchando. A natureza continuava calma, o capim balançando leve e uniformemente não dava sinais do filho.

Seu coração acelerou. Se fosse alguma brincadeira, ele estaria muito encrencado, mas ela torcia para que fosse. Começou a correr de um lado a outro, farejava e olhava atentamente a qualquer sinal de agitação da mata.

E o filho não apareceu. E o desespero tomou conta de si.

Com o rugido das ondas ali perto, uma ideia assustadora surgiu. O penhasco! Sem pensar, correu até ele, parou bruscamente sobre as pedras lisas na borda e esticou o pescoço diante da parede imensa, tão alta, que as ondas, mesmo barulhentas, pareciam pequeninhas.

Seu pequeno corpo não respondeu direito depois disso. Era horrível a sensação de olhar lá para baixo. O vento naquela encosta era mais forte e trazia a sensação gelada do desconhecido. Ali era o limite da ilha, o mundo misterioso e selvagem mostrava sua imensidão no horizonte. Ainda assim, ela uivou com todas as forças. Contra o vento e o medo. Aquele era seu único filho, a única vida que ela havia gerado, a coisa mais importante com o que ela precisava se preocupar.

Veio um resmungo dolorido como resposta, quase um chiado, mas ela soube imediatamente: era ele! No meio do desfiladeiro, o filhote panda levantava-se com dificuldade. Na queda, tinha raspado o couro em diferentes partes e torcido uma das patas dianteiras. Por sorte, chocou-se em uma das várias saliências da rocha, uma que havia grama fofa.

Fez força nas patas boas, viu filetes de sangue tingirem a grama, olhou para cima e mãe e filho se viram novamente. A sensação era de que há muito tempo aquilo não acontecia. Ele gemeu pedindo ajuda e ela olhou ao redor, procurando por um caminho seguro para descer. Testou aqui e ali, a terra, as pedras, mas tudo era tão íngreme e úmido que não havia o que fazer. Assim, ela foi ladeando o topo do penhasco, como se ainda tentasse achar uma solução, ou como se desistisse... Os dois olharam-se uma última vez, chorosos, antes de ela desaparecer.

Sozinho e sem ter o que fazer, o filhote encolheu-se, recebendo o castigo do vento sobre as feridas e lamentando ter se afastado da mãe para ver o mar. Vez ou outra, uivava para o nada, até que a agitação foi cessando, conformando-se àquela nova condição.

Quando a lua surgiu no céu e a claridade se apagava, um gemido gutural o fez levantar assustado. Parada em um pequeno raminho na parede chumbo estava uma lhama. Que foi saltando sem medo pelas protuberâncias do penhasco, até chegar aonde o panda estava.

Logo que se encontraram, a lhama apiedou-se ao ver os olhos encharcados e as feridas ainda abertas do panda. Baixou o pescoço e os dois focinhos se tocaram. Formaram uma amizade repentina e improvável. Mas não incomum, pois a natureza é mãe, irmã, a natureza acolhe e sabe dar amor.

Agora, estavam no bosque e a lhama bebia a água do riacho, sem notar que algo mais descia das montanhas.

***

Quando o panda acordou, estava no dorso macio da amiga lhama. Por um instante, perguntou-se porque ela e não a mãe, então, se lembrou do dia horrível no penhasco. Era a mesma coisa todas as vezes que acordava.

Depois de um longo bocejo, coçou os olhos, depois a barriga. Encontrou uma pétala estranha, cinza e velha, e sem cheiro algum. Levou-a até o focinho e fungou, e percebeu que nada mais cheirava também. Nem o verde, nem a terra. Estranho.

Ergueu-se com as sobrancelhas franzidas e viu, não muito longe deles, um esquilo mastigar com violência uma goiaba que era um tanto nojenta. O chão estava repleto delas, todas podres, partidas com a queda. O interior era uma carne escura e esponjosa e a pele verde tinha uma capa de gavinhas brancas, feito patinhas de animais peçonhentos. Os olhos do esquilo estavam anuviados e se perdiam em algum lugar que não era ali, seus dentes atacavam a fruta podre, deixando escorrer uma baba amarelada pelo canto da boca.

Então, o panda viu algo que o fez acordar de vez. Os pequenos dedos do esquilo, estavam todos picados, ele próprio os mastigava em meio ao frenesi. O sangue misturava-se a um suco branco e oleoso que escorria da fruta. Era horrível de ver.

Tentou se levantar para alertar a amiga, mas assustado, desequilibrou-se e caiu. Quebrou um galho seco, machucou as costas e, no chão, viu o terror. Havia uma névoa fantasmagórica que entrelaçava suas patas. Era como pisar na própria maldade. Pior ainda foi ver o corpo da amiga. A lã estava ressecada e desgarrava-se da barriga que inchava e contraia, batendo como tambores no prenuncio da guerra.

O panda não aguentou mais e chorou. Era um pesadelo, mais um. Esfregou os olhos mais uma vez, tentando acordar, queria ter sua amiga do jeito que era, queria ter sua mãe de volta, mas quando tirou as mãos do rosto, a cabeça tétrica da lhama estava bem na sua frente.

Os dois olhos grandes e hipnóticos pareciam faróis sem vida no breu que era o bosque. A cabeça da lhama era quase o corpo inteiro do filhote vermelho, moscas zuniam em volta, sua respiração era forte e quente e uma baba de espuma amarela deslizava para fora do beiço.

O panda não a reconhecia mais e, talvez, ela não o reconhecesse também. Talvez, aquele enorme focinho dilatava, não a procura do amigo, mas de comida. Um pequeno vislumbre, onde era mastigado vivo o invadiu e ele não aguentou, fugiu, pisando em pedras, galhos e se cortando ainda mais.

A natureza sabe amar e acolher, mas também, ser grotesca e repelir.

Quanto ao líquido amarelo, em breve, seus tentáculos estariam em afluentes e dutos e a ilha toda conheceria o seu veneno.

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