— Cordeiro ou porco?
— Sim, claro.
— Ezequiel?!?
— Hmmm? - O tom injuriado que Gertrude usou para chamar-me a atenção despertou-me pela primeira vez em tempos - Desculpe, meu bem. O que disse?
— Seu rosti. Você quer recheado com cordeiro ou porco?
— Cordeiro! Sim...Quer dizer... Eu acho. Não sei dizer.
Gertrude suspirou fundo impaciente, entregando o menu ao garçom que nos atendia.
— Será cordeiro, então. Obrigada.
O garçom acenou educadamente e saiu com os pedidos devidamente realizados por minha esposa, que olhava para mim com uma expressão preocupada.
— Meu bem, qual o problema? Quer dizer, um pouco indelicado de minha parte fazer esse tipo de pergunta agora, claro, mas... — fez uma pausa dramática, parecendo tentar escolher as melhores palavras - convenhamos que você não era tão próximo assim de seu pai, então esse teu silêncio está me assustando.
Ela tinha razão. Eu e meu pai não morríamos de amores um pelo outro e certamente quem conhecia o mínimo de nosso relacionamento ao longo dos anos entenderia os nossos motivos, mas é que houveram tantas coisas não resolvidas entre nós que nem os sete palmos de areia sob o seu caixão seriam capazes de enterrar de uma só vez. E isso me consumia. Havia algo para além da morte de pai Bento que me tirava a atenção da tempestade de gelo que se formava além da janela do trem. Era algo que Gertrude ainda não sabia.
Fitei seriamente os belos olhos de minha esposa, que me encarava atenciosamente séria. Quando a conheci pela primeira vez, temi que seríamos apenas mais uma anedota barata de teorias freudianas, pois sentia-me estar diante de uma versão jovem de minha bela e falecida mãe. Gertrude era alta, forte e esbelta, com postura altiva e decidida. Mas a verdade é que as comparações sempre paravam quando eu encarava os olhos das duas. A resposta sempre esteve no olhar. Se mamãe tinha um olhar de mistério, os de Gertrude sempre mostravam a solução. Seu olhar é límpido e cristalino, tanto quanto a sua mente sem rodeios. Até hoje ela me fascina e me tranquiliza, pois sua sensualidade reside na sinceridade de cada uma de suas expressões.
Eu simplesmente confio a minha vida a essa mulher.
— Trudy, eu tenho de dizer uma coisa... — Percebi que sua expressão corporal deu uma leve alterada, tensionando um pouco os ombros e inclinando-se levemente para trás, como se tivesse tomado um leve susto. O rosto, entretanto, manteve-se impassível — Sabe Adalberto?
— O advogado de seu pai?
— Ele mesmo. Então... — Eu pigarreei e olhei para os lados, numa reação quase instintiva de verificar a presença de outrem, porém estávamos em uma cabine de primeira classe em um trem suíço, então não havia a mínima possibilidade de ter alguém ali por perto interessado no que falávamos em português - acontece que aqueles bens citados no testamento não foram as únicas coisas que papai deixou para Adalberto me entregar.
— Seu pai tinha ainda mais posses?!?
— Não, não é nada disso. É...diferente.
— Não estou entendendo...
Levantei-me e peguei minha maleta no guardador, pondo sobre a mesa de apoio logo a minha frente. Abri-a e retirei um envelope de carta espesso e o entreguei nas mãos de Gertrude, que analisou curiosa sem ainda abrir o envelope. Notou o nome escrito nele.
— Escobar? Por acaso esse não é o...
— Suposto "affair" de minha mãe? Sim, é ele mesmo.
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A Carta - Uma História Dom Casmurro
FanfictionDesde o ano passado, quando decidi finalmente tirar Dom Casmurro da minha lista de "Livros para Ler Antes de Morrer", que eu fiquei um tanto obcecada com o livro e pensei em escrever uma fanfic sobre, afinal COMO ASSIM NÃO NOS ENSINARAM NA ESCOLA QU...
